
Pela quarta vez, a antiga sede dos Correios, na Avenida Paulo VI, na Pituba, irá a leilão, na tentativa de reduzir a dívida da empresa. Desde 2019, o edital não recebe interessados para a compra do prédio, que tem 17 andares e quase 31 mil m² de área construída em um terreno de 34.689,00 m². Para tentar conseguir compradores, os Correios reduziram o lance mínimo de R$ 248 milhões – valor do primeiro leilão, em fevereiro de 2019 ??? para pouco menos de R$ 144 milhões, ou seja, um preço 58% menor que o inicialmente proposto. A nova licitação de venda será feita nesta quinta-feira (24), às 10h.
Durante quase 30 anos, funcionaram ali os serviços da empresa responsável pelas entregas no país, até o local ser desocupado, em 2019. Esse desinteresse no prédio, hoje, não condiz com os tempos áureos em que ele foi inaugurado, em 16 de julho de 1983, nem com sua localização. A duas quadras da praia, no coração de um dos bairros com o metro quadrado mais caro de Salvador, a estrutura era tida como moderna pelos corretores e arquitetos. ???Não é um estilo arquitetônico que agrade todo mundo, mas, na época, era tido como um prédio arrojado???, lembra o diretor e 2º secretário do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da Bahia (Creci-BA), Noel Silva.
Acontece que, hoje, o edifício não se enquadra mais na realidade dos vizinhos e custa muito mais do que deveria. ???O tipo de edificação não é prático, atende à finalidade a que ele foi proposto, para o funcionamento da sede dos Correios. Dificilmente algum comprador vai ter aproveitamento bom daquela área. Teria que se fazer muita modificação, porque os prédios comerciais, hoje, estão muito mais modernos e sofisticados. Não é à toa que, até hoje, não foi vendido???, avalia Silva.
Veja vídeo do prédio:
Valor fora da realidade
Segundo o corretor, o preço do lance mínimo é ???até barato??? se for considerada somente a área construída. Porém, é comercialmente inviável, quando se considera o terreno como um todo. Ele defende que um valor razoável seria o de cobrar R$ 3 mil por metro quadrado, o que totalizaria R$ 108 milhões. Isso porque, para ele, a solução seria demolir a estrutura e começar do zero.
???Para o investidor, o que interessa ali é o terreno, porque daria um belo empreendimento. Só que cobrar R$ 143 milhões é caro, porque se teria um custo alto com a demolição, ainda se teria que retirar os entulhos e fazer um novo projeto???, argumenta. Ele sugere a criação de torres residenciais ou de um misto de residência com comércio.
Para o arquiteto e urbanista Luiz Antônio de Souza, presidente do Instituto de Arquitetos da Bahia (IAB), não é surpresa que o prédio não tenha sido vendido, por ser muito particular. ???Não é fácil vender um edifício com tantos metros quadros de área construída. Ele é extremamente singular, como se fosse uma joia única no mundo. Quem quer comprar, fará de tudo para o preço descer e desvalorizar, até que se pareça com o ???preço de mercado??? que, na verdade, é apenas especulação???, explica Souza.
A solução seria desistir da venda e dar outra função ao imóvel. ???Ao invés de vender e dar margem para que, cada vez mais, se reduza o valor do imóvel para algum especulador, é preciso se inverter a discussão. Ali, caberiam todos os prédios do CAB [Centro Administrativo da Bahia] ou todos os órgãos federais, que estão espalhados em prédios da cidade, em péssimas localizações e edifícios degradados ou alugados. Essa prática de venda de imóveis públicos por preços irrisórios, como foi com o Palácio Rio Branco e dos Esportes, só cria proprietários para aquilo que é público???, completa.
Imóvel pode ser imediatamente ocupado
Segundo os Correios, que demoraram 40 dias para responder à reportagem, tanto o terreno quanto a estrutura predial podem ser, imediatamente, utilizados pelos novos proprietários, visto que está há quatro anos desocupado. O público-alvo da licitação são as grandes incorporadoras e a área tem potencial para uso comercial ou residencial.
???O segmento das grandes incorporadoras é o setor com grande interesse na compra do imóvel, considerando suas características, localização e potencialidades de construção. Além disso, o imóvel tem liquidez de longo prazo, portanto, o mercado terá tempo de maturação para concluir o investimento dessa envergadura???, informa a empresa, por meio de nota.
Os Correios detalham que o prédio tem sete elevadores e o terreno tem capacidade construtiva estimada em até 105 mil m². Além desse imóvel, outro empreendimento dos Correios está à venda, em Itaparica. Esse feirão de leilões, segundo a instituição, é uma ???iniciativa de otimização da carteira imobiliária???, a fim de “racionalizar despesas e melhorar a ocupação de imóveis próprios e locados em todo o território nacional???. Para mais informações, acesse: www.feiraodeimoveiscorreios.com.br.
A Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia (Ademi-BA) foi procurada, com 7 dias de antecedência à data de publicação da matéria, mas não pôde dar entrevista. O Sindicato da Indústria da Construção do Estado da Bahia (Sinduscon-BA) não tinha informações sobre o assunto.
Prós e contras da privatização dos Correios
Em meio aos leilões de prédios dos Correios, o Congresso Nacional, através do projeto de lei 591/2021, de autoria do Poder Executivo, discute a privatização da empresa. O texto do PL autoriza que os serviços postais sejam explorados pela iniciativa privada, inclusive os prestados em regime de monopólio. Pela proposta, o Estado manterá uma parte dos serviços, que inclui encomendas simples, cartas e telegramas.
Segundo o professor e consultor de economia e finanças, Antônio Carvalho, a privatização de uma empresa pública começa a entrar em pauta quando ela gera prejuízo para o Estado. ???Uma empresa pública deve gerar lucro para o governo poder investir em políticas públicas. Nesse sentido, não se justifica ela ser deficitária, porque causa um efeito contrário, de o Estado ter que subsidiar. Os defensores da privatização seguem nessa linha???, explica.
A segunda função de uma empresa pública é a social, a defendida pelos contrários à privatização. ???Os Correios têm uma grande função social, atuando na entrega de correspondências, dando suporte a determinadas áreas, como a distribuição de livros didáticos, urnas e provas do ENEM, além de atuar como banco postal e estar presente em municípios que, muitas vezes, não têm universidades ou hospitais. Ou seja, chega onde ninguém chega???, adiciona o economista.
O receio, caso a empresa tenha iniciativa privada, é o foco somente na parte logística e o abandono à função social, além de um possível aumento de preços e demissões de funcionários. Para discutir o projeto com a sociedade civil, o governo federal abriu uma consulta pública, desde o dia 25 de fevereiro, sobre o processo de privatização da empresa. Ele ficará disponível até meados de abril, na plataforma Participa + Brasil, para os interessados darem contribuições sobre o tema. Também será realizada uma audiência pública na próxima quinta-feira (24).
Histórico de leilões do prédio dos Correios:
Fevereiro de 2019 – lance mínimo de R$ 248 milhões
Maio de 2019 – lance mínimo de R$ 211,5 milhões
Abril de 2021 – lance mínimo de R$ 197 milhões
Março de 2022 – lance mínimo de R$ 144 milhões

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