Comando de Caça a Chaplin

Escrito por: Diógenes Cunha

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Gil Vicente Tavares

Na brevíssima temporada que passei na Suíça, estive em Vevey, num domingo, com o único intuito de conhecer o Chaplin???s World.

Andando pelos aposentos preservados da casa, vemos vídeos, fotos, esculturas de cera, obras de arte, utensílios de Chaplin e informações, nas paredes, sobre sua história, sua criação. Fui me emocionando com tudo, mas o que mais me pegou foram as perseguições políticas.

Chaplin começou a ser malvisto por conta de filmes como Tempos Modernos (1936), onde sua crítica à mecanização do homem soava como uma crítica ao capitalismo. E piorou quando ele criticou Hitler, no filme O Grande Ditador (1940).

Os desavisados, acostumados às narrativas que sempre põem os EUA como o país da liberdade, democrático e progressista, talvez não saibam que, em 1939, 20 mil pessoas lotaram o Madison Square Garden, em Nova Iorque, para um comício nazista; já com a 2ª Guerra Mundial em curso. Sim, no país da Ku Klux Khan houve forte simpatia ao fascismo alemão, e o governo achava que Hitler era um mal necessário para combater o comunismo; o eterno fantasma de assustar idiotas. Sim, lá, como no Brasil, há sempre idiotas com medo do comunismo tomar conta do país, e o filme O Grande Ditador, criticando Hitler, foi visto com maus olhos. 

Os EUA só entrariam na guerra final de 1941, por conta do bombardeio japonês a Pearl Harbor. O que fez, inclusive, com que o governo do país mandasse cerca de 120 mil cidadãos nipo-americanos ??? crianças e idosos inclusos ??? para Campos de Concentração espalhados por 7 estados do país.

Os EUA acabaram lutando ao lado da União Soviética e, finda a 2ª Guerra Mundial, outra se estabeleceu: a Guerra Fria.

Como botar medo e inventar mentiras são dois ótimos recursos para cooptar idiotas, em 1950 o senador Joseph McCarthy descobriu uma oportunidade de ouro. O que foi chamado de Macarthismo era a perseguição radical a todos os suspeitos de estarem associados ao comunismo. Prisões, confiscos, interrogatórios.

Assisti, final de semana, ao documentário A Alma da América (2020), protagonizado pelo historiador Jon Meacham. Preocupado com a guinada à extrema-direta da eleição de Trump, Meacham traça um histórico dos períodos sombrios do país, denunciando um lado nefasto de seu povo e governantes, para mostrar como o país conseguiu, nalgum momento, se livrar de questões como as que citei, aqui, e outras mais, como os direitos civis para mulheres e o povo afro-americano. Meacham deixa claro o quanto McCarthy tinha consciência de que não havia ameaça nenhuma comunista, mas que este seria um bom recurso para se popularizar e conseguir apoio maciço de eleitores.

Chaplin foi um gênio. Escrevia, dirigia, atuava e compunha a trilha dos próprios filmes. Em 1952, ele, que já havia prestado depoimento sobre acusações de comunismo, e estava com sua vida toda sendo investigada, foi fazer uma breve viagem ao Reino Unido para lançar seu novo filme, Luzes da Ribalta. Foi a oportunidade do FBI revogar o visto de Chaplin, exilando-o do país.

Chaplin só voltou aos EUA em 1972, há 50 anos, para receber um Oscar honorário. Morreu em Vevey, na Suíça.

Seja comunismo, mamata da Rouanet, perversão, ou qualquer outra invenção idiota, sempre haverá idiotas censurando, perseguindo e estigmatizando artistas. E idiotas apoiando.

McCarthy passou para a história como um canalha. Chaplin, como gênio.

Há sempre a oportunidade de se entender melhor a história, que sempre se repete, para se olhar o presente e se escolher de qual desses lados você quer estar.

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