Quem ensina o que não sabe (por Paulo Delgado)

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Ao transferir para a esfera pública, por interesse político, segredo da vida privada, cônjuges se fazem de cúmplices ou subjugados, esfacelando a força espiritual da aliança e manifestando a forma feudal como é vivida. Mostrar-se homem em público diante da mulher é mais do que panfleto ou brochura de privação na infância. ?? cartilha de uma fé de adulto, desejo de que os recantos mais íntimos das pessoas estejam sob controle total do poder arbitrário, dominando a pessoa livre.

Duzentos anos de evolução de um povo podem ser destruídos em um único dia pelo fogo morto da cana dos engenhos, escondido nas turbinas da máquina do tempo, vertendo seu óleo queimado para cima da multidão.

A cabeça abarrotada de armas, um arsenal de insensibilidades de alguém dedicado ao litígio, que luta para permanecer vivendo os sonhos de locatário da nação. E na província afastada da bondade das pessoas, o tempo envelheceu, mas não cede. Enquanto um mausoléu de ideias, ditas para condenar à morte o diálogo, faz com que as cidades e as casas sejam colocadas diante de valores dúbios, confusos e diariamente fustigados, comemorando a nova adesão às coisas que ataca. A sombra aumentou no verão, a claridade faltou no inverno, e o poder implacável como é conquistado segue despoetizando tudo o que toca.

Não parece paz a desse moço, ouve-se um sussurro com sotaque português do convidado esquecido no palanque, com o coração do Imperador à mostra.

Fogem os ímpios, sem que ninguém os persiga.  Por causa de sua transgressão, muitos são os governantes agitados.  Os que não respeitam a lei o louvam. Cortam a bandeira para costurar suas roupas com fios de interesse. Não entendem o juízo que os espera.  O que guarda a lei deveria ser o sábio, mas é o bobo diante dos comilões que envergonham o apetite, fazendo com que os retos se desviem para a gula. Sem inteligência o governante multiplica seus desastres. Mas nunca está só em um país que vive uma espécie de superstição espalhada pelos veteranos do pânico.

Quando os ímpios sobem, é comum que os bons se confundam, pois a maioria é de paz. Até que uma corrente submarina começa a se formar e os justos se multiplicam em busca de um novo significado para a vida. O horror da política então se manifesta ferozmente e tenta manipular o outro com sua própria compreensão da vida e suas dificuldades.  Este o momento oportuno, inesperdiçavel. A vacuidade das vacuidades se instala. Uma porta se abre. A precedência é da pessoa livre que não faz de sua escolha um lugar para esquecimento imediato.

Quem não viu a civilização sendo corrompida/Quando o ser humano se perde no que faz/Não é pouco cada um tentar na vida ser feliz/Porque essa é a parte que lhe cabe.

Não leve o celular/Use o coração e a razão/Somos um povo ainda governável/Nos livre de ser súditos do incontrolável.

 

 

PAULO DELGADO, Sociólogo e Cientista Político foi Constituinte de 1988. ?? Consultor e Conferencista.

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