Em quem você votou para deputado e senador nas últimas eleições?

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Você se lembra em quem votou para senador e para deputado em 2018? De acordo com pesquisa realizada pelo Datafolha, divulgada em agosto deste ano, mais de 60% dos brasileiros entrevistados não se recordam em quem votaram para o Congresso Nacional nas últimas eleições.

O Estado de Minas foi às ruas de Belo Horizonte para ouvir os eleitores e refletir, junto a eles, se falta uma fiscalização dos candidatos que foram votados e dos políticos que foram eleitos. 

Delcir Alves, aposentado, não recorda em quem votou para os cargos do Congresso Nacional em 2018, assim como não se lembra em quem escolheu para representá-lo na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Quanto ao vereador, nas eleições de 2020, dois anos atrás, ele também não se recorda. No entanto, afirmou que a �??consciência está tranquila�?�.
�??Não fiscalizei meus candidatos, mas eu fico com a minha consciência tranquila. O que aconteceu, eu não sou culpado de nada�?�, afirmou.
Samuel Evangelista, técnico em contabilidade, também não se lembra em quem votou para deputado federal e estadual há quatro anos, e justificou que a falta de fiscalização desses candidatos se dá pelo �??distanciamento�?� dos parlamentares. 
�??Eu não acompanho, não fiscalizo. Só acompanho através da mídia, mas no dia a dia não. (…) Acho que os deputados são mais distantes. Os do Poder Executivo todos os dias estão na televisão. Eu acompanho mais prefeito, governador e presidente�?�, explicou. 
Mas fiscalizar políticos é função do cidadão? Sim. O Tribunal Superior Eleitoral afirma que �??o cidadão tem papel fundamental na fiscalização de seus representantes e que mais do que ser eleitor, compete a ele acompanhar de forma permanente o que está sendo executado�?�. E assim também afirma o cientista político, Thiago Silame. Entretanto, o professor afirmou que o fato de esquecer em quem votou não reflete uma falta do cidadão.

Fiscalização dos eleitos

�??Não necessariamente significa uma negligência por parte do cidadão. Em decorrência das características do nosso sistema eleitoral que é complexa, a maioria dos eleitores não elege um deputado, portanto, ele sequer saberá quem ele pode fiscalizar. Contudo, em uma democracia, cabe aos eleitores fiscalizarem aqueles que exercem o poder independentemente se o seu candidato foi eleito ou não�?�, disse. 
O cientista também ressaltou que o esquecimento se dá por dois fatores importantes: o sistema político de voto proporcional em lista aberta e pela alta oferta de candidatos. Para ele, esses fatores ajudam a �??confundir�?� a cabeça do eleitor. 
�??Adotamos o voto proporcional em lista aberta. Isto torna a eleição um pouco confusa para o eleitor compreender, pois temos uma competição entre os partidos e dentro dos partidos. Então, primeiro chega-se ao número de cadeiras que cada partido vai obter em uma eleição através do cálculo do quociente eleitoral e depois distribui-se as cadeiras para os mais votados de cada partido.

Soma-se a isto a mudança nas regras eleitorais de 2017 que estabeleceu que o candidato. para conseguir uma vaga, tem que obter 10% de votação nominal considerando o quociente eleitoral�?�, disse em relação ao sistema político brasileiro.  

  • Leia mais: Polarização deve reduzir as abstenções de voto 
�??O outro fator é que os partidos podem lançar 100% das cadeiras em disputa mais um. Por exemplo, Minas Gerais elege 53 deputados federais. Cada partido pode lançar até 54 candidaturas. Isso inflaciona a competição. A oferta de candidatos é muito alta. O fato é que a maioria dos eleitores não elege apenas um deputado, por isso fica difícil se lembrar em quem ele votou, muito porque provavelmente o candidato que o eleitor escolheu não foi eleito, mas o seu voto foi contado para o partido�?�, completou. 
João Francisco dos Santos, aposentado, contou que também se sente confuso com o tanto de candidatos que precisa analisar e depois decidir o voto. Ele afirmou que se lembrar do voto para presidente é mais fácil. 
�??Lembrar em quem votar para presidente é fácil demais. Agora, para deputado estadual e federal já é complicado, os números são maiores. A quantidade de deputados é maior. Então, a pessoa fica mais confusa. Quando é presidente a pessoa só foca nele, porque são menos candidatos�?�, disse.  
  • Leia: Candidatos à Presidência focam em indecisos na reta final 
Para a cientista política Marta Mendes, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora, outro fator explica o porquê as pessoas esquecem em quem votaram para os cargos legislativos: a falta de envolvimento com o meio político. Para ela, sem aumentar a vivência política, é mais fácil esquecer quaisquer questões que envolvem o tema. 
�??Outro fator é a natureza da relação que as pessoas têm com a política. Porque se a maior parte da população vota e depois não lê sobre política, não acompanha os seus representantes, não acompanha o noticiário político, não têm o hábito da leitura, não têm hábito de acompanhar por meio de portais na internet, não está inserida em conversa sobre política, ou não faz parte de grupos que poderiam aumentar a sua vivência política, por meio de movimentos sociais, por meio da filiação de partidos�?�, afirmou. 
�??Isso pode estar mostrando para gente que a escolha não é uma escolha significativa para o eleitor. Significativa no sentido de que existe um vínculo com aquele candidato com aquela candidata�?�, completou, a professora.

Como não esquecer?

O professor e cientista político Thiago Silame afirmou que, para não esquecer o seu voto, é importante entender as atribuições do Poder Legislativo e como ele se comporta dentro do sistema político.
�??Penso que uma alternativa para o eleitor é tentar analisar que, muitas vezes, o Poder Executivo trabalha em conjunto com o Poder Legislativo. Seria prudente para o eleitor votar em um candidato do mesmo partido do Executivo. Então, se ele votar para o candidato a presidente do Partido A que ele vote em Deputados Federais da mesma legenda. Assim, ele terá pelo menos a possibilidade de pensar que ele está possibilitando a governabilidade do presidente e governador que ele está escolhendo�?�, disse.
Já Marta Mendes, professora da UFJF, ressaltou a importância de mudar a relação que a população tem com a política, já que a democracia não se resume às eleições. 
  • Leia: Candidatos ao governo de Minas focam em viagens e entrevistas 
�??�? preciso mudar essas percepções que a população tem sobre a política, para reaproximar as pessoas da política, para criar um tipo de engajamento sustentável, duradouro, que vai muito além das eleições, porque a democracia não pode se restringir às eleições. Uma democracia restrita às eleições vai ser sempre uma democracia muito falha, muito insuficiente, que vai ficar muito aquém do que a democracia pode e deve significar na vida de um povo�?�, afirmou. 
Já para Rosimere Eixemberger, secretária executiva aposentada, a estratégia será uma colinha junto ao título de eleitor. 
�??Eu não me recordo em quem votei. Mas tenho uma colinha junto com o meu título para eu ver agora, na próxima eleição, em quem eu votei�?�, disse. 

O “Beabá da Política”

A série Beabá da Política reuniu as principais dúvidas sobre eleições em 22 vídeos e reportagens que respondem essas perguntas de forma direta e fácil de entender. Uma demanda cada vez maior, principalmente entre o eleitorado brasileiro mais jovem. As reportagens estão disponíveis no site do Estado de Minas e no Portal Uai e os vídeos em nossos perfis no TikTok, Instagram, Kwai e YouTube.

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