O PT baiano e o fiasco da cultura

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No dia 22 de fevereiro de 2019, escrevi um artigo para este mesmo jornal, intitulado: Rui Costa e a Cultura, farol ou fiasco?

Analisava, ali, os primeiros quatro anos catastróficos de seu mandato para a cultura, e dizia que a Bahia, em sua reeleição, poderia ser um farol para o país, nessa área tão importante e fundamental para a economia, geração de empregos, para além de todo seu capital simbólico na formação, tradição e desenvolvimento de nosso povo.

Seria mais ainda um farol, disse no artigo, pela chance de se contrapor à política de sucateamento e perseguição impostas pelo Presidente da República, eleito à época, que, ora, se despede, para o bem das artes e da cultura. O Governo Federal deixa como herança 4 anos de retrocesso e  desestruturação de um setor que arrecada mais impostos que a indústria farmacêutica, emprega diversos segmentos, do artista do palco à costureira, e cuja cadeia produtiva movimenta da compra de tecidos à de madeira; além de aquecer, por tabela, o turismo local, transportes, bares e restaurantes.

Infelizmente, o segundo mandato de Rui Costa conseguiu a façanha de ser pior que o primeiro. Talvez, tenha sido o pior momento da Cultura e das Artes das últimas décadas.

Orçamento ridículo, centros de cultura abandonados, interrupção de políticas e ações continuadas, e tudo ainda sendo mais cruel por conta da ausência de ações efetivas contra os prejuízos violentos ocasionados pela pandemia; e, na sequência, ausência total de um plano de retomada que pudesse reestruturar minimamente o setor.

É claro que o fiasco assombroso de Rui na área da cultura não se refletiu noutro setores; basta ver sua popularidade, e a conquista de Jerônimo, candidato que não tinha nenhum histórico eleitoral, e desconhecido da maioria dos baianos. Há que se aplaudir seus êxitos. Mas num Estado como a Bahia, onde as artes e a cultura são nosso maior cartão de visita, junto ao turismo, fica tudo mais gritante e absurdo.

Jerônimo anunciou, em entrevistas recentes, que a sua gestão será marcada por investimentos importantes na cultura da Bahia, e que contará com uma forte parceria com o Governo Lula. Seria uma notícia animadora, não viesse ela de dentro da gestão de Rui, esteio do futuro governador, e que tanto destruiu com o setor.

Investimentos importantes podem, pontualmente, favorecer determinados setores, serem usados em reformas, novos equipamentos culturais, fazer um retomada mais sistemática de editais e chamamentos públicos, além de recuperar projetos importantes que foram abandonados.

Mas antes de tudo, é fundamental que se tenham indicadores para se tomar como referência. É fundamental, também, que a pasta da cultura não fique na mão de políticos que decidam os rumos da cultura, mas que se encontre gente com experiência, expertise na área, e que possa estabelecer políticas culturais bem fundamentadas, estruturadas, a partir de um maior conhecimento das necessidades, dos agentes, das carências e fragilidades do setor.

Precisamos, resumidamente, de orçamento, gestores que possam unir experiência teórica e prática, e apresentem um projeto de desenvolvimento dos diversos setores da cultura e das artes, baseando-se em indicadores, com metas que possam ser analisadas depois dos 4 anos. Urge, também, que o Estado dialogue com territórios distintos, e busque estimular reforma, dinamização ou construção de centros de cultura, cineteatros, museus, que se perceba nossa riqueza e diversidade, e que se possa, por um lado, estruturar a tradição, e, por outro, estimular o experimento.

Dinheiro, há. Como escrevi noutro artigo recente, uma prefeitura que pode pagar 720 mil reais para uma apresentação única de um cantor sertanejo, pode destinar o mesmo para a manutenção anual de um grupo de teatro, ou dança, ou orquestra – mesmo que de câmara – local. Como diria nosso ex-ministro, Gilberto Gil, “o povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe”.

A Bahia pode dar um salto, nestes 4 anos. Alinhada com o Governo Federal, e conseguindo fazer uma rede de ações com municípios do Estado, é possível que Jerônimo lance luz sobre a cultura e as artes, e o farol possa enfim dar alguma luz à gente.

Espero, sinceramente, que, em meio a proselitismos, politicagens, ações tendenciosas e descaso total com um de nossos maiores patrimônios, que são nossos artistas, o novo governador da Bahia não reforce o fiasco dos 8 anos passados, e possamos respirar os bons ares que a nova brisa nos sopra.

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