“Ah, você é de ninguém…”

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Sempre que penso em Esmeralda, lembro de seu pequeno jardim bem cuidado e de seus olhos muito azuis, que eram como os de minha avó materna, duas gotas de céu num rosto bonito que começava a ganhar as primeiras rugas. De vez em quando, íamos lhe fazer uma visita e eu ficava toda boba admirando as suas roseiras, que pareciam estar sempre prontas para fugir, de tão debruçadas que ficavam sobre o muro baixo de cimento que dava para uma rua calçada com paralelepípedos.

Estranhamente não recordo com a mesma nitidez o interior da casa. Só o que se via, olhando lá de fora, que era um corredor longo e cheio de portas que precedia uma sala com fotopinturas em molduras ovaladas, móveis antigos de madeira maciça, nichos de santos católicos. Talvez também houvesse, bem lá no fundo, um quintal com terra fresca, no qual um cachorro caramelo descansava sobre as patas dianteiras, observando com indiferença as estripulias de um gato escaminha.

Já reparou como essas habitações de antigamente, estranhamente longilíneas, assemelham-se às pessoas muito tímidas? A primeira coisa que se nota nelas é uma fachada falsamente estreita e simples. Ao menos até que as portas sejam abertas e a morada se revele por inteiro, espaço que se estende por diversos cômodos, que se alonga para dentro. Trouxestes a chave? Parece perguntar em voz baixa, a casa, como no poema de Drummond, antes de permitir o acesso.

Esmeralda, que devia ter naquela época a mesma idade que tenho hoje, foi uma espécie de parente de honra, já que quase se tornou minha tia. Foi também a primeira pessoa, fora dos livros e para além dos personagens, que relacionei a esse sentimento que os muito românticos chamam de amor. Porque ela se fechou tão completamente, após uma desilusão amorosa, que ao repetir o seu nome a minha testa ainda se contrai nas mesmas dúvidas de antes sobre verdade e ilusão.

Nas conversas de família, diziam que chegara a marcar data de casamento, providenciar enxoval completo, e que tudo parecia certo até que seu noivo, meu tio, perdeu a sanidade. Então qualquer certeza de futuro se tornou um enigma para ela. Gosto de imaginar que as roseiras fizeram para sempre seu coração bater mais forte. Como se fossem únicas, entre mais de 150 espécies. Como se o fato de desabrocharem já em fuga representasse a definição de amor mais triste, resignada, absoluta.

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