Mais África vai alegrar nossa Copa do Mundo

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A pintura de Aboubakar, num dos gols de Camarões, no empolgante empate de 3×3 com a Sérvia, nos convenceu da necessidade de esta coluna determinar à Fifa o aumento do número de seleções africanas, 20 entre as 48 da Copa 2026.

Ele recebe livre, dá um nó a ponto de fazer o beque pegar o trem laaaaá em Itapagipe, e depois, diante do goleiro, quando qualquer idiota baixaria a cabeça para bater forte, Aboubakar pintou seu belo quadro: tocou por cima. E nem comemorou o pintor da camisa 10!

Não, não foi um toque qualquer. Aboubakar deu o peito do pé à criança e a enviou pelo alto, como o albatroz do Pink Floyd, a voar para dentro do arco sérvio, permitindo a generosidade de o goleiro assistir sua própria execução.

Lances assim são muito raros e sustentam a hipótese de a África estar subdimensionada, numa leitura da Copa do Mundo como mais um efeito do pós-colonialismo, como escreveu Stuart Hall, em seus preciosos trabalhos.

Precisamos passar a ter mais africanos e menos europeus, trocando de lugar os continentes, pois estamos privados de Costa do Marfim, Burkina Faso, Togo e, mais ao Norte, Argélia, Egito, enquanto do mundo pirata temos excesso de seleções feias e previsíveis, como a Suíça retranqueira, a Bélgica de leopoldos e a pesada Dinamarca.

Além da mais fina arte representada por Aboubakar, seria massa dar visibilidade às torcidas, como as de Camarões, Senegal e Gana, pelo inusitado dos trajes e alusões a feitiçarias próprias das comunidades tradicionais destes países.

A proposta tem forte influência de Airton Ferreira e meu mestre em Língua Portuguesa, Adilson Borges, dois expoentes do Instituto Reparação, de onde copiei o conceito.

Com a reparação, ganharemos em criatividade na linguagem universal da bola, com mais gols como o de Aboubakar, pois os africanos, tratados até hoje como periféricos, escapam ao racionalismo cartesiano.

A Europa tem forte inclinação pela coerência, a crença no raciocínio, táticas matemáticas, em fórmulas capazes de agradar nossos narradores e comentaristas, um tal de subir linha e descer linha de fazer dó, coitada.

Mesmo sem Sadio Mané, cujo perfil não tem mesmo nada a ver com uma Copa no Catar, Senegal cumpriu sua missão e, além de despachar a seleção dona do petróleo, avançou para as oitavas de final.

O Magrebe está representado pelo Marrocos, depois de dar 2×0 na Bélgica, enquanto pela América do Sul, a Argentina tem Messi e uma revelação, Enzo Fernández, autor do belíssimo segundo gol sobre o México.

O Brasil registra o golaço de Richarlison, mas o de Casemiro também pode ser elogiado, enquanto o Uruguai de Cavani, Suárez e Arrascaeta teria como render mais.

Há exceções entre os europeus cintura-dura: a França, mesmo sem Benzema, Kanté e Pogba, tem Mbappé das pernas longas, na corrida ninguém alcança, parece Papa-Léguas. E a Croácia de Modric pode chegar mais longe. A Polônia tem Lewandowsky e Portugal está arrumadinho. A nova Alemanha precisa de tempo para florescer.

A Espanha vem mostrando uma geração superior à campeã de 2010, mas esta Holanda de agora, Inglaterra e País de Gales não justificam entrar na festa, daí mandarmos reduzir o número de europeus e aumentar o de africanos. A Copa ficará muito melhor!

Paulo Leandro é jornalista e professor Doutor em Cultura e Sociedade.

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