Vai torcer pela Seleção? Bebida e carne estão mais caras, e energia, mais barata, aponta FGV

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Rito de família. Na casa da neurocientista Layla Salloum, 30 anos, cada partida de Copa do Mundo em que a Seleção Brasileira entrava em campo era um motivo quase que sagrado para assar uma carne, abastecer a geladeira, colocar a televisão na varanda e reunir todo mundo. “Sempre tive o costume de assistir aos jogos em casa nesse clima de torcida. A Copa que mais me marcou foi a de 2002. Lembro da felicidade, da loucura que foi. E a gente se sentiu bem demais. Essa coisa de sair na rua e abraçar as pessoas. Foi muito bom. É uma sensação de harmonia, que todo mundo está feliz pelo mesmo motivo”, conta. 

Se o Brasil vai trazer o hexa do Catar, ainda não dá para saber. Fato mesmo é que o torcedor não vai sofrer só na hora de vibrar pela Seleção, mas também para suportar o peso do aumento dos principais bens e serviços que serão mais consumidos durante a farra. Às vésperas da bola começar a rolar, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/ IBRE) levantou a inflação dos últimos 12 meses dos produtos que não podem faltar no kit torcedor que só respira futebol durante as 64 partidas que serão disputadas nos 28 dias de Copa do Mundo. 

E veja bem, o preço de muita coisa subiu acima da inflação geral medida pelo IPC-M (Índice de Preços ao Consumidor/ FGV), que acumulou 5,02% no mesmo período. Para começar, as bebidas subiram 10,36%, com destaque para a cerveja, que aumentou quase 11%. Quem também tornou a torcida mais cara foi a alimentação fora do domicílio, que registrou alta de 8,06%, com destaque para as refeições em restaurantes (8,82%). 

Nem o churrasco se salvou. O crescimento chegou a 5,80%, tudo por causa da linguiça (6,38%), do contrafilé (5,56%) e da picanha (4,69%). A lista não para por aí. Outros itens como eletrônicos e eletrodomésticos (2,51%),  serviços de streaming  (3,96%), artigos de decoração  (2,60%)  e artigos esportivos (1,68%) completam o time dos ‘vilões’ (confira resumo no box). 

“Após a pandemia, com o fim das restrições sanitárias e do retorno do trabalho presencial, muitos desses serviços tiveram a oportunidade de recompor suas perdas no período com o aumento da demanda. Além disso, os alimentos continuaram subindo em 2022, com foco para os laticínios no inverno, hortifrutis no primeiro quadrimestre e, mais recentemente, desde setembro deste ano”, explica o economista e pesquisador responsável pelo estudo, Matheus Peçanha. 

Layla decidiu que vai manter o churrasco com a cervejinha em casa e fazer o rateio com os amigos para economizar. Ela espera gastar entre R$ 70 e R$ 80 por partida em que o Brasil entrar em campo. Se a Seleção chegar até a final, que acontece no dia 18 de dezembro, ela vai ter desembolsado, em média, R$ 560 durante os sete jogos

“Está tudo caro. A esperança é que sempre está rolando promoções de cerveja no mercado. Acredito que é a única coisa que vou comprar sem sofrer. No mais é pesquisar bastante, fazer uma amizade e pedir desconto comprando em quantidade para ver se o preço sai mais barato. É o que temos”, ressalta. 

Se, por um lado, as bebidas e a alimentação subiram – até mesmo para quem vai buscar um bar ou restaurante para assistir aos jogos –, a pesquisa apontou ainda uma queda no valor das despesas com energia elétrica (-19,59%). Em menor proporção, caiu também o preço da internet  (- 4,44%), do combo telefonia/ TV por assinatura e internet (-3,72%) e dos serviços de comunicação (-3,07%), como explica o economista da FGV Matheus Peçanha. 

Inclusive, a tarifa de energia elétrica registrou uma variação ligeiramente negativa (-0,94%) na média geral da cesta da Copa do Mundo.

“As questões tributárias e climáticas contribuíram para esse resultado. O recente corte de ICMS foi fundamental para a queda desses dois setores. No caso da energia elétrica, a adoção da bandeira verde em abril de 2022, em substituição à bandeira de escassez hídrica — com a melhora do cenário climático e hidrológico —, foi essencial para essa forte queda no preço.” 

Na hora da conta 
Já no caso da social media Carol Stamatto, 27, ela diz que gastou mais com roupas, acessórios e maquiagem, mas muito por conta do trabalho. “Essa média é maior do que a da última Copa porque hoje em dia produzo conteúdo para as redes sociais, então, preciso de mais materiais. Acho que o que doeu mais o bolso foram as camisas temáticas que, mesmo que não sejam as oficiais, ficam com o preço mais alto por conta da época.” 

Carol deve assistir aos jogos fora de casa com os amigos. “Eu sempre fui muito apaixonada por tudo que é do Brasil, assim como sou por tudo que é de Salvador. Gosto de ter essa sensação de pertencimento, acho que por isso fico muito animada com a Copa. A minha estratégia para tentar economizar vai ser estipular um valor que eu possa gastar, me limitar a isso e comprar o que dá. Independente do Brasil vencer ou não,  eu gosto da festa. É sempre um motivo para estar com meus amigos, a família e curtir muito.”

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Rua na Federação, em Salvador, se enfeita para assistir aos jogos do Mundial (Foto: Ana Lúcia Albuquerque)

Para a economista da XP, Tatiana Nogueira, no geral, o comportamento do consumidor nesse período apresenta duas etapas de gasto mais intenso provocado pelo efeito da Copa do Mundo. O primeiro, um pouco antes, é a  troca de televisores e refrigeradores. Em seguida, o consumo maior de carnes e bebidas.

“A grande dúvida em relação a este ano com a mudança da Copa para o final de novembro é que o evento esportivo vai bater com a época em que, tradicionalmente, as vendas do varejo costumam aumentar antecedendo o Natal. A gente pode sentir aí um atraso nessas compras de fim de ano, o que pode afetar o comércio”, analisa. 

No final de agosto, Tatiana fez um levantamento que analisou o aumento dos preços desde a camisa da Seleção até carne e cerveja para o churrasco em relação à Copa da Rússia, em 2018. Muitos desses itens mais consumidos tiveram alta de dois dígitos desde a última competição, bem acima da inflação de 26,8% acumulada no período. Só para se ter uma ideia, o preço da camisa oficial do Brasil quando foi feito o estudo já custava R$ 349,99, salto de 40% em relação a 2018.  

“Comprar ou economizar? Claro que a gente tem aí possibilidades de economia que podem ajudar a pensar em financiar uma ida à próxima Copa do Mundo. Mesmo com o mercado volátil e algumas incertezas, existem possibilidades de investimento interessantes. O que eu diria é que, com a alta taxa de juros, a remuneração da renda fixa ficou bem mais atrativa, por exemplo. E quatro anos aí é tempo suficiente para alocar bem os recursos e converter isso nesse benefício”, sugere a economista. 

Clima de esquenta 
A pedagoga Nathalia Mazza, 27 anos, confessa que o preço alto desses itens vai fazer com que ela segure mais a ida a bares e restaurantes para acompanhar as partidas. “A Copa do Mundo é uma coisa que sempre mexe muito comigo. Para onde você olha tem verde e amarelo, família na sala de casa, petiscos, tudo isso é muito bom. Mas o dinheiro está suado, então,  eu vou dar uma segurada e gastar menos. Por mais que eu goste muito desse clima de festa, o dinheiro está pouco.”

Diante desse cenário, a educadora financeira da fintechs Acordo Certo, Bruna Allemann, ressalta que o consumidor precisa ficar atento quanto ao gasto desenfreado. “Na Copa de 2022, o poder de compra do consumidor foi prejudicado por dois anos de pandemia, fora o aumento da inflação e a alta taxa de inadimplência. Um momento como a Copa pode se transformar em um pesadelo, caso ele gaste mais do que o seu rendimento mensal permita.” 

O risco aumenta com a primeira parcela do 13º salário prestes a cair na conta bancária. “Em período de Copa, muitos torcedores gastam com objetos característicos dos jogos, como bandeiras, vuvuzelas e cornetas, que ampliam o sentimento do brasileiro com a competição. A venda de televisores, que é um produto de alto custo, também cresce, fora os gastos com peças com o escudo da Seleção e com idas a bares e restaurantes para assistir aos jogos. Levante o valor máximo que você pode efetivamente gastar para não prejudicar as contas da casa e evite ultrapassar esse teto”, orienta. 

TORCIDA CARA

Os ‘vilões’ 
. Bebidas  10,36% 
. Alimentação fora do domicílio  8,06% 
. Churrasco em casa  5,80% 

Também subiram
. Eletrônicos e eletrodomésticos 2,51% 
. Serviços de streaming  3,96% 
. Artigos de decoração  2,60% 
. Artigos Esportivos 1,68% 

Os ‘mocinhos’ 
. Energia/ tarifa de eletricidade residencial -19,59% 
. Internet  – 4,44%
. Combo telefonia/ tv por assinatura e internet -3,72% 

Fonte: FGV-IBRE/  Os dados são relativos ao acumulado de novembro/ 2021 a outubro/ 2022 

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