Portugal entra em alerta para número crescente de viciados em raspadinha

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GIULIANA MIRANDA
LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) – Coloridas, brilhantes e com menções a vultosos prêmios em dinheiro, as cartelas de raspadinha fazem parte da paisagem há quase três décadas de boa parte de cafés, bancas de jornal e casas lotéricas em Portugal, um dos países europeus recordistas no gasto per capita com esse tipo de aposta.

Em 2021, os portugueses desembolsaram cerca de EUR 1,5 bilhão (R$ 8,25 bilhões, na cotação da última sexta, 2) com o jogo. No mesmo ano, a Espanha, apesar de ter uma população quatro vezes maior, com 47,33 milhões de habitantes, gastou a metade do montante luso: EUR 750 milhões (R$ 4,1 bilhões).

Com a popularidade vêm os problemas. Entidades que tratam dependentes de jogos alertam para a cifra em alta de viciados em raspadinha, com um agravante: mulheres de baixa renda são a fatia mais afetada.

Em Portugal, cassinos, bingos e outros tipos de apostas são legalizados. Entre todas as modalidades, a raspadinha é a segunda mais popular, segundo as informações mais recentes do Sicad (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências), órgão vinculado ao Ministério da Saúde.

Os dados, divulgados em 2021, mas referentes a 2017, já mostravam esse avanço –30% dos portugueses diziam jogar as raspadinhas. Desses, quase um terço ganhava menos de 500 euros mensais.

“Entre 2012 e 2017, na população em geral, a prevalência de jogo abusivo [considerado uma forma mais suave de vício] quadruplicou, de 0,3% para 1,2%, e a de jogo patológico [que caracteriza a fase da dependência], duplicou, de 0,3% para 0,6%”, diz o documento. “A raspadinha passou de terceiro para segundo jogo a dinheiro mais usado no país, atrás apenas [da loteria] do Euromilhões.”

Para saber a real dimensão do problema, o Conselho Econômico e Social -órgão consultivo que serve de ponte entre o governo e a sociedade civil- encomendou neste ano um amplo estudo sobre as raspadinhas em Portugal. O trabalho será conduzido em parceria com a Universidade do Minho.

“O consumo per capita de raspadinhas em Portugal é muito elevado e, quando comparamos com países como a Espanha, as diferenças são muito significativas”, diz o psiquiatra Pedro Morgado, professor da instituição e um dos responsáveis pelo trabalho. “Na prática clínica encontramos muitos casos [de pessoas viciadas] e é sabido que níveis de consumo elevados significam risco de vício mais elevado.”

Em 2020, o médico publicou na revista The Lancet, um dos principais periódicos internacionais da área de saúde, um alerta sobre a “ameaça negligenciada” do crescimento das raspadinhas no país ibérico.
A ideia é que o estudo ajude a caracterizar o vício no jogo em Portugal. Para especialistas, a raspadinha reúne características que a tornam particularmente viciantes, como a facilidade de acesso, além dos baixos valores iniciais de aposta, a partir de EUR 1 (R$ 5,40), e da possibilidade de recompensa instantânea.

Funcionária de um restaurante na avenida Almirante Reis, uma das principais vias no centro de Lisboa, Celeste Fonseca diz estar acostumada a ver clientes perderem o controle com o jogo, chamado oficialmente de loteria instantânea. “Pedem um café e uma raspadinha. Depois mais uma cartela, e a seguir outra. Já cheguei a vender 50 raspadinhas para a mesma pessoa dessa forma”, afirma ela.
Na avaliação da balconista, que trabalha há 15 anos no estabelecimento, embora haja aqueles que claramente perdem o controle com o jogo, a maioria dos clientes faz apostas ocasionais. “Com os ordenados em Portugal, quem não quer tentar a sorte? Qualquer dinheirinho é bem-vindo”, pondera Celeste, lembrando que o salário mínimo atual no país é de 705 euros (cerca de R$ 3.870) por mês.

Segundo o Sicad, mais da metade dos apostadores em raspadinhas no país é formada por mulheres entre 35 e 54 anos, com nível escolar baixo e rendimentos mensais de EUR 500 (R$ 2.750) a EUR 1.000 (R$ 5.500).

No artigo na Lancet, os pesquisadores portugueses chamam a atenção para o fato de que as questões econômicas relacionadas à indústria de apostas, incluindo “os impostos arrecadados pelos governos”, podem resultar em “falta de políticas eficazes para regular tipos específicos de jogos”.

Em Portugal, os chamados jogos sociais, que incluem as loterias e as raspadinhas, são também uma importante fonte de receita para o governo. Eles são geridos pela Santa Casa de Misericórdia de Lisboa.
Em 2021, dos quase EUR 2,9 bilhões (R$ 15,9 bilhões) de receita bruta com os jogos sociais, EUR 816 milhões (R$ 4,4 bilhões) foram para o Estado português, que destinou o valor a várias instituições, incluindo os ministérios de Saúde e Educação, governos regionais e a própria Santa Casa, indicou o jornal Expresso.

Nos últimos anos, especialistas têm cobrado uma postura mais ativa do governo sobre as raspadinhas. Projetos que limitavam a publicidade e a venda das cartelas, no entanto, não avançaram no Parlamento.

Em 2021, o Ministério da Cultura anunciou uma raspadinha especial, para o financiamento do patrimônio cultural luso. Embora tenha recebido diversas críticas, o projeto foi levado adiante. Pouco mais de um ano depois, porém, o atual chefe da pasta, Pedro Adão e Silva, anunciou que a iniciativa será descontinuada.

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