Corporativismo Militar (por Cristovam Buarque)

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A coincidência de Bolsonaro e Covid foi um desastre para a educação brasileira, mas o sistema educacional já era uma tragédia resultado do descaso histórico dos governos anteriores. Da mesma forma, a conivência dos militares com as ameaças golpistas ao longo dos últimos anos não é o resultado apenas do bolsonarismo, mas do descaso histórico de nossos dirigentes com a chamada questão militar, desde o início da República. As lideranças civis sempre aceitaram a tutelagem, ostensiva ou discreta, das Forças Armadas sobre a política, ao ponto de reconhecer na Constituição sua intervenção no processo político, quando necessário. As FFAA são vistas como uma corporação com vontades, ideologia e interesses próprios, como um sindicato especial e armado. Esta tradição secular impede o bom funcionamento da democracia ao longo dos anos.

Esta tradição secular impede o funcionamento eficiente da democracia. Desta vez, apesar da visão antidemocrática de um ex-capitão eleito diretamente pelo voto, as FFAA se recusaram a tentar um golpe para anular as últimas eleições. Mas a ameaça esteve permanente e continua. Em algum momento futuro poderá ir além de ameaça e destruir a democracia. As FFAA brasileiras são intrinsicamente politizadas porque o Brasil é um país dividido em corporações. Os militares, tanto quanto os líderes sindicais, veem o país como a arena onde sua corporação atua em busca de realizar seus interesses ideológicos ou materiais. Pensam o país como a soma de corporações, não cada corporação como um pedaço do Brasil. Bolsonaro era um péssimo militar, se fez o mito dos militares por representa-los sindicalmente: na defesa de vantagens materiais e representa-los na defesa de costumes conservadores e de posições ideológicas e geopólitas arcáicas.

Os políticos veem o país como a arena para suas lutas, em benefício pessoal ou de seu partido. Por isto, para vencer as eleições ou continuarem, muitos governantes são capazes de decisões que no longo prazo desequilibram as contas públicas, concentram renda e enfraquecem o país. Nossos militares tanto quanto os políticos civis veem o Brasil a partir da perspectiva da corporação a que pertence. Por isto nossos militares fazem escolhas ideológicas e reivindicações classistas. São capazes de discriminar brasileiros que não pensam como eles.

O Brasil é uma colcha de retalhos de corporações sindicais, partidárias, religiosas, regionais, sem um sentimento de um país de todos e para todos. A situação é tão corporativizada que muitas vezes o ministro da defesa se sente mais obrigado a representar aos militares, como se fosse seu líder sindical junto ao governo, do que a representar o presidente, como líder eleito da nação, junto aos militares. Pensam em parlamentar com os militares no lugar de merecerem o respeito para comandá-los, dentro dos preceitos constitucionais.

Cristovam Buarque foi senador, ministro e governador

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