Curto-circuito na política (por Gaudêncio Torquato)

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Quando você perceber cheiro de queimado, tomadas manchadas de preto, lâmpadas com tempo de vida útil anormal, apagando rápido demais; queda de energia constante e sem motivos aparentes, ainda mais se você perceber que foi apenas em sua casa ou em alguns cômodos; sobrecarga elétrica ocasionando o desarmamento do disjuntor e a queima do fusível, não tenha dúvida: é curto-circuito no sistema elétrico.

Pois bem, há um curto-circuito na política. A escuridão pode ser assim descrita: brigalhada de alas contrárias nas redes sociais; falta de respeito aos contrários; liberdade de expressão contaminada por decisões monocráticas do Judiciário; debates pouco civilizados sobre temáticas de interesse social, enfim, organização partidária afastada de ideias. Esses desajustes jogam o país no vácuo da instabilidade institucional.

A causa? Um curto-circuito nos fios das extremidades do espectro político, que provocam polarização entre grupos radicais. Correntes do mar bolsonarista batem nas ondas do oceano lulopetista, originando a borrasca que, infelizmente, não se dissipou após 60 dias da posse do novo governo.

Para melhor entendimento, segue ligeira definição do lulismo e do petismo. Este se desenvolve no seio de um partido que decidiu se apresentar, desde sua criação há mais de quatro décadas, como o mais ético, o mais asséptico, o mais doutrinário, o mais voltado para a defesa das demandas sociais. Sob esse escopo, o PT criou uma linha divisória que o separa de outros territórios, mais ainda quando fica clara a intenção de se perpetuar no poder. Pretensão corroída pelos escândalos do mensalão e do petrolão, ocorridos sob sua égide. Mas o partido volta, hoje, a afirmar que tais acusações são produto de falsidade.

Já o lulismo escala patamar mais alto. Luiz Inácio paira acima do PT. Envolve-se numa aura carismática, reforçada por referências, como Pai dos Pobres, Salvador da Pátria, o “cara”, como um dia a ele se referiu Barack Obama, ex-presidente dos EUA. Pela terceira vez senta-se na cadeira presidencial, vestindo-se agora com o manto de “Reconstrutor da Pátria”, devastada pelo desgoverno do desastrado Jair Bolsonaro.

Lula é o exemplo mais forte da dinâmica social no Brasil, o retirante nordestino que passou fome e chegou a São Paulo em um caminhão pau de arara. A prisão de 580 dias na carceragem da PF em Curitiba adensa a imagem de vítima. Portanto, o lulismo deve ser também enxergado como sombra para encobrir os erros do petismo. Eficaz no uso do discurso de palanque, o ex-metalúrgico bate na tecla da corrupção, que teria sido cometida por outros, e, dessa forma, alivia a carga negativa sobre o PT.

O fato é que a imagem de Luiz Inácio, os feitos governamentais de mandatos anteriores e seu não esgotado estoque de carisma ressurgem em um momento crucial para o país – o ciclo da tragédia da pandemia da Covid-19 –, que se somam aos desmandos do governo anterior, propiciando as condições para o terceiro mandato. O protagonista caminhou em direção ao centro do arco ideológico, convenceu uma bateria de partidos a fazer fileira ao seu lado; na campanha, o PT arrefeceu seu discurso amedrontador (Estado forte, volta das empresas estatais e temas da família, como aborto), e, assim, a comunidade garantiu a volta triunfal de Lula.

O bolsonarismo, sob a estridência revoltada de seu mentor, o próprio capitão Jair, amargou uma derrota, ameaçou dar um golpe em 8 de janeiro, devastando os espaços dos Três Poderes, em Brasília; o capitão se mandou para a Florida, nos Estados Unidos, antes mesmo de passar a faixa (tarefa que deixou de cumprir). E o que aconteceu de lá para cá? O novo governante repõe o lugar do Brasil na diplomacia internacional, inicia intensa agenda de viagens ao exterior e aos Estados, posiciona-se como parceiro de adversários, pairando acima de divergências ideológicas, como mostra em sua ida ao litoral norte paulista para ver os estragos do dilúvio que arrasou a região de São Sebastião e Caraguatatuba. Juntou-se ao governador Tarcísio de Freitas, eleito sob o patrocínio de Bolsonaro, ganhando aplausos da população.

E Bolsonaro? Promete voltar em princípios de março para arregimentar as bases que ainda estão com ele e liderar as oposições. Abre páginas de interrogação.

Nesse ponto, volto às extremidades do cabo elétrico. Bolsonaro vai insistir para tocar os fios da ponta direita com os fios da ponta esquerda. O que ele pretende? Guerrilhas, movimentação nas ruas, apupos, gritos pedindo soltura de bolsonaristas presos pela baderna do 8 de janeiro. Essa é a paisagem desenhada por ele.

Ora, Lula não pode e não deve fomentar essa empreitada. Infelizmente, parece que está caindo na emboscada.  Eis alguns sinais nessa direção: a narrativa de golpe para o impeachment de Dilma; a promessa de reestatizar estatais privatizadas; discurso “revanchista”, jogando no colo dos ricos a tentativa de golpe; atendimento às demandas do PT em detrimento de outros partidos. Até parece que ele, sozinho, ganhou as eleições. A vitória de Luiz Inácio ocorreu por conta da migração de votos de não petistas. Coisa que o presidente e o PT precisam guardar na cachola.

O país está ameaçado de continuar a viver sob a borrasca que engolfa bolsonaristas e lulopetistas. Um curto-circuito demorado nos vãos da política acabará fechando os horizontes do amanhã.

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e analista político

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