Sem previsão de retorno, Sala Principal do TCA pode ficar anos fechada; entenda

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Principal palco da Bahia sofreu danos após contenção de incêndio. Requalificação pode chegar a R$ 200 milhões

Mais de três meses após um incêndio atingir o telhado do Teatro Castro Alves (TCA) e fechar sua Sala Principal, considerada a mais importante do estado, o espaço, que comporta 1.554 espectadores, segue sem previsão de reabertura e, ao que tudo indica, o “espetáculo da espera” vai durar mais do que o esperado. Uma ampla reforma, se aprovada, pode deixar a Sala Principal fechada por anos.

O laudo técnico do Departamento de Polícia Técnica (DPT) sobre o incidente, ocorrido em 25 de janeiro, concluiu no mês seguinte que o incêndio não foi criminoso. O inquérito foi encerrado nesta fase e encaminhado à Justiça. O resultado da perícia que apontará a causa do sinistro ainda não foi concluído. No entanto, já é possível dizer que as ações necessárias de combate realizadas pela brigada de incêndio do TCA e pelo Corpo de Bombeiros Militar (CBM) comprometeram parte do telhado (cujas telhas não existem mais no mercado), o teto no fundo do palco, e provocaram o desabamento de placas do forro sobre o tablado, causando danos à acústica do prédio que é tombado pelo Patrimônio Nacional. Apesar disso, a plateia e outras áreas da edificação não foram danificadas.

Por precaução, a direção do TCA isolou temporariamente outras áreas do complexo cultural, como a Sala do Coro, Salas de Ensaios e o Centro Técnico. Parte desses espaços, incluindo o Foyer e a própria Sala do Coro, foram mais tarde ocupadas pela equipe administrativa, que segue dando expediente nestes locais. Segundo o diretor do TCA, Moacyr Gramacho, até o final deste mês, a equipe retorna às suas salas e estes espaços serão reabertos e retomarão suas funções.

A direção do TCA garante que os chamados corpos estáveis não serão penalizados com o fechamento do equipamento. “As instalações do Balé do TCA e a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba) serão reativadas em breve, normalizando a rotina diária dentro do prédio principal. No caso das apresentações, os corpos artísticos seguirão em itinerância como já era previsto para a temporada de reforma que já estava sendo planejada”, adianta Gramacho.

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Diretor do TCA, Moacyr Gramacho diz que as instalações do Balé do TCA e da Osba serão reativadas em breve (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Ampla reforma
A exceção é a Sala Principal de espetáculos, que deve levar mais tempo para voltar à ativa. De acordo com o secretário estadual da Cultura, Bruno Monteiro, o espaço será totalmente requalificado. “Em 2019, o [então] governador Rui Costa já havia sinalizado que retomaria o projeto de reforma, mas aí veio a pandemia e os recursos foram canalizados para a saúde. Naquela época, a obra estava orçada em cerca de R$ 130 milhões”, afirma.

O titular da Cultura diz que, uma semana antes do incidente, ele e sua equipe já estavam discutindo a retomada da terceira etapa do projeto de requalificação. “Estávamos estudando as atualizações que serão necessárias ao projeto arquitetônico, técnico e acústico, a modelagem, as adequações às novas tecnologias, já que o projeto, iniciado em 2010, cumpriu apenas a primeira e a segunda etapas, e discutindo a questão dos recursos, que hoje estão estimados em R$ 200 milhões, para realizá-lo o mais rápido possível”, relata Monteiro.

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Projeto desenvolvido em 2010 para Sala Principal será revisto e atualizado. Há 13 anos, investimento previsto no complexo era de R$ 130 milhões, mas deve saltar para R$ 200 milhões (Imagem: Divulgação)

A ideia, segundo ele, é fazer a obra com recursos do Tesouro Estadual, apoio da União e uso das leis de incentivo fiscal junto à iniciativa privada. “Já estive com a ministra da Cultura, Margareth Menezes, que foi muito solícita, e também já me reuni com os parlamentares baianos na Câmara dos Deputados para discutir sobre a possibilidade de uso de emendas de bancada”.

Ainda conforme Monteiro, tudo estava caminhando no seu tempo, mas o incidente apressou o fechamento do espaço. Vale lembrar que a última reforma robusta do TCA foi realizada em 1993 (há exatas três décadas) pelo então governador Antonio Carlos Magalhães. A obra foi entregue em 11 meses.

“O TCA precisa de uma grande reforma e vamos retomar o projeto vencedor do concurso público realizado em 2010 que previa a sua execução em três etapas, tendo sido concluídas apenas duas: Concha Acústica com seus novos acessos e estacionamento (2016) e Sala do Coro (2018)”, avisa Bruno Monteiro.

Projetos
No caso da Concha, a obra foi iniciada em 2013 e concluída em 2016 – portanto, três anos de espera, incluindo adiamentos na entrega. Nesta etapa, além da requalificação do equipamento, foram construídos o edifício garagem e a esplanada erguida sobre a Concha. Na sequência foi a vez da Sala do Coro, que foi praticamente reconstruída e dotada de equipamentos modernos que permitem a reconfiguração do palco e da plateia, de acordo com o exigido pelas montagens cênicas.

O concurso público ao qual o secretário se refere foi organizado em parceria com o Instituto de Arquitetos da Bahia (IAB) e contou com a participação de consultores renomados de todo o país. O certame, vencido pelo Estúdio América, incluiu 40 escritórios de arquitetura de todo o país. Apenas cinco foram premiados.

Para Nivaldo Andrade, membro do IAB que foi um dos mentores do concurso, já passou da hora de o TCA retomar o projeto de requalificação. “O projeto está pronto, prevê não apenas a reforma da Sala Principal como cria um Centro Técnico e uma Sala Sinfônica para concertos”, cita ele.

“Entendo que esse é o momento de concluir o projeto, com o teatro já fechado e com a necessidade de obras. O ideal é fazer as atualizações necessárias, já que nestes 13 anos chegaram novas tecnologias, e realizar a obra porque quanto mais passar o tempo, mais difícil e custoso será”, avalia Nivaldo Andrade.

Longo prazo
No mês passado, o secretário Bruno Monteiro já havia sinalizado em suas redes sociais sobre a necessidade de encarar a retomada do projeto de requalificação. Ele e sua equipe se reuniram com o arquiteto paulista José Augusto Nepomuceno, da empresa Acústica & Sonika, que foi um dos consultores na reforma do complexo em 2010, para uma consultoria sobre a retomada do projeto.

”É importante deixar claro que essa reforma não é paliativa, trata-se de uma intervenção para atualização tecnológica, normativa, técnica e de acústica do equipamento que já era necessária e planejada”, escreveu Monteiro. O secretário concluiu a postagem ressaltando que “o TCA é um patrimônio tombado” e que este trabalho “visa uma requalificação de longo prazo que é bem complexo”.

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Representante do IAB defende ampla reforma urgente: “quanto mais passar o tempo, mais difícil e custoso será” (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Este “longo prazo” ao qual o secretário se refere é que é o xis do problema. Monteiro diz que não tem como prever quando as obras serão iniciadas. A decisão depende, sobretudo, do Governo do Estado (leia-se, do governador Jerônimo Rodrigues) dar o sinal verde. Até lá, a Secretaria estadual da Cultura (Secult) segue trabalhando para atualizar o projeto, que deverá ser executado com adaptações às novas normas construtivas e de tecnologias. Vencida esta etapa, diz Monteiro, ainda tem o processo de licitação, as licenças e liberações dos diversos órgãos, especialmente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), para autorização da obra. Enfim, aqueles trâmites burocráticos de obras públicas.

Para especialistas em grandes casas de espetáculos mundo afora, como o arquiteto José Augusto Nepomuceno, já passou da hora do espaço passar por uma reforma total. Ele defende que esta é a hora de parar com reparos paliativos e seguir funcionando por mais tempo, e retomar o projeto de requalificação, sobretudo pela importância do equipamento para a cultura brasileira.

“Não estou falando isso com a intenção de integrar a equipe, mas porque entendo que toda grande casa de espetáculo precisa ser atualizada de tempos em tempos, e o Teatro Castro Alves é um patrimônio do Brasil, diria de expressão continental; nenhum outro estado ou país do nosso continente tem um complexo cultural desta dimensão, capaz de funcionar simultaneamente três espaços distintos sem que um interfira no outro”, conclui.

Impacto no setor cultural
O impasse sobre o futuro do TCA vem tirando o sono dos profissionais que atuam na cadeia cultural. Estimativas da Associação dos Produtores de Eventos do Estado da Bahia (Abape) dão conta de que, somente na Sala Principal, cerca de 200 eventos deixarão de acontecer até o final deste ano. “O que mais aflige os trabalhadores da cultura é a indefinição, é o silêncio que se fez no governo sobre o futuro da principal e mais importante casa de espetáculos do estado”, reclama Moacyr Villas Boas, presidente da entidade.

Segundo ele, os produtores trabalham com cronogramas anuais, ou seja, este ano já estão agendando datas para o próximo, e sem uma definição, é impossível programar algo.

“E mais ainda, a Bahia, que não tem um espaço para ocupar a lacuna do TCA, deixa de receber importantes turnês nacionais e internacionais por falta de espaço como o musical Bibi Ferreira, um sucesso absurdo, que não tem onde ser apresentado na Bahia”, cita o produtor cultural.

Segundo Villas Boas, enquanto o governo não toma uma decisão sobre o destino da casa de espetáculos e anuncia a previsão de reabertura, a Bahia fica de fora das grandes produções. “O que estamos discutindo agora é levarmos um pleito à Prefeitura de Salvador para a implantação de um teatro municipal, como existe em várias outras cidades brasileiras, para que não tenhamos que ficar à mercê de um único espaço cultural. Enquanto isso não acontece, precisamos de uma resposta sobre a definição do TCA”, apela.

O secretário Bruno Monteiro não soube precisar quando esta resposta será dada, nem quando a obra começará. O que estima é que, iniciada, levaria cerca de 11 meses a pouco mais de um ano para ser concluída. Até lá, a Sala Principal segue com as cortinas fechadas.

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Sala Principal tem capacidade para receber mais de 1.500 espectadores (Foto: Marina Silva/CORREIO)

O incêndio
O fogo começou por volta das 13h do dia 25 de janeiro, na calha do teto acima da sala de balé e se alastrou para o telhado do Palco Principal. Segundo o Corpo de Bombeiros Militar (CBM), o fogo afetou o telhado da estrutura, mas não atingiu as áreas internas do teatro.

O coronel do CBM Aloísio Fernandes disse que o incêndio ficou confinado entre duas proteções do terraço e o acesso dos bombeiros ocorreu pelo telhado do teatro. “Confinamento de incêndio gera muita energia. Então, tinha muito calor. Realizamos a abertura na parte superior, fizemos uma ventilação natural, foi reduzido o calor e identificamos os focos. Assim, o combate foi diretamente nos focos e a situação foi controlada”, declarou.

A demora no combate ao fogo, que durou cerca de 12 horas, segundo a Defesa Civil de Salvador (Codesal), foi em função do local onde as chamas tiveram início ser numa área que continha material inflamável, como fibras e resinas, que entraram em ignição. O incêndio só não foi maior porque quando os bombeiros chegaram, a equipe da brigada da empresa que faz a manutenção do complexo já havia agido, inclusive tinha mapeado a área por onde eles poderiam seguir.

Ainda segundo o órgão, os sprinklers (equipamento de aspersão de água que atua no combate a incêndios em edifícios) funcionaram bem na parte inferior do prédio, resfriando a área, e contendo o alastramento do fogo. Segundo o laudo, não houve danos à estrutura. Em fevereiro, o DPT confirmou que o incêndio não foi criminoso. O inquérito foi concluído e enviado à Justiça. 

Curiosidades sobre o TCA

  • O Complexo do Teatro Castro Alves custa aos cofres públicos R$ 42 milhões anuais
  • A receita anual não chega a R$ 4 milhões
  • Esta receita cobre os projetos culturais do complexo cultural
  • A empresa de manutenção predial custa pouco mais de R$ 120 mil
  • O valor das pautas (aluguel dos espaços) varia de R$ 500 (Sala do Coro) a R$ 15 mil ou 10% da arrecadação com a bilheteria, valendo o que o valor for maior. Já a Sala Principal cobra R$ 6 mil para ceder o espaço às produções
  • Em 1993, o TCA passou por sua última reforma robusta. A obra, que aconteceu durante o governo de ACM, foi concluída em 11 meses
  • O TCA  foi tombado pelo Iphan em 2013 como Patrimônio da Arquitetura Moderna Brasileira
  • O teatro foi inaugurado, oficialmente, em 1958
  • No entanto, cinco dias após sua inauguração, foi atingido por um incêndio que destruiu as suas dependências
  • O processo de reconstrução do TCA durou 9 anos e ele foi, finalmente, reinaugurado em março de 1967
  • O TCA possui 1.554 lugares, enquanto a Concha tem capacidade para 5 mil pessoas e a Sala do Coro para 350.

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