Brasil e Argentina disputam na área da política um campeonato de bizarrices, que envolve personagens estranhos, patéticos, ladrões, advogados cínicos, militares perplexos, contrabandistas amadores e economistas devastados pela absoluta desesperança. Tudo falhou na América Latina, rica em matérias primas, condição básica para enriquecer gerações, mas, aqui, produziu extrema pobreza, que teima em se alargar. Nem Gabriel Garcia Marques com seu brilhante realismo fantástico seria capaz de criar algo tão complexo e surreal semelhante ao que ocorre nestes países do hemisfério sul.
O candidato a presidente da Argentina, Javier Milei, que venceu as primárias, se autodefine como anarcocapitalista e libertário, ou seja, é favorável a liberdade completa, econômica ou moral. Se vencer as eleições para presidência suas principais propostas são: reduzir muito a presença do Estado na vida das pessoas, o que lhes daria liberdade para escolher utilizar peso ou dólar, para portar e negociar armas, casar-se com pessoa do mesmo sexo e até vender órgãos humanos.
No setor da economia, Milei, economista de formação, ataca um assunto do cotidiano dos argentinos que convivem com inflação de 115% ao ano e com o dólar que está chegando a 800 pesos no câmbio negro. Em meio ao desencanto da população, o libertário surgiu com propostas radicais: dolarizar a economia e acabar com o Banco Central. Ele venceu as PASO (Primarias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias) com 30% dos votos. A coalizão oposicionista Juntos pela Mudança de Patricia Bullrich teve 28% e a governista União pela Pátria, de Sergio Massa obteve 27%.
Ele entende que o problema da inflação reside no Banco Central Argentino que não para de emitir moeda. Sem ele, os argentinos vão naturalmente operar com o dólar. Pretende reduzir de vinte para oito o número de ministérios. E na política externa também é radical: pretende interromper os laços com a China e sair do Mercosul. Ele esclareceu suas ideias no livro que publicou denominado “El fin de la Inflacion”, com 184 páginas, onde ele explica suas ideias e a proposta de dinamitar o Banco Central Argentino. Naturalmente, ele é contra o que chama de casta política, ou seja, os políticos em geral. Mas também propõe corte dos impostos, reformas fiscais, trabalhistas e previdenciária.
A Argentina já foi a sexta economia do mundo. Tinha PIB per capita superior ao da França ou da Alemanha. Nos anos 20 sua frota de automóveis era a segunda do mundo, perdia apenas para a dos Estados Unidos. O metrô de Buenos Aires foi inaugurado em 1913. É o primeiro da América Latina. Mas tudo isso é passado: há pelo menos cinquenta anos o país vive uma decadência sem fim. Hoje é, apenas um terço da economia brasileira.
A Argentina foi inventada, em termos capitalistas, pelo navio frigorífico. Quando os navios começaram a transportar bens congelados os europeus puderam se deliciar com a magnífica carne argentina. Os campos gerais também produzem milhares de toneladas de grãos. A Argentina exporta petróleo há muito mais tempo que o Brasil. E tem uma população alfabetizada. Como disse o presidente Alberto Fernandez, recentemente, eles vieram dos navios que vinham da Europa. Mataram os índios. Tudo isso junto resultou num magnífico e estrondoso desastre. Este estranho candidato a presidente é um retrato do país atual.
Mas o Brasil não fica atrás nesta disputa de bizarrices. A deputada Carla Zambelli (PL-SP), candidata única ao prêmio de maluquete do ano, foi identificada pelo hacker Walter Delgatti como sendo a pessoa que fez contato e pagou para que ele violasse a correspondência digital de mais de 170 parlamentares e entrasse no site do Conselho Nacional de Justiça. A deputada o levou ao presidente Bolsonaro que o encarregou de tentar violar uma urna eletrônica. Ele também desmoralizou a operação lava-jato.
O hacker, muito habilidoso, chegou a produzir uma ordem de prisão falsa contra o ministro Alexandre de Moraes. Ao lado disso, ocorriam estranhas transações dos militares da Presidência da República com casas de leilão nos Estados Unidos para venda de joias recebidas pelo presidente brasileiro. Há também um advogado que muda sua narrativa a cada 24 horas e viajou para Pensilvânia com objetivo de recomprar um relógio valioso que deveria ser devolvido ao Tribunal de Contas União. Difícil apontar o vencedor do concurso de surrealismo. Brasil e Argentina constituem o pano de fundo fantástico para o desenrolar das mais estranhas criaturas na política dos países. Aqui, de fato, Aureliano Buendia faria32 revoluções e perderia todas.
PS: Aureliano Buendia é personagem de Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques, prêmio Nobel de Literatura.
André Gustavo Stumpf, jornalista ([email protected])

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