É melhor ter um emprego que não vai desaparecer para a IA, diz o filósofo Luc Ferry

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“Cerca de 300 milhões de empregos vão desaparecer por causa da inteligência artificial, e o mundo passará por um desemprego maciço” disse, sem papas na língua, o filósofo francês Luc Ferry em conferência do Fronteiras do Pensamento nesta quarta-feira (30).

Ferry dedicou sua apresentação às problemáticas do mundo do trabalho, iniciando pelos fenômenos conhecidos como “big quit” (“grande renúncia”) e o “quiet quit” (“renúncia silenciosa”) durante a pandemia, período em que milhões de pessoas pediram demissão na Europa ou continuaram com seus empregos mas fazendo o “mínimo possível”.

“Durante muitos séculos, o bem-estar veio depois do trabalho. Para as crianças os momentos bons são nas férias, para os assalariados na aposentadoria, para os cristãos após a morte e para os comunistas depois da revolução”, argumentou.

A pandemia foi o que Ferry classifica como “um período fora do tempo, imprevisível, em que as pessoas questionaram o sentido da vida” devido a ruptura no seu cotidiano. “As pessoas perceberam que só tem uma vida e precisam ser felizes agora. Então não podem aceitar um trabalho idiota, que paga mal e não é valorizado.”

O capitalismo, através da lógica da inovação permanente para garantir o consumo, acelerou a desconstrução de tradições. “Quando temos valores espirituais fortes, não precisamos consumir. O capitalismo precisou desconstruir os valores tradicionais”, disse. “Eu não sou contra o capitalismo, mas não é porque você é liberal que você é idiota e não vê os problemas do mundo.”

“Os grandes executivos vão ter que pensar sobre o sentido do trabalho, o bem-estar em uma empresa, como atribuir sentido ao trabalho para os jovens”, argumentou. Caso contrário, as novas gerações que têm escolha não vão se relacionar com determinadas empresas.

  • Leia: Inteligência artificial pode superar a humana? 8 perguntas sobre a tecnologia 

Nesse cenário, a inteligência artificial será um agravante para o mundo do trabalho. “Se as tecnologias das revoluções industriais impactaram especialmente o trabalho manual e repetitivo, como linhas de montagem, a indústria têxtil e a siderurgia, o chatGPT ameaça o trabalho intelectual”, disse.

Ferry diz que a IA não deve ser regulamentada, mas que é preciso criar planos que guiem as novas gerações a buscar empregos que combinem “inteligência, relações humanas e conhecimentos manuais”, que não poderão ser substituídos por máquinas. É o caso da enfermagem, por exemplo.

“Uma máquina nunca vai conseguir fazer o trabalho direto com humanos”, diz. Outras profissões, como jornalistas e roteiristas de cinema, por exemplo, podem desaparecer, segundo ele. “Se os seus filhos não têm grandes paixões, é melhor que tenham um emprego que não vai desaparecer.”

O ciclo Fronteiras do Pensamento já teve conferências com a Nobel da Paz, Nádia Murad e Michael Sandel, filósofo americano, e ainda terá encontros com Douglas Rushkoff e David Wengrow.

 

FRONTEIRAS DO PENSAMENTO – 17ª TEMPORADA

Quando De 29 de maio a 2 de outubro

Produção Onde saber mais: fronteiras.com

Preço Assinante Folha tem 50% de desconto

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