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Cole na corda: cordeiros buscam reajuste em diária no Carnaval de Salvador para R$ 150

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“Você já passou por mim, e nem olhou pra mim…”. Em 2017, a banda BaianaSystem cantava nos trios elétricos uma realidade que seis anos depois continuaria irretocável: a invisibilidade de alguns dos profissionais mais importantes para a realização do Carnaval de Salvador, os cordeiros.

 

A canção, composta por Russo PassaPusso, Roberto Barreto, SekoBass, Filipe Cartaxo, permeia um debate que em 2023 ganhou ainda mais força com o que se pode considerar como um ato de revolta dos cordeiros após largarem as cordas dos blocos no meio do circuito pela falta de respeito e remuneração ao trabalho prestado.

 

Para colocar um bloco na rua o investimento dos empresários é de a partir de R$ 500 mil para um bloco de pequeno porte, contando com trio elétrico, abadás, segurança e cordeiros. Para manter o bloco na rua e de cordas em pé, em um cálculo básico no qual cada bloco precise de 1.500 cordeiros, apenas R$ 96 mil deste valor vai para a remuneração dos profissionais, tendo como base a diária de 2023, na qual cada cordeiro recebeu R$ 64.

 

O valor é uma das principais queixas dos profissionais, que para 2024, buscam um reajuste na diária, tendo em vista os dois anos de pausa do Carnaval devido a pandemia da Covid-19. Em entrevista ao Bahia Notícias, Matias Santos, presidente da Associação dos Trabalhadores Cordeiros da Bahia (Sindcorda), citou as reivindicações da categoria e afirmou que o valor pedido pelos profissionais, de R$ 150, está sendo reconsiderado.

 

“No ano passado nós tivemos o valor de R$ 64, estamos em discussão com os blocos para uma nova remuneração. O sindicato vai fazer uma assembleia ainda com os cordeiros, a nossa proposta é que se pague R$ 150 a diária. Tivemos dois anos consecutivos de pandemia, sem Carnaval, e esses valores ficaram como? Não teve reajuste? Acredito eu que os abadás, os blocos tiveram seus reajustes, os camarotes também. A gente está nessa discussão, tivemos na semana passada uma reunião com as associações e a gente deliberou em pauta essa diária. Eles iriam analisar, querem bater o martelo entre R$ 80 e R$ 90 reais para dar uma valorizada”, contou.

 

 

Ao site, o presidente do Sindcorda afirma que os profissionais estão desgostosos com a baixa remuneração pela função exaustiva e muitas vezes, acabam trabalhando em dois blocos para conseguir fazer um valor “que dê para sair de casa”.

 

“Os cordeiros também se revoltam dentro das suas cordas, exigindo mais direitos. Ninguém mais quer puxar corda por R$ 60. Esse foi um Carnaval que tivemos muitas questões, a exemplo do bloco da Timbalada, que os cordeiros largaram a corda no meio do caminho, porque não são valorizados. Muitas vezes os cordeiros fazem o trabalho braçal duas vezes, sai de um bloco, vai para outro, para conseguir complementar a renda”.

 

O exercício do cordeiro no Carnaval de Salvador existe desde o surgimento dos primeiros blocos, em uma espécie de separação, exclusividade e segurança do público que pagou pelo abadá para desfilar em uma festa privada dentro da maior festa de rua pública do mundo. 

 

De acordo com Matias Santos, a função é exercida em sua maioria por mulheres e jovens. “A maioria, no Carnaval de Salvador, são mulheres. Mulheres e jovens. São mulheres mães de família, jovem que está chegando agora e precisa de algum trabalho, precisa ajudar os familiares. Temos menos homens nessa função porque as empresas de segurança contratam eles para o trabalho no Carnaval, principalmente para fazer a proteção ali próximo ao trio”.

 

Foto: Divulgação

 

Estima-se que atualmente 15 mil cordeiros atuem na função no Carnaval de Salvador. De acordo com o presidente do Sindicorda, o número apresenta uma redução de quase 50% em um comparativo com 2015 e 2016. 

 

“Já chegamos a ter 50 mil cordeiros trabalhando no Carnaval, com a queda que se teve, nós fomos diminuindo e chegamos a 30 mil cordeiros. Atualmente nós temos 15 mil cordeiros, porque vai sair na Barra só 10 blocos de corda por dia. A redução foi acontecendo aos poucos, porque a própria Prefeitura faz a propaganda do Carnaval sem corda”.

 

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Para Matias, apesar de entender a importância da democratização do Carnaval, é necessário também que se entenda o mercado que a festa movimenta. “Existe uma cadeia dentro do Carnaval que se faz um emprego direto. Tem pessoas que dependem disso, o pessoal do cordeiro, do apoio, dos seguranças. Porque o cordeiro, por exemplo, ele está cordeiro, mas fora do Carnaval ele vai montar uma banca, ele é ambulante, carpinteiro, eletricista, ele ajuda no orçamento de casa.”

 

Além de uma melhora na remuneração, entre as reivindicações do Sindicorda para o Carnaval de 2024 estão melhores condições de trabalho, EPIs, uniforme único e treinamento prévio.

 

“O que estamos pedindo é o básico. Os cordeiros querem uma remuneração melhor, querem um lanche adequado e nutritivo para aguentar as 10h de circuito, mais água no circuito, queremos que a Prefeitura faça a contrapartida social, que não existe. São uma série de situações que a gente tem que jogar no colo do gestor do Carnaval, é essa provocação que a gente faz com a Prefeitura.”

 

Veja as reivindicações listadas pela categoria:

Ponto de apoio para categoria, localizados nos dois circuitos da festa Barra (Dodô) e Campo Grande (Osmar)
Uniforme único
Seguro de vida para todos os cordeiros, homologado no sindicato
Cadastro único junto a Prefeitura
Treinamento prévio com a ajuda dos blocos e Prefeitura para capacitação anual

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