Esquerda perde protagonismo na América do Sul e vê direita impor sua força em meio a descontentamento da população

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A vitória de Javier Milei, na Argentina, de Daniel Noboa, no Equador, e de Santiago Peña, no Paraguai, quebrou o domínio da esquerda que estava sendo construído na América do Sul, e impediu a construção de uma nova Onda Rosa que vinha se desenhando na região. Atualmente, dos 12 países da América do Sul, sete são governados pela esquerda, quatro pela direita, além da Venezuela, que é uma ditadura. De todas as eleições que ocorreram neste ano na América Latina, apenas a Guatemala elegeu um líder de esquerda, que ainda não sabe se vai conseguir assumir o poder, já que enfrenta uma ofensiva judicial desde que confirmou sua presença no segundo turno, em junho. Por outro lado, na Argentina, Paraguai e Equador, que precisou antecipar as eleições depois que Guillermo Lasso dissolveu a Assembleia Nacional, a direita levou a melhor. Mesmo que a esquerda ainda permaneça como a maioria das lideranças nos países latino-americanos, especialistas ouvidos pelo site da Jovem Pan dizem que, agora, há uma população descontente com os governos que tem votado com a oposição em busca de mudanças. Com isso, cria-se uma polarização e um revezamento de poder entre diferentes grupos.

Flavia Loss, professora de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e a sigla fica (FESPSP), avalia que a esquerda está enfraquecida na região, porque não conseguiu dar para a população as respostas esperada, o que reduziu a força dos candidatos deste espectro político nas eleições. “A Onda Rosa que conhecemos no começo dos anos 2000 realmente se enfraqueceu. Agora vemos uma política muito acirrada entre as duas orientações políticas”, diz. Ela ressalta que a escolha pelo termo “Onda Rosa” se deu pelo fato de os países serem governados pela centro-esquerda, não pela esquerda. “Hoje temos uma grande insatisfação, e isso atingiu ambas as vertentes políticas, só que em momentos diferentes”, destaca. “Não há um consenso sobre estarmos em uma segunda Onda Rosa”, resume Caroline Silva Pedroso, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo. A especialista explica que, quando os líderes que esquerda chegaram ao poder nos anos 2000, “havia uma expectativa social grande de que eles realmente fossem trazer mudanças”, além do fato de que se tinha uma capacidade de articulação maior entre eles, o que fez com que o número de aprovação fosse mais elevado. Contudo, hoje, há uma situação mais complicada, porque os governos de esquerda que conseguiram voltar ao poder estão com uma base popular muito mais fragmentada, e as eleições estão sendo muito disputadas.

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Novo presidente de Paraguai, Santiago Peña, e a primeira dama, Leticia Ocampos, durante cerimonia de posse em Assunção │EFE/ Christian Alvarenga

“As populações hoje estão muito mais polarizadas, muito mais fragmentadas. Então, a base popular desses governos também é mais frágil, o que dá menos fôlego para que eles consigam fazer projetos mais ousados na arena internacional”, diz Pedroso. Para Loss, a chegada de Milei ao poder pode mexer com o cenário na América do Sul, principalmente se ele conseguir se consagrar como força da direita. Se tiver êxito, ele se junta a Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que deixou a presidência nesta semana para concorrer às eleições de 2024, na qual deve se sair vencedor, já que tem grande aprovação. “Milei é uma força da direita em termos de campanha. Ele teve uma vitória muito forte e se tornou presidente da Argentina, só que agora tem o desafio de implantar aquilo que propôs”, explica. “Ainda está cedo para projetarmos Milei como uma força. É preciso analisar os seis primeiros meses do governo dele: se ele não for bem, essa vertente política pode perder força em outras eleições e em outros países”, conclui a especialista.

Caroline Pedroso, que também enxerga o argentino e Bukele como as forças da direita na América Latina, lembra que hoje a direita está ganhando mais eleitoralmente e tem um cenário favorável a ela, porém, como os desafios são muito complexos na região, já que envolvem questões econômicas e a discussão sobre violência, não garante que será fácil para ela governar e resolver esses problemas, visto que a população quer respostas rápidas, o que, consequentemente, possibilita que a esquerda possa se fortalecer novamente. Apesar desse ciclo de alternância de poder parecer ruim, Pedroso vê com bons olhos, pois demonstra que as pessoas “estão conseguindo identificar as diferenças entre as propostas e governos”. Segundo ela, neste momento, a região vive um momento no qual a população enxerga um esgotamento dos governos de esquerda. “Chega um momento em que esses governos não têm mais outras respostas para dar para aqueles problemas, então eles [os eleitores] voltam a apostar em um posicionamento mais de direita para resolver esses problemas”, conclui. Flavia Loss destaca, no entanto, que direita e esquerda tiveram vitórias e derrotas no período em que estiveram no poder. “Olhando para os governos de direita no Brasil, na Argentina, no Uruguai e no Paraguai, tivemos alguns avanços em termos de livre comércio, livre mercado, redução do papel do Estado”, lembra. “Contudo, houve alguns problemas também, redução de programas sociais”, acrescenta.

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O presidente do Equador, Daniel Noboa, saudação do Palácio de Governo hoje, em Quito│ EFE/ José Jácome

Já com a esquerda à frente, diz, o cenário foi diferente. “Houve avanço dos direitos sociais, que faz o maior papel de programas sociais por parte do Estado, mas neste caso desaguamos no mesmo problema, que é não resolver todos os problemas, não trazer todo o crescimento esperado, além da corrupção, que volta a atormentar todo o cenário político”, resume Loss. A especialista também ressalta que, entre prós e contras, os avanços não foram suficientes. Em razão disso, problemas como pobreza, falta de crescimento econômico e distanciamento do grande comércio internacional ainda persistem. Por fim, a professora da FESPSP destaca que essa situação pode ter relação com algo que é constante na América Latina: a descontinuidade de governos. “Costumamos olhar para política de uma forma de curto prazo. Isso acaba atrapalhando o desenvolvimento, ou seja, falta muito mais um projeto de país nos governos, para, independente das vertentes políticas, haver ao menos uma continuidade, porque isso favorece a evolução”.

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