Por um triz (por Gustavo Krause)

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Os ditos populares e as locuções adverbiais enriquecem nossa língua e, com precisão e humor, descrevem situações sem exigir maior esforço de compreensão. Sugerem imagens.

Quando a gente se defronta com um “quase” acidente automobilístico ou uma bola bate na trave, pensa ou diz, para enfatizar sentimentos díspares: “foi por um triz”, ou seja, um “quase nada”, um “tantinho”, “um cabelo de sapo”. E por aí segue o palavrório sem que se saiba, muitas vezes, a origem da expressão, às vezes supostas, eruditas (o fio da espada de Dâmocles), sempre, porém,  medindo o ínfimo.

Pois bem, a banda democrática do mundo político brasileiro, diante das revelações da operação da Polícia Federal “Tempus Veritatis”, percebeu que “por um triz”, reforçando com a sabedoria popular, “a vaca não foi pro brejo” ou, na linguagem coloquial, não houve uma ruptura institucional da democracia – golpe – em que o principal suspeito é o ex-Presidente Bolsonaro.

O Chefe, a bem da verdade, jamais escondeu pendores autocráticos em pensamento, palavras e obras.

O pensamento, ainda que toscamente assimilado, tinha como fonte a tríade ideológica – Olavo de Carvalho, Steve Bannon, Aleksandr Dugin (o segundo, guru, hoje rompido com Trump e o terceiro, oráculo de Putin) – que difundiu ideias inspiradores da extrema-direita mundo afora.

As palavras de tom antidemocrático, em várias ocasiões, constituíam o vocabulário do confronto, ofensa, ameaça, associadas ao discurso negacionista, sobretudo nas referências contundentes à pandemia e à questão ambiental. Expressava a clássica mensagem do populismo autoritário, exaltando o ódio conveniente, a mágica distributivista, a culpa terceirizada, a eliminação do adversário/inimigo e a desmoralização das instituições.

A obra, produto do projeto de poder, sintetizada na personalidade narcísica do “quero, mando e posso”, esbarrou exatamente na força social das instituições que transcende indivíduos cuja função existencial é estruturar e mediar a dinâmica da sociedade.

Neste sentido, cabe destacar que o evidente processo de cooptação das Forças Armadas, incluídos oficiais generais, esbarrou na firme decisão do Alto Comando da Forças Armadas de não atender aos apelos golpistas do entorno do ex-Presidente fazendo valer o compromisso inafastável com o Estado Democrático de Direito.

As investigações estão em curso. Uma das virtudes da democracia é oferecer a todos os envolvidos princípios e instrumentos consagrados pelo próprio regime democrático que assegura ampla defesa e uma imprensa livre capaz informar a sociedade brasileira a dimensão do risco que correu o nosso povo.

Do episódio ficam uma lição e um susto.

A lição: a defesa da democracia é uma tarefa cívica, exaustiva, mas não precisa de desprendimento heroico, senão uma peleja cotidiana com a força das ideias, a persistência do ativismo e o compromisso ético com as novas gerações.

O susto: “por um triz”, um “tiquinho” menos de 1 milhão votos, talvez, não estivéssemos contando esta história.

 

Gustavo Krause foi ministro da Fazenda 

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