Tarcísio, bolsonarista, com uma tinturazinha de direita civilizada

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Depois que a anistia de 1979 permitiu a volta dos políticos exilados ou banidos do país pela ditadura militar de 64, Zadock Castelo Branco, jornalista pernambucano, era o único de nós que ousava demonstrar intimidade com Miguel Arraes.

Quando o encontrava em algum lugar no Recife, batia de leve em sua barriga e repetia a mesma saudação:

“Como vai esse pessedista velho, com uma tinturazinha marxista?”

O PSD foi um partido conservador criado por Getúlio Vargas e conciliador por excelência. Os militares prenderam Arraes em 1º de abril de 64 por tê-lo como um perigoso comunista.

Três vezes governador de Pernambuco, ele era tratado por amigos e desafetos como “doutor Arraes”. Os pobres, seus eleitores agradecidos e fiéis, o chamavam de “Pai Arraia”.

Entre uma baforada e outra do seu inseparável charuto, ou entre um gole e outro de uísque, Arraes achava graça do comentário de Zadock e o abraçava com carinho.

Lembrei-me dessa história depois que li a notícia de que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, decidiu militarizar cem escolas estaduais.

A partir de 2025, policiais militares da reserva passarão a atuar como monitores e gestores em instituições de ensino. O sistema de ensino paulista tem cerca de 5.000 escolas.

Com Tarcísio, que deve sua eleição a Bolsonaro, a quem serviu como ministro, a Polícia Militar de São Paulo passou a matar livremente sem ter que dar satisfação a ninguém.

No primeiro trimestre de 2024, o número de mortes por ação policial aumentou de 75 para 179, 180% a mais do que no primeiro trimestre de 2023. O que disse Tarcísio a respeito:

“O pessoal pode ir na ONU, na Liga da Justiça ou no raio que o parta, que eu não estou nem aí”.

Se vivo fosse (morreu em 2026 com 74 anos de idade), o que diria Zadock caso conhecesse Tarcísio e ousasse abordá-lo da mesma maneira como abordava Arraes? Talvez dissesse:

“Como vai esse militar bolsonarista velho, com uma tinturazinha de direita civilizada?”

Em 1985, com a morte de Tancredo Neves, o presidente que não tomou posse, o deputado federal Fernando Lyra (MDB-PE) tornou-se ministro da Justiça do presidente José Sarney.

Lyra era um célebre frasista. À falta de notícias, os jornalistas, em Brasília, se contentavam com suas tiradas inteligentes e mordazes. Uma delas custou-lhe o ministério.

Na noite de 29 de julho de 1985, num ato público que reuniu, no Rio, mais de 700 artistas que lotaram o Teatro Casa Grande, Lyra declarou a morte da censura no país.

Ocorre que no meio do seu discurso ele elogiou Sarney. E não encontrou melhor maneira do que defini-lo como “vanguarda do atraso”. Sarney apoiou a ditadura e rompeu com ela.

Vingança é um prato que se serve frio. Sete meses mais tarde, pressionado pela Igreja, Sarney proibiu a exibição do filme “Je Vous Salue, Marie”, do cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard.

E quem anunciou a volta da censura? Lyra, o ministro da Justiça que semanas depois perderia o emprego. Sarney trocou-o pelo enfatuado gaúcho de chapéu Paulo Brossard.

“Vanguarda do atraso…” É, cai bem em Tarcísio, o candidato de Bolsonaro para enfrentar Lula daqui a dois anos.

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