Márcio Aparecido da Cruz Germano da Silva, de 44 anos, foi designado para atuar no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 2ª Região, localizado em São Paulo. Ele enfrentou desafios desde cedo, perdendo a visão total aos oito anos de idade, após um segundo erro médico oftalmológico, que resultou na perda da visão do olho direito, tornando-o completamente cego.
Durante o período em que ainda enxergava parcialmente, Márcio foi alfabetizado e aprendeu a linguagem de braile na casa de um senhor cego em Maringá. Apesar de estar em processo de adaptação, já que um dos olhos ainda funcionava bem, a perda da visão do segundo olho foi um baque para ele e sua família, que não receberam suporte dos profissionais de saúde na época.
“Meus pais não tiveram nenhum amparo dos médicos, nem do hospital”, afirmou Germano, destacando a falta de apoio enfrentada pela família diante da situação. Essa experiência marcou sua trajetória, moldando sua determinação e superação ao longo dos anos. Mesmo com a adversidade, Márcio buscou oportunidades de crescimento pessoal e profissional.
Seu primeiro emprego foi como técnico judiciário na Justiça Federal da 4ª Região, estabelecendo assim um início sólido em sua carreira. Agora, ao ser designado para o TRT da 2ª Região, Márcio Aparecido da Cruz Germano da Silva representa mais do que um profissional competente, ele simboliza a resiliência e a capacidade de superar obstáculos.
A jornada de Márcio Germano é inspiradora e revela a força de vontade de alguém que, mesmo diante de desafios imensos, persistiu em seus objetivos e conquistou reconhecimento profissional. Sua história é um exemplo de determinação e coragem, destacando a importância de acreditar em si mesmo e seguir em frente, mesmo nos momentos mais difíceis.
A chegada de Márcio ao TRT da 2ª Região representa não apenas uma vitória pessoal, mas também um marco na luta pela inclusão e igualdade de oportunidades. Sua trajetória nos recorda que as limitações físicas não podem e não devem ser barreiras intransponíveis para o sucesso e a realização profissional.Um advogado da época pegou uma procuração de amplos poderes dos pais de Márcio e desapareceu em seguida. “Fomos abandonados pelo Estado ou por seja lá quem for. Não houve apoio. Minha família ficou sozinha cuidando disso, mesmo sem orientação”, afirmou o juiz Márcio Aparecido da Cruz Germano da Silva.
Educação
No final de 1987, a escola em que Márcio estudava o expulsou. “A alternativa para a pessoa cega era ir para São Paulo, para o Rio de Janeiro, ou para Belo Horizonte, onde havia institutos que faziam um ensino segregado, mas um ensino de qualidade fora da escola regular”, contou.
Ele retornou à escola somente em 1990, aos 10 anos de idade, para um programa piloto em Sarandi (PR), idealizado por uma professora que tinha dois irmãos cegos, um deles aquele senhor que ensinou braille a Márcio. “Eu fui um pioneiro nesse aspecto da aprendizagem inclusiva. Aprendi junto com os professores como funcionaria o ensino inclusivo, para que ficasse bom pra mim e pra eles.”
Márcio também foi pioneiro como estudante na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Ele foi o primeiro estudante com deficiência visual do curso de Direito da instituição. “Não havia livro em braille ali. A velocidade do Direito e a dimensão dos livros inviabilizam essa produção”, revelou.
Germano não tinha computador em casa para facilitar o processo a partir de leitura virtual. Nessa época, tocava violão em bares enquanto a mãe trabalhava como diarista para sustentar a casa. “Computador era algo fora da minha realidade.”
Trajetória
Márcio ganhou um computador de um colega de sala de aula no meio da faculdade. “Com a digitalização, eu fui ganhando a minha autonomia no estudo, o que refletiu no meu primeiro trabalho”, que foi como técnico judiciário na Justiça Federal da 4ª Região, em Porto Alegre. “Em um primeiro momento, no Poder Judiciário, havia uma desconfiança se uma pessoa cega poderia ou não trabalhar no judiciário em decorrência do processo ser físico. Os meus chefes falavam ‘a gente não sabe muito bem o que você vai poder fazer, mas a gente quer que você trabalhe aqui'”, explicou.
Inicialmente, Márcio fazia xerox e ia lentamente absorvendo tarefas. A partir de processos eletrônicos, ele começou a tomar decisões. “Foi um processo construtivo. Mas antes do Poder Judiciário, eu nunca fui aceito, por exemplo, em um escritório de advocacia, em razão da cegueira. Eu ia para a entrevista, tinha ótimas notas na universidade, mas ninguém me aceitava”, desabafou.
No TRT da 9ª região, em Curitiba, o então analista judiciário já conseguia escrever autonomamente, e foi convidado para trabalhar com o desembargador Ricardo Tadeu Marques da Fonseca, que também é cego. Na preparação para o concurso de juiz no TRT da 2ª Região, em São Paulo, Márcio teve ajuda de cinco colegas da profissão que organizaram todo o material para a prova oral.
Assista ao momento em que MárcioMárcio Germano recebeu a notícia da sua aprovação no concurso para juiz da Justiça do Trabalho em um momento emocionante. Ed Lyra Leal, juiz da Justiça Federal e o primeiro juiz cego de primeiro grau do Brasil, esteve presente para verificar a prova oral de Germano. Neste mesmo dia, Leal comemorava 10 anos de trabalho no judiciário brasileiro.
A jornada de Germano foi marcada pelo esforço pessoal e pelo apoio fundamental de diversas pessoas que cruzaram seu caminho. Em suas palavras, “Minha conquista foi fruto de muito esforço da minha parte, mas também, essencialmente, graças a muitas pessoas boas que encontrei durante o meu caminho, que me ofereceram várias possibilidades para acessar o conhecimento que me permitiu chegar onde estou. Não foi uma jornada solitária, mas sim acompanhada por muitas pessoas boas que me ampararam.”
Esse momento de vitória e reconhecimento é uma celebração não apenas da conquista individual, mas também de todo o apoio e solidariedade recebidos ao longo da caminhada até a aprovação no concurso para juiz. O reconhecimento da importância da ajuda prestada por outros no alcance deste objetivo ressalta a valorização das relações humanas e da colaboração mútua.
A superação de desafios e obstáculos, como o caso do primeiro juiz cego de primeiro grau do Brasil, exemplifica a capacidade de vencer limitações e quebrar barreiras no caminho do sucesso. A determinação, a perseverança e o apoio da comunidade são elementos-chave para alcançar metas desafiadoras e inspirar não apenas aqueles diretamente envolvidos, mas também aqueles que testemunham essas histórias de superação e realização.
A trajetória de Márcio Germano e a presença significativa de Ed Lyra Leal nesse momento de conquista ressaltam a importância do apoio mútuo, do esforço pessoal e do reconhecimento do valor das pessoas ao nosso redor. São exemplos inspiradores que demonstram que, com dedicação, colaboração e determinação, é possível alcançar grandes feitos e impactar positivamente a vida de outras pessoas.
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