Os momentos vividos pela Venezuela nos jogos da recente Copa América de futebol, disputada nos Estados Unidos, despertaram interesse. Os torcedores presentes não representavam turistas que decidiram fazer uma viagem internacional para acompanhar a seleção Vinotinto, apelido carinhoso da equipe nacional do país. O apoio fervoroso ao goleiro Romo e aos atacantes Randon e Soteldo, entre outros jogadores conhecidos, vinha principalmente de venezuelanos que deixaram seu país para escapar dos impactos danosos provocados pelo governo de Nicolás Maduro, que está no poder desde 2013.
Caso as pesquisas pouco confiáveis realizadas no país estejam corretas, a oposição que indicou o experiente diplomata Edmundo González Urrutia deverá vencer sem grandes dificuldades. Contudo, em um país com instituições frágeis, a necessidade de usar o condicional não se limita aos verbos. A realidade é que a nação das vastas reservas de petróleo se tornou um lugar de futuro incerto e questionável.
No próximo domingo (28), aproximadamente 20 milhões de pessoas terão a oportunidade de votar, sendo que a dúvida primordial se refere ao valor do princípio “quem vence, leva”. Em um ambiente onde as instituições são submissas à vontade de um ditador extravagante, o intervalo de seis meses entre a apuração dos resultados eleitorais e a posse do vencedor pode resultar em um retorno à normalidade democrática ou em um aprofundamento de uma autocracia cada vez mais evidente.
É preciso recordar que a outrora estável democracia venezuelana começou a se desfazer há 35 anos, com os protestos conhecidos como Caracazo que abalaram o governo de Carlos Andrés Pérez. Logo após, um coronel com ideias nacionalistas chamado Hugo Chávez liderou um levante para depor o governo. Após sua prisão em 1992, Chávez foi anistiado dois anos mais tarde pelo presidente Rafael Caldera. No final de 1998, em meio a uma crise econômica, o coronel foi eleito presidente, inaugurando o chavismo, que abraçou rapidamente pautas caras à esquerda nacionalista.
A resposta conservadora não demorou a chegar e veio de maneira drástica. Em abril de 2002, um golpe liderado pela Fedecámaras, um equivalente local à Fiesp, destituiu Chávez do poder. Rapidamente, o líder da organização, Pedro Carmona, dissolveu o Congresso e agendou eleições para o ano seguinte. A reação contrária foi praticamente imediata. Em apenas três dias, o presidente constitucional estava de volta ao cargo. No entanto, o legado desse episódio foi o enfraquecimento da democracia, das instituições e do tecido social.
A partir desse momento, Chávez intensificou seu poder e Maduro, sem o carisma inegável de seu antecessor, transformou o país em uma autocracia que se mantém por meio de ameaças, censura, cooptação das forças armadas e eleições manipuladas, que excluem os opositores mais populares. Diante da crise econômica, a Venezuela se tornou palco de um êxodo dramático. Estimativas internacionais indicam que mais de sete milhões de pessoas deixaram o país nos últimos anos, com os maiores grupos buscando refúgio na Colômbia, Peru, Brasil e Estados Unidos, respectivamente.
A ruína política e econômica do país levou até mesmo governantes vizinhos com ideologias de esquerda a se distanciarem do regime de Maduro. Um exemplo é o presidente chileno Gustavo Bóric. No entanto, a mudança mais celebrada pela oposição venezuelanaA posição do presidente Lula coincide com a da maior liderança contrária ao chavismo, a deputada Maria Corina Machado, que observou mudanças no posicionamento de Lula. Ela reconheceu a importância das declarações recentes do presidente: “Acho que o presidente Lula fez declarações muito importantes e oportunas nos últimos dias… e creio que também com relação a mim”, afirmou.
No mesmo sentido, no Twitter, Edmundo González se expressou de maneira semelhante: “Agradecemos as palavras do presidente Lula em apoio a um processo eleitoral pacífico e amplamente respeitado na Venezuela”. Maduro e sua ditadura se tornaram parceiros tóxicos para qualquer político, especialmente para um líder de um país democrático. Lula certamente está ciente disso. Logo no período das ameaças direcionadas à Guiana, ele percebeu que o antigo aliado havia se tornado indefensável.
Para Lula, apoiar a redemocratização da Venezuela não apenas é a atitude correta, mas também o livrará de uma incômoda e persistente mancha em seu histórico democrático. Uma vitória ressonante de Edmundo González é seguramente o que Lula deseja ardentemente.

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