De acordo com pesquisadores, há indícios da existência de água líquida em Marte nos poros de rochas ígneas na crosta do planeta. Os dados coletados pela sonda da NASA, InSight Lander, revelam que o reservatório interno marciano poderia cobrir o planeta com uma camada de água entre 1 e 2 quilômetros de profundidade.
O líder da pesquisa, Michael Manga, pesquisador da Universidade da Califórnia em Berkeley, acredita que essa descoberta sugere a possibilidade de Marte sustentar vida. Ele destacou que a água é essencial para a existência de vida como a conhecemos e que, mesmo sem confirmação de vida em Marte, existem ambientes que poderiam teoricamente ser habitados.
Na Terra, há bactérias extremófilas que sobrevivem em condições extremas, como altas temperaturas e pressões. Algumas vivem a quilômetros abaixo da superfície, usando a energia eletroquímica das rochas para produzir nutrientes por quimiossíntese.
Publicado na revista PNAS, o estudo aponta que a água em Marte está situada entre 11,5 km e 20 km abaixo da superfície, o que tornaria inviável seu acesso em futuras missões ou na colonização. Na Terra, escavar a 1 km de profundidade já é um desafio significativo.
UM PASSADO DE OCEANO
Nos anos 1970, a sonda Mariner 9 proporcionou detalhes significativos ao mapear mais de 85% da superfície marciana, revelando evidências de canais de escoamento que sugerem um passado com grande quantidade de água. “A interpretação mais direta é que houve um oceano”, explica Gustavo Porto de Mello, professor do Observatório de Valongo.
A região sul de Marte é mais acidentada, com muitas crateras, enquanto o norte é mais plano, indicando a presença de um antigo oceano que desapareceu há cerca de 3 bilhões de anos. Parte dessa água se perdeu no espaço, outra está congelada nos polos e em forma de permafrost, presente também na Terra.
O estudo revela que uma parte da água pode estar armazenada nos poros de rochas ígneas formadas pelo resfriamento do magma, onde fica entre as moléculas minerais. Isso sugere que Marte pode ter uma quantidade significativa de água armazenada.
Diversos fatores, como a perda do campo magnético e da atmosfera marciana, contribuíram para a perda de água do planeta, tornando a água líquida instável em sua superfície. A exposição do vapor d’água aos raios UV em altitudes elevadas levou à quebra molecular e à perda de hidrogênio, devido à fraca retenção de átomos pela gravidade marciana.
Para Mello, é provável que boa parte da água marciana tenha se acumulado em reservatórios presentes na crosta do planeta, o que pode indicar um possível uso futuro desses recursos.
Um novo estudo científico recém-publicado revela resultados semelhantes a uma pesquisa feita por cientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) em 2021. Segundo a pesquisa, entre 30% e 99% da água de Marte está retida em rochas na crosta do planeta.
O pesquisador e pós-doutorando do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP), Bruno Nascimento-Dias, menciona que uma das principais teorias que explicam a presença de água no interior de Marte está relacionada ao movimento das placas tectônicas. Ao se afastarem, a água pode ter penetrado na crosta marciana.
Na visão de Dias, a confirmação da existência de água líquida em Marte aumenta substancialmente o interesse em buscar por esse recurso em locais mais acessíveis e próximos à superfície do planeta vermelho.
**OS DADOS DA INSIGHT LANDER**
A sonda InSight Lander pousou em Marte em 2018 e concluiu sua missão em 2022. O principal objetivo era coletar informações que ajudassem a explicar os processos envolvidos na formação do planeta vermelho. Durante sua operação, a sonda forneceu um “tesouro de dados” que serão analisados nas próximas décadas, de acordo com Gustavo Porto de Mello.
Aline Novais, pós-doutoranda da Universidade de Lund, na Suécia, explica que a InSight Lander conseguiu identificar movimentos que ocorrem na superfície marciana. Os pesquisadores compararam os dados da sonda com diferentes modelos de rochas terrestres com distintas quantidades de água nos poros.
“Com base na atividade sísmica observada, eles conseguem inferir qual desses modelos melhor se assemelha ao que ocorre em Marte”, explica a pós-doutoranda. “Esse é um trabalho estatístico que mede a probabilidade de um modelo representar a realidade.”
Este estudo traz perspectivas empolgantes sobre a presença de água em Marte e a importância de entender os processos geológicos do planeta vermelho. A pesquisa fornece bases sólidas para investigações futuras e estimula a busca por recursos hídricos que possam vir a ser explorados em futuras missões espaciais.

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