O ataque militar dos Estados Unidos em território venezuelano, que, segundo a cobertura internacional, culminou na captura do presidente Nicolás Maduro e em sua transferência para os EUA, inaugura um fato consumado que a América Latina conhece bem, mas prefere manter nos livros de história.
O risco imediato não está apenas em Caracas: está na normalização desse precedente. Se a remoção de um chefe de Estado vira expediente aceitável, governos da região reavaliam custos de autonomia, buscando abrigo em alianças extra-regionais, fortalecendo aparatos de segurança e reforçando o discurso nacionalista para sobreviver politicamente.
A arquitetura multilateral fica sob tensão. A Carta da ONU proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política dos Estados, e o sistema interamericano se sustenta no princípio da não intervenção. Quando o poder mais forte age como se essas bases fossem relativas, a diplomacia vira corredor de retaliações, com sanções, medidas unilaterais e mais desconfiança entre as nações.
O Brasil já sinalizou a gravidade ao afirmar que uma linha inaceitável foi cruzada e ao pedir resposta da ONU. O efeito dominó pode alcançar fronteiras, fluxos migratórios e segurança regional, com custos humanitários e políticos difíceis de gerir, sobretudo em estados fronteiriços já sobrecarregados.
Quem lembra do Panamá de 1989 sabe que a captura de Manuel Noriega e sua condução aos EUA se tornou símbolo de ingerência e provocou condenação internacional. No campo jurídico, decisões sobre não intervenção e o respeito às normas servem como alerta: a erosão das regras retorna como instabilidade, cobrando juros altos.
Projetando um horizonte de vinte anos, o maior perigo é a cristalização de um novo normal de tensões: competição por influência extra-regional, guerras de informação, ciberataques e autoritarismo em nome da ordem; economias já tensas enfrentando choques de risco e incerteza jurídica. Voltamos a ficar no quintal da Casa Branca, se essa leitura prevalecer.
A América Latina não precisa de uma Guerra Fria tropical, mas pode ser empurrada para ela se a lógica do fato consumado substituir a lógica das regras. A diplomacia regional enfrenta um dilema: condenar a violação sem fechar portas a uma saída negociada que evite o caos interno na Venezuela e, por extensão, a instabilidade política na região.
O ponto central é simples: quando a força vira atalho, a instabilidade deixa de ser exceção e passa a método. E, nesse cenário, nenhum país da região sai ileso. Compartilhe sua opinião nos comentários: como você enxerga o papel da diplomacia regional diante de ações que desafiam as normas internacionais?

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