Vida no espaço: o que é realidade para quem trabalha entre estrelas
Ser astronauta é um sonho comum na infância e continua despertando fascínio, mas a rotina fora da Terra envolve ciência, disciplina e desafios físicos e mentais que nem sempre aparecem nas telas. Especialistas ouvidos pelo Metrópoles ajudam a separar mito de fato sobre o dia a dia no espaço.
Entre mitos populares e fatos reais, veja o que realmente compõe a vida de quem trabalha em missões espaciais.
Mais altos no espaço?
Um dos fatos mais curiosos é que astronautas realmente ficam alguns centímetros mais altos durante a permanência no espaço. Em microgravidade, a coluna deixa de ser comprimida pelo peso do corpo, o que faz com que os discos entre as vértebras se expandam.
“Esse processo pode fazer o astronauta crescer de três a cinco centímetros temporariamente e costuma causar dores nas costas no início da missão”, explica.
Na volta à Terra, o corpo precisa se readaptar à gravidade, o que pode trazer novo desconforto e aumentar o risco de lesões. Por isso, os astronautas mantêm rotinas de exercícios rigorosos durante a missão e passam por um processo cuidadoso de readaptação após o pouso.

Exercício físico é obrigatório no espaço
Manter o corpo saudável em microgravidade exige esforço diário. Astronautas seguem uma rotina intensa de exercícios para evitar a perda de massa muscular e óssea.
O professor Alexandre Bergantini, do Observatório do Valongo, da UFRJ, explica que essa exigência resulta de décadas de pesquisa. “Hoje se sabe que são necessárias cerca de duas horas diárias de atividade física intensa, com equipamentos de resistência, esteiras e bicicletas adaptadas, para substituir a carga mecânica que a gravidade fornece na Terra”, diz o pesquisador, apoiado pelo Instituto Serrapilheira.
Além do exercício, a alimentação é cuidadosamente planejada para garantir ingestão adequada de proteínas, vitaminas e minerais. O sono segue horários rígidos, com controle de luz e rotinas pensadas para preservar o ritmo biológico e o desempenho cognitivo.
Água reciclada da urina e silêncio absoluto são reais
Outra verdade que costuma surpreender é o consumo de água reciclada a partir da urina, do suor e até da umidade do ar. Na estação espacial, quase toda a água é reaproveitada.
“A água reciclada passa por um sistema altamente sofisticado de filtragem e purificação. Urina, suor e até a umidade do ar são coletados, destilados, filtrados e tratados quimicamente para remover impurezas, bactérias e contaminantes. Antes de ser consumida, ela é constantemente monitorada e atende padrões de potabilidade muito elevados”, detalha Nicolas.
Já o som não é o mesmo que na Terra: como o espaço é um vácuo, não há meio material para propagação do som fora das estruturas pressurizadas, o que explica a ausência de ruídos fora dos módulos.
Basta ser muito inteligente para virar astronauta?
Outro mito comum é a ideia de que basta ser extremamente inteligente para entrar no programa espacial. A realidade é bem mais complexa.
“Inteligência é fundamental, mas está longe de ser suficiente. As agências espaciais valorizam muito a capacidade de trabalhar em equipe, o controle emocional, a comunicação clara e a tomada de decisão sob estresse. Afinal, são meses em um ambiente confinado, isolado e de alto risco”, destaca Nicolas.
Do ponto de vista físico, não é necessário ser um atleta de elite, mas boa saúde geral e condicionamento são indispensáveis para suportar as exigências da missão.
Saúde monitorada o tempo todo
Durante as missões, a atenção à saúde é constante. Segundo Alexandre, a NASA acompanha em tempo real diversos parâmetros dos astronautas. “São monitoradas alterações cardiovasculares, perda óssea e muscular, exposição à radiação, função imunológica, mudanças na visão e saúde comportamental”, afirma.
Esse acompanhamento é feito com sensores vestíveis, exames a bordo, coleta de amostras biológicas e comunicação contínua com médicos em solo.
O retorno à Terra também exige cuidado
Voltar ao planeta não significa que o corpo esteja pronto para retomar a rotina imediatamente. A reentrada é fisicamente exigente e requer acompanhamento prolongado.
“Os astronautas passam por recondicionamento cardiovascular, fortalecimento muscular, terapia de equilíbrio e monitoramento da densidade óssea”, explica Alexandre. Em missões longas, esse processo pode durar meses ou até anos.
Alguns efeitos podem ser permanentes, especialmente na visão. A microgravidade favorece o deslocamento de fluidos para a cabeça, aumentando a pressão nos olhos e provocando alterações visuais duradouras, além dos riscos associados à radiação.
Menos glamour e mais ciência
Para Nicolas, um dos mitos que mais atrapalha a compreensão do público é a ideia de que a vida no espaço é sempre emocionante.
“O trabalho é altamente técnico, muitas vezes repetitivo, e exige disciplina constante. A ciência mostra que o corpo não se adapta perfeitamente ao espaço e precisa de monitoramento contínuo”, finaliza.
Os relatos destacam que a rotina é mais sobre ciência, tecnologia e precisão do que sobre heroísmo romântico. O ajuste constante do corpo e da mente é essencial para a segurança e o sucesso das missões.
E você, o que acha sobre a vida no espaço? Compartilhe nos comentários suas perguntas, curiosidades ou opiniões sobre como seria viver em uma missão de longa duração.

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