Prisões de técnicos de enfermagem suspeitos de matar pacientes na UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga (DF) reacenderam uma discussão que vai além da revolta: o caso remete a episódios sombrios já registrados em hospitais brasileiros, como o do “Anjo da Morte” no passado.
No Distrito Federal, a investigação teve desdobramentos já no fim de 2025, quando a direção do hospital comunicou à Polícia Civil a identificação de circunstâncias atípicas em óbitos na UTI. Três vítimas, sem relação entre si, faleceram após passagem pela unidade entre novembro e dezembro. A partir das evidências reunidas, três técnicos de enfermagem — Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo (24), Amanda Rodrigues de Sousa (28) e Marcela Camilly Alves da Silva (22) — foram afastados e passam por investigações.
A Polícia Civil do DF (PCDF) passou a analisar imagens de câmeras, ouvir testemunhas e cruzar informações clínicas. Em janeiro, foi deflagrada a Operação Anúbis, com prisões e buscas em endereços no DF e no Entorno. A análise de celulares pode indicar se as mortes confirmadas integram um quadro maior, permitindo cruzar os óbitos com as escalas de plantão dos investigados, inclusive em outros hospitais onde atuaram. A hipótese é a de que o número de vítimas possa ser maior.
Rio de Janeiro Esse método de investigação já foi utilizado no passado para elucidar casos chocantes. Em 1999, no Hospital Municipal Salgado Filho, a direção notou um número elevado de mortes em turnos da Unidade de Pacientes Traumáticos. Quando um auxiliar específico não estava escalado, os óbitos diminuíam; quando ele voltava, voltavam a aumentar. O funcionário, Edson Izidoro Guimarães, foi preso após denúncias de colegas e de uma funcionária de limpeza que testemunhou mortes logo após aplicações de injeções por ele. Edson confessou ter tirado máscaras de oxigênio ou usado a mesma substância dos técnicos do DF, alegando inicialmente o objetivo de “amenizar o sofrimento”. Posteriormente, o inquérito revelou o motivo mais perturbador: o recebimento de comissões de funerárias, em um esquema conhecido como Máfia das Funeralárias.
Segundo a polícia, Edson recebia valores entre cem e mil reais por óbito, dependendo do tipo de falecimento e da existência de seguro. Embora condenado por cinco assassinatos, as apurações indicaram que ele pode ter contribuído para centenas de mortes ao longo dos anos. O caso expôs um esquema nacional envolvendo hospitais públicos, funerárias e intermediários, provocando mudanças administrativas, investigações em outros estados e indenizações para familiares de vítimas.
Agora, mais de 25 anos depois, o país volta a enfrentar a possibilidade de mortes provocadas dentro de unidades de terapia intensiva, locais que deveriam representar a última linha de cuidado. No DF, a investigação continua sem indícios de participação de funerárias ou de uma motivação financeira parecida com a do caso do Rio.
De modo geral, o registro reforça a necessidade de vigilância constante e de investigações ágeis para evitar que erros ou atitudes criminosas comprometam a confiança da cidade, dos moradores e da região na assistência médica pública. A cada desdobramento, a memória de casos históricos serve como alerta para melhorias em procedimentos, fiscalização e transparência.
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