Em fevereiro de 2025, César Diego Justino, de 40 anos, desceu do avião em Fortaleza e beijou o chão, gesto que simbolizou alívio após uma jornada turbulenta. Ele voltava dos Estados Unidos, onde ficou quatro meses detido por entrar no país de forma irregular.
O retorno integrou o segundo voo de deportados da chamada era Trump 2.0, que levou 111 brasileiros para casa em 7 de fevereiro de 2025, abrindo uma série de relatos sobre os impactos humanos dessas medidas para quem fica preso entre fronteiras e políticas migratórias.
A BBC? Não. A série de reportagens Deportados dos EUA: um ano do voo que expôs a nova política migratória de Trump, produzida pelo Metrópoles, investiga os desdobramentos desses primeiros voos, cruzando depoimentos de quem passou pela expulsão, dados de Brasil e EUA e as respostas oficiais do governo brasileiro.
O sonho americano
César era corretor de imóveis em Caldas Novas (GO) e deixou o Brasil em agosto de 2024, movido por um sonho antigo: conhecer a América e buscar melhores condições para a família. O plano era ficar cerca de cinco anos para, depois, trazer a esposa e os filhos.
Sem intermediários, ele e um primo partiram de Brasília rumo ao Panamá e seguiram pela América Central até a fronteira com os EUA, passando por Costa Rica, Nicarágua, Honduras, Guatemala e México. “Ouvi histórias de sofrimento, principalmente de venezuelanos com crianças na estrada. Foi doloroso”, relembra.
Ao chegar aos EUA, César se apresentou às autoridades migratórias e solicitou asilo. Foi detido no Texas, onde ficou quatro meses, com alimentação regular e uma rotina básica. O juiz autorizou o andamento do pedido, mas César não conseguiu reunir todos os documentos no prazo, e o caso foi encerrado por abandono.
“O momento que mais me marcou foi quando o juiz disse que não ia me esperar mais. Era Natal. Ele até me desejou feliz Natal. Lá não tem jeitinho. Perdeu o prazo, acabou.”
Durante a detenção, César afirma não ter recebido apoio do consulado brasileiro. “Se você ligar, não consegue falar. É muito precário. A sensação é: você foi imigrante, agora se vira.” O desamparo, segundo ele, foi constante.
Voo de repatriação
O retorno de César ocorreu no segundo voo de deportados da era Trump 2.0, que partiu de Louisiana, EUA. Mesmo com a tensão, ele descreve alívio ao desembarcar: “A tristeza tinha acabado. Voltar para a família não tem preço.” Ao chegar a Fortaleza, houve recepção oficial, kits de higiene, encaminhamento básico, mas, depois, silêncio. “Nunca mais entrei em contato. Não tive orientação sobre trabalho, documentos ou assistência.”
Ao todo, 111 brasileiros desembarcaram em Fortaleza, e parte do grupo seguiu para Belo Horizonte em voo da Força Aérea Brasileira (FAB).
Reconstrução
Um ano depois, César afirma ter se reerguido, trabalhando como corretor de imóveis e em uma concessionária de energia em Goiás. O retorno revelou um atraso financeiro próximo de R$ 100 mil, gastado na tentativa de realizar o sonho americano. O maior peso, porém, é simbólico: a sensação de rejeição.
“Você se sente expulso de um país, um nada diante daquela nação.”
A família foi a principal rede de apoio, mantendo o ânimo para seguir adiante. Cientificamente, César afirma ter conseguido manter a cabeça firme, mas não esconde críticas: “O governo brasileiro deixou a desejar. Eu me senti esquecido pelo Estado.”
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) diz acompanhar, desde 2025, relatos de brasileiros deportados, registrando informações para entender as condições e orientar políticas públicas. A coordenação com o Itamaraty depende de ações conjuntas com os órgãos competentes do Estado.
Como resposta estruturante, o MDHC anuncia o Programa Aqui é Brasil, formalizado pela Portaria Conjunta n° 2, de 4 de agosto de 2025. A iniciativa visa acolhimento humanitário de quem foi repatriado ou deportado, oferecendo suporte psicossocial, atendimento de saúde, orientação sobre acesso a políticas públicas e incentivo à integração socioeconômica.
Hoje, César não pensa em deixar o Brasil. O episódio serviu de aprendizado: “Se é seu sonho, vá com planejamento. Ir ilegal é humilhante e doloroso. Não recomendo.” O beijo no chão marcou o fim do sonho americano, e o retorno ainda expõe uma rotina de vida que, embora estável, permanece marcada pelas lembranças do que foi perdido.
Sem políticas públicas de acolhimento e reintegração eficazes, o retorno é apenas o início de uma luta silenciosa, individual e invisível para quem volta ao Brasil.
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Considerações finais
O relato de César evidencia que deportações em massa sem políticas de acolhimento efetivas deixam sequelas emocionais e dificuldades econômicas profundas. A resposta institucional avança lentamente, com iniciativas como o programa Aqui é Brasil, mas a sensação de abandono persiste entre quem retorna.
Se você acompanhou este caso ou tem experiências relacionadas, compartilhe nos comentários como políticas migratórias impactam famílias, empregos e a dignidade das pessoas.

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