O aumento dos furtos de cabos de energia tem deixado bairros do Distrito Federal com apagões recorrentes, gerando prejuízos financeiros e um clima de medo. Além dos danos materiais, a prática compromete serviços essenciais e afeta a sensação de segurança da população.
Moradora da Asa Sul, Fabiane Freitas relata que a instabilidade começou a piorar no fim de 2025, com oscilações que provocaram uma pane geral na quadra. Em casa, houve prejuízos e temor com novos danos provocados pela oscilação no fornecimento.
“Minha filha foi ligar o micro-ondas e fez um barulho, ‘pof, pof’, e começou a soltar a fumaça. Tive vários aparelhos elétricos queimados, o portão da minha casa queimou o motor e eu tive pane também no ar-condicionado.”
A quadra ficou cerca de seis horas sem energia; na proximidade do centro pop, a população relata que o acesso aos cabos atrai pessoas que buscam os fios furtados. Segundo Fabiane, os furtos já tinham ocorrido antes na porta de sua casa e a vizinhança viu a situação se agravar com o tempo.
Em outubro de 2025, Fabiane conseguiu registrar em vídeo o momento em que um homem se aproxima da caixa de energia, abre o compartimento e sai carregando fios, com a ajuda de outro suspeito.
Outro morador da Asa Sul relatou que, diante da recorrência dos crimes, os próprios moradores precisaram agir para conter a prática. “Tivemos dois furtos de cabos de energia de blocos na rua. Na segunda vez, conseguimos identificar as pessoas, cercamos o carro onde os cabos eram colocados e a polícia conseguiu prender os criminosos”, disse.
Como tentativa de conter os furtos, moradores passaram a soldar as tampas das caixas de energia, mas, pela dificuldade e custo alto, não conseguiram aplicar isso em todas. “Cotizamos e também tentamos fechar os acessos aos cabos e fios dos postes de iluminação pública”, contou.
Prática recorrente
A presidente do Conselho Local da Asa Sul, Patrícia Carvalho, afirma que o furto de cabos tem sido recorrente e provoca impacto imediato na vida da região.
“Quando ocorre essa situação, a região fica com trechos inteiros sem iluminação por dias, às vezes semanas ou até meses. Isso afeta diretamente a população na sensação de segurança e o funcionamento do comércio”, destacou.
“Não é só sensação, é uma realidade vivida no dia a dia. Não só para mim, mas para todos, quem mora na região, quem trabalha, quem precisa ir para uma parada de ônibus, quem estuda. Muito complicada a situação.”
Como presidente do conselho local, Patrícia diz que a iluminação pública está diretamente ligada à prevenção de crimes e à sensação de segurança. Quando falha, o impacto é coletivo.
Dados da Neoenergia Brasília evidenciam a dimensão do problema. Em 2025, foram registradas 1.108 ocorrências entre furtos efetivos e tentativas — uma média superior a três casos por dia no Distrito Federal. Ao longo do ano, mais de 100 mil clientes tiveram o fornecimento de energia afetado.
O Plano Piloto, incluindo Asa Norte e Asa Sul, concentrou 602 ocorrências em 2025, mantendo-se como a região mais crítica. Águas Claras aparece em seguida, com 120 furtos e tentativas.
Relembre alguns casos
- Em outubro de 2025, a Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou a Operação Powercut II, desarticulando uma organização criminosa especializada em furtos e lavagem de dinheiro envolvendo cabos de energia, telefonia e internet.
- Três homens foram presos na madrugada de 12 de novembro, enquanto tentavam furtar cabos de energia dentro de um bueiro, na Asa Norte (DF).
- Em janeiro de 2026, a PCDF realizou uma operação para furtos de cabos em São Sebastião, usados para mineração de criptomoedas.
- Em outro caso, ladrões fingiam ser técnicos de telefonia para furtar cabos de energia e transmissão de dados. O prejuízo estimado ultrapassa R$ 1 milhão apenas em 2025.
Impacto em hospitais e serviços essenciais
No caso dos hospitais, o problema é ainda mais grave. Em março do ano passado, pacientes internados no Hospital Regional do Paranoá apresentaram piora no estado clínico após falha de energia provocada por furto de cabos na região.
Segundo a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), o impacto imediato inclui instabilidade em sistemas de informação, dificuldade de acesso a prontuários eletrônicos, interrupção de serviços não essenciais e sobrecarga da infraestrutura.
“Cada hospital da rede pública conta com sistemas de backup, como geradores e no-breaks, dimensionados para manter áreas críticas em funcionamento, como UTIs, centros cirúrgicos e alas de emergência.”
“Os geradores entram em operação em segundos após a queda de tensão e, com um plano de contingência, é possível a imediata reorganização dos fluxos assistenciais e administrativos, garantindo a continuidade e a segurança do atendimento à população”, diz a SES-DF.
Os equipamentos passam por testes periódicos de carga e abastecimento contínuo de combustível, conforme contratos de manutenção preventiva e corretiva, além da atuação da Sinfra (Subsecretaria de Infraestrutura em Saúde).
Já no caso das escolas, a SEEDF informou que as unidades da rede pública contam com vigilância e que “não há registro de furtos de cabos de energia em unidades escolares, nem de suspensão de aulas por esse motivo”.
A situação demonstra que a infraestrutura crítica depende de preparação contínua e respostas rápidas para evitar impactos ainda maiores no atendimento à população.
E você, já viveu ou viu relatos parecidos na sua região? Compartilhe nos comentários como tem lidado com essa realidade e quais medidas favoritas você adotaria para reduzir os riscos de furtos de cabos na sua localidade.

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