Abacásia quer reconhecimento de independência, enquanto a Ossétia do Sul almeja a reunificação com a Ossétia do Norte, território da Federação Russa. Internacionalmente, as duas regiões são reconhecidas como parte da Geórgia, com exceção de Rússia, Nicarágua, Venezuela, Síria, Nauru e Vanuatu. A Geórgia, por sua vez, menciona as regiões pelos nomes de suas capitais: Sukhumi (Abecásia) e Tskhinvali (Ossétia do Sul).
Historicamente, a Ossétia do Sul foi anexada pela Rússia em 1801, ao lado da Geórgia, e a Abecásia tornou-se protetorado russo em 1810, sendo capturada por São Petersburgo em 1867 após conflitos no Cáucaso. Com a Revolução Russa, a Abecásia teve um breve estágio republicano em 1917; em 1931, foi incorporada à República Socialista Soviética da Geórgia. A dissolução da União Soviética, em 1991, desencadeou conflitos na Geórgia: Ossétia do Sul declarou-se independente em 1991 e Abecásia em 1992. Em 2008, a guerra na Geórgia levou Moscou a apoiar as regiões com tropas, resultando no reconhecimento russo de independência e na permanência de contingentes.
Segundo Fabrício Vitorino, jornalista e pesquisador do NPSeD/UFSC e NEU/USP, a Ossétia do Sul mantém uma relação de integração “quase estrutural” com a Rússia. Moscou garante segurança, financia boa parte do orçamento local e coordena defesa e política externa. Isso, segundo ele, revela um forte componente irredentista: não seria apenas sobre separação, mas sobre a reunificação de um povo dividido por fronteiras. Os ossétios do sul veem-se parte da mesma nação dos do norte, com identidade histórica comum.
A influência da guerra na Ucrânia também é citada como fator que afeta a região. Kai Kenkel, professor de relações internacionais da PUC-Rio, avalia que o conflito deslocou atenções e recursos russos de áreas estratégicas do Cáucaso, gerando preocupação de que o apoio a movimentos separatistas na Geórgia possa enfraquecer. Mesmo com possíveis mudanças na Ucrânia, Kenkel aponta que a Rússia tende a manter zonas de influência no entorno, o que alimenta a lógica de preservação de suas esferas de atuação.
Além disso, há leitura de que Ossétia do Sul e Abecásia podem atuar no âmbito das negociações de paz entre Ucrânia e Rússia. A vice?presidente da Comissão Europeia, Kaja Kallas, indicou que a UE trabalha em uma proposta que determina que o Kremlin decida pela desocupação de territórios na Geórgia, na Armênia ou na Moldávia, com o objetivo de equilibrar as negociações entre Kiev e Moscou e destacar o tema central do Leste Europeu: a Rússia continua a atacar vizinhos.
Com esses desdobramentos, as tensões na Geórgia ganham novas leituras sobre o papel de Moscou, as ambições de independência e as negociações regionais que podem influenciar até acordos mais amplos de paz no Leste Europeu. Qual é a sua leitura sobre o futuro dessas regiões e o peso da influência russa na região do Cáucaso? Compartilhe sua opinião nos comentários.

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