Red Pill: Entenda como comunidades online e vídeos virais promovem a violência contra a mulher nas redes sociais 

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Em janeiro de 2026, o Brasil registrou 131 casos de feminicídio nos primeiros 31 dias do ano, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Além disso, a violência contra mulheres tem sido alimentada por conteúdos virais nas redes, formados por um discurso misógino conhecido como “red pill”, que não surge apenas de uma mobilização orgânica, mas se conecta a tendências amplificadas pelas plataformas digitais.

A expressão “red pill” remete ao filme Matrix (1999), em que o protagonista é convidado a escolher entre uma realidade ilusória (pílula azul) e uma percepção direta da verdade (pílula vermelha). Na Internet, esse rótulo passou a designar uma “revisão” de gênero defendida por comunidades majoritariamente masculinas, que veem a sociedade sob um prisma de masculinidade divergente.

Pesquisadoras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ana Carolina Weselovski da Silva e Inês Hennigen, analisam esse movimento em “Misoginia Online: A Red Pill No Ambiente Virtual Brasileiro”, publicada em 2024 na Revista Feminismos da UFBA. Elas descrevem a machosfera como um conjunto de grupos —

Observando a narrativa, as pesquisadoras destacam quatro grupos centrais: os MRAs (ativistas pelo direito dos homens), os PUAs (artistas da sedução), os Incels (celibatários involuntários) e os MGTOWs (homens seguindo seu próprio caminho). Cada um, à sua maneira, propõe uma leitura radical das relações de gênero e da masculinidade.

Para os MRAs, fundamenta-se a obra The Myth of the Male Power (O mito do poder masculino), de Warren Farrell (1996), que questiona a dominação masculina e sugere que os homens são o “sexo descartável” em determinados contextos, enquanto as mulheres ocupam posição privilegiada. Já os PUAs defendem técnicas de sedução, mostrando a ascensão da neomasculinidade, associada a Roosh V, com a pretensa defesa de papéis de gênero com base em supostas diferenças biológicas.

Os Incels, por sua vez, costumam justificar a misoginia a partir da frustração sexual, culpando as mulheres por seus próprios impasses afetivos. Os MGTOWs promovem o afastamento dos relacionamentos, do casamento e de códigos “ginocêntricos”, defendendo que homens devem seguir seus caminhos sem se prender a padrões sociais tradicionais.

Esses grupos, antes restritos a espaços online, ganharam visibilidade pelas redes sociais, com conteúdos apresentados como conselhos amorosos ou guias de sucesso. Em muitos casos, reforçam uma visão binária de gênero e chegam a apoiar a violência física ou psicológica contra mulheres, propalando narrativas que moldam comportamento e atitudes digitais.

A disseminação desses conteúdos ocorre por meio de coaches da masculinidade que utilizam formatos variados e, muitas vezes, disfarçados de aconselhamento. Um vídeo citado na reportagem mostra um influenciador afirmando que toda mulher deveria trabalhar pela internet para sustentar papéis tradicionais de gênero, sob a alegação de manter a ordem social.

Outro exemplo envolve o Café Com Teu Pai, com pílulas de incentivo que “ensinam” mulheres a se comportarem conforme visões masculinas, incluindo comparações entre prostituição e relacionamentos informais. Além disso, a Titanic é citada para defender privilégios históricos atribuídos às mulheres, como forma de justificar desigualdades percebidas.

Especialistas destacam que esses conteúdos criam um ambiente propício para a misoginia, ainda que seus autores tentem se apresentar como defensores de questões masculinas. Os estudos ressaltam a necessidade de regras para a circulação de conteúdos nas redes, com propostas para reduzir o discurso de ódio contra a mulher na internet.

Nesse sentido, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) protocolou um Projeto de Lei que visa criar a Política Nacional de Combate ao Discurso de Ódio contra a Mulher na Internet, exigindo que plataformas digitais retirem conteúdos que promovam violência ou discriminação de gênero. A ideia é promover uma rede mais segura e responsável para todas as pessoas.

O debate sobre a red pill e a machosfera continua relevante para entender como conteúdos online moldam atitudes e crimes reais. E você, o que acha dessa pauta? Compartilhe sua visão, perguntas ou experiências nos comentários abaixo para fomentar uma conversa construtiva sobre violência de gênero e redes sociais.

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