Uma evidência contundente de mudança cultural aparece na mais recente leitura do Pew Research Center: a maioria de pessoas nos Estados Unidos já afirma que não é necessário acreditar em Deus para ser moral e ter bons valores. Em 2025, 68% dos adultos americanos concordaram com a afirmação “Não é necessário acreditar em Deus para ser moral e ter bons valores”, a mais alta taxa desde o início das medições. Essa leitura sinaliza uma tendência de secularização que ganha fôlego globalmente, com impactos sobre como as pessoas entendem moralidade, religião e convivência cívica.
O estudo, divulgado no início deste mês, utiliza dados coletados entre 24 e 30 de março de 2025, envolvendo 3.605 adultos na amostra dos Estados Unidos, como parte da Pesquisa American Trends Panel Wave 166. A questão sobre a necessidade de crença em Deus para ser moral foi repetida 18 vezes desde 2002, e os números de 2025 revelam um giro consistente: 58% em 2014 já marcavam a tendência contrária à ideia de que é indispensável crer em Deus para ter valores morais, e desde 2020 cerca de dois terços mantêm essa posição. O recorte americano reflete, portanto, uma curva de mudanças que ganhou fôlego ao longo de duas décadas.
Além dos Estados Unidos, o Pew pesquisou adultos em 24 países da Europa, África, Ásia e Américas na primavera de 2025. Em metade desses países, principalmente na Europa, houve maioria que concorda que a crença em Deus não é necessária para não perder a moralidade. Já Índia e Indonésia se destacaram como exceções, apresentando crescimento na parcela de pessoas que veem a crença em Deus como necessária para ser moralis. Ou seja, a relação entre religião e moralidade não é uniforme, variando conforme contexto cultural e histórico.
Entre os indianos, a probabilidade de dizer que a crença em Deus é necessária subiu 6 pontos percentuais entre 2019 e 2025, para 85%, e em comparação com 2013 houve ganho de 15 pontos percentuais. Na Indonésia, 96% ou mais dos adultos associaram a crença em Deus à moralidade em todas as vezes desde 2007. Ainda assim, há uma forte correlação entre acreditar em Deus e sustentar a ideia de que essa crença é necessária para ser moral, segundo o pesquisador Jonathan Evans, reforçando que mudam as percepções, mas limites regionais ajudam a explicar as diferenças.
A pesquisa também aponta que, em lugares como Brasil, Índia, Indonésia, China, Nigéria, África do Sul e Turquia, prevalece a associação entre religião e moralidade. Em contrapartida, a Europa tende a ver menos essa ligação direta, o que sugere que diferentes trajetórias históricas de secularização moldam as respostas. O resumo do levantamento aponta ainda para uma realidade social em transformac?ão: a relação entre fé, valores morais e identidade religiosa passa por mudanças profundas, especialmente em sociedades onde a prática religiosa formal está menos central na vida cotidiana.
Paralelamente, dados da Gallup indicam que a participação de pessoas sem identidade religiosa formal — o chamado “sem religião” — atingiu um patamar histórico em 2025 nos Estados Unidos. Menos de metade dos adultos (47%) diz que a religião é “muito importante” em suas vidas, enquanto 25% a classificam como “bastante importante”. A tendência de queda na centralidade da religião contrasta com o aumento da posição de que a crença em Deus nem sempre é necessária para a moralidade, refletindo uma transição cultural que também se observa em várias regiões ao redor do mundo.
Entre as nuances regionais, destaca-se ainda que, na Hungria, dois terços dos adultos que consideram a religião muito importante também afirmam que a crença em Deus é necessária para ser moral. Em contrapartida, entre os que atribuem menor importância à religião, apenas 19% associam a crença em Deus à moralidade. Esses casos ilustram como a percepção pública sobre religião, moralidade e fé varia de acordo com o peso dado à religiosidade na vida cotidiana, numa paisagem global de transformações contínuas.
O conjunto dessas leituras aponta para uma sociedade em movimento: a ideia de que ser moral depende exclusivamente da fé em Deus não é tão universal quanto parecia há algumas décadas. Ainda assim, a conexão entre prática religiosa, identidade cultural e noção de moralidade continua presente em muitos países, com nuances que mudam conforme contexto histórico, político e social. Em muitos locais, a religião permanece como um fator significativo de coesão comunitária e valores compartilhados, mesmo quando a visão de mundo se torna mais plural e secular.
E você, como enxerga essa relação entre crença, moralidade e prática religiosa na sua cidade? Que impactos você vê nessa tendência global de secularização para a vida pública, a educação e as escolhas individuais? Compartilhe sua opinião nos comentários e participe da conversa sobre como as mudanças na percepção de moralidade moldam a sociedade atual.

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