Racismo no futebol oscila no Brasil e no exterior, enquanto Vinicius Júnior lidera a resistência e inspira ações institucionais
Resumo: o combate ao racismo no futebol brasileiro apresenta oscilações: queda de ocorrências em 2024, elevação parcial em 2025 e um saldo ainda desafiador na gestão de famílias, clubes e federações. Enquanto Vinicius Júnior se tornou símbolo de resistência internacional, leis e políticas aplicadas ao redor do mundo ganham intensidade. No Brasil, ações de base, fiscalização mais rígida e responsabilização institucional aparecem como pilares para frear a discriminação, enquanto na Europa o desafio é traduzido em medidas disciplinarias cada vez mais severas. Este panorama envolve dados do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, ações de clubes, e debates sobre a efetividade de leis e punições.
No Brasil, o 11º Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol aponta que os casos recuaram 19,85% em 2024, com 109 episódios ocorridos entre janeiro e dezembro, ante 136 em 2023. Entretanto, dados preliminares de 2025 indicam nova alta, com 120 ocorrências registradas até o momento. O estado de São Paulo lidera as estatísticas, com 23 casos, seguido por Minas Gerais, com 12, e Rio Grande do Sul, com 6. A variação sugere oscilações vinculadas às ações de combate, mas não eliminação do problema no nível nacional.
A presença internacional do Brasil fica marcada pelos relatos envolvendo Vinicius Júnior, hoje um dos principais símbolos de resistência antirracista. Ao longo de competições disputadas fora do Brasil, 18 casos de racismo foram mapeados contra jogadores brasileiros, sendo 14 direcionados ao atacante do Real Madrid. Em 2024, a Espanha condenou três torcedores do Valencia a oito meses de prisão por insultos racistas — a primeira sentença com pena de prisão por racismo em estádios naquele país.
A atuação institucional brasileira ganha destaque com a Bahia, que implantou ações específicas de combate ao racismo entre o fim de 2024 e o começo de 2025. Entre as iniciativas estão:
- Simbipoca: exibição mensal de filmes sobre antirracismo e resistência, com títulos como Pantera Negra, Corra!, Pelé, A Mulher Rei e Medida Provisória;
- Peles de Aço: projeto voltado ao autocuidado e à proteção da pele contra a exposição solar para atletas negros;
- Chá Revelação: Seria que sou negro?: oficina que aborda colorismo, formação do povo negro e autorreconhecimento;
- Mural de Resistência: espaço físico para registro e celebração da luta contra o preconceito.
Para especialistas, a educação dentro das categorias de base precisa vir acompanhada de um sistema judicial robusto. A efetividade das ações depende de uma resposta penal clara e de sanções desportivas que incentivem mudanças reais no comportamento de atletas, dirigentes e torcedores.
Brasil x Europa
A comparação entre Brasil e Europa evidencia diferenças de severidade e aplicação. No Brasil, a legislação 7.716/1989 (Lei Cáo), alterada pela Lei 14.532/2023, equipara injúria racial ao crime de racismo quando praticada em atividades esportivas com público. As penas podem chegar à reclusão de 2 a 5 anos e ao banimento de estádios por até três anos. Além disso, sanções administrativas da CBF, incluindo multas, perda de mando de campo, jogos com portões fechados e perda de pontos, compõem o arcabouço de penalties. No continente europeu, não há uma lei única; há regras da UEFA aplicáveis a competições continentais. A punição mínima para atos racistas envolve suspensão de até 10 jogos, com sanções adicionais para torcedores, como fechamento parcial ou total de estádios, multas e possível perda de pontos ou eliminação da competição.
Na Espanha, local de atuação de Vinicius Júnior, o Código Penal tipifica ódio como crime (artigo 510), com penas que podem chegar a quatro anos de prisão, ainda que as condenações recentes costumem ter suspensão da pena acompanhada de banimento de estádios por dois anos. A identificação dos agressores tem ganhado mais eficiência no país, segundo especialistas, parte de um esforço consistente por identificar e punir torcedores que cometem atos de racismo.
Especialistas também destacam que, apesar de o teto penal parecer similar entre os continentes, o efeito pedagógico depende de mudanças na cultura esportiva e de responsabilização institucional. A ideia é que punições não only atinjam o indivíduo, mas também atinjam a esfera administrativa dos clubes, para gerar impactos reais na prática cotidiana do futebol.
Papel das estruturas regulatórias
O papel das entidades reguladoras é central para transformar o discurso em ações. A FIFA estabeleceu um protocolo disciplinar que orienta a arbitragem: sinal com as mãos, interrupção da partida para registrar a ofensa e, se necessário, suspensão ou abandono do jogo. A UEFA endureceu regras, com suspensão mínima de dez jogos para envolvidos em atos racistas, além de sanções para torcedores, como fechamento de setores, multas e, em casos recorrentes, punições mais duras. Em ambos os cenários, há expectativa de que os clubes promovam programas de conscientização como parte da política de combate ao racismo.
Para o professor Maurício Stegemann, a mudança cultural nos estádios depende da responsabilização institucional. “Quando o clube e a instituição assumem a responsabilização, a cultura muda de forma mais efetiva.” Já Eduardo Maurício ressalta que a pena, por si só, muitas vezes é insuficiente para desencorajar comportamentos nocivos, defendendo também ações administrativas que afetem o funcionamento dos clubes, como a retirada de pontos em caso de infração grave.
Conselhos e ações dos clubes paulistas
Os clubes do estado de São Paulo têm se destacado por ações próprias de combate ao racismo. O Corinthians lançou a campanha “Preto e Branco: O Time do Povo na Luta Antirracista”, enfatizando a origem popular e a necessidade de denunciar o racismo. O Palmeiras informou a atuação contínua de um Núcleo Psicossocial na base, além de ter encaminhado uma carta à FIFA pedindo punições mais rigorosas após incidentes em jogos no Paraguai. O Santos destacou a parceria com o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, com palestras e exibição de conteúdos educativos, como o vídeo “Atenção, Torcedor”, nos clubes da cidade. Foi informado que o São Paulo não respondeu até o fechamento desta reportagem.
Galeria de imagens
Encerramento
O cenário mundial aponta para uma via de mão dupla: medidas legais mais rígidas e ações educativas dentro dos clubes são necessárias, mas não suficientes sem uma mudança cultural. A condução dessas mudanças depende de uma atuação firme de autoridades, federações e dirigentes, bem como da participação ativa de torcedores, atletas e jornalistas. A esperança é ver um futebol que dialogue com a diversidade, reduza a impunidade e fortaleça, a cada temporada, a prática esportiva para todos.
E você, leitor: qual a sua avaliação sobre o equilíbrio entre punição, educação e mudança cultural no combate ao racismo nos estádios? Deixe seu comentário abaixo e compartilhe experiências, preocupações e sugestões para ampliar o dano positivo desse movimento.



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