Uruçu-nordestina: o mel vermelho que nasce do cerume das abelhas sem ferrão no Nordeste brasileiro
As abelhas sem ferrão da espécie Melipona scutellaris, popularesmente chamadas de uruçu-nordestina, produzem uma substância chamada cerume — uma mistura de cera com resinas vegetais. Quando coletadas em áreas de manguezais, essas resinas podem tingir o cerume com tonalidades avermelhadas, influenciando a cor da colmeia. O mel resultante é sensivelmente moldado pela flora local, o que faz com que as cores, aromas e sabores variem conforme a região.
No Brasil, a uruçu-nordestina está presente em estados do Nordeste, como Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Sergipe e Ceará. O diálogo entre a biologia da abelha e o ecossistema local é o que confere às produções de mel características únicas. Diferentemente das abelhas com ferrão, que constroem colmeias com cera branca, as abelhas sem ferrão utilizam o cerume para estruturarem compartimentos internos da colmeia, incluindo reservatórios de mel e áreas de criação das larvas.
“A presença da cera vermelha está ligada às plantas que as abelhas visitam. Em áreas de manguezal e restinga, por exemplo, elas coletam resinas de uma planta conhecida popularmente como bugio, o que pode conferir essa tonalidade ao cerume”, explica o agroecologista Victor Felix, pesquisador da UFPB, apoiado pelo Instituto Serrapilheira.
Esse processo de pigmentação não fica restrito ao cerume. Existe uma relação direta entre a cor da cera, a própolis vermelha e as resinas coletadas pelas abelhas. Os pesquisadores destacam que a cor e o tom do cerume influenciam também a cor da própolis, ambos funcionando como parte da defesa natural da colmeia. Entre as plantas visitadas pela uruçu-nordestina, as resinas de manguezais aparecem entre as mais influentes para esse efeito colorido.
Melipona scutellaris é apenas uma dentre várias espécies de abelhas nativas sem ferrão no Brasil, e o colorido do mel depende diretamente da vegetação ao redor. Quando o néctar é coletado de flores distintas, o mel pode adquirir cores que vão do dourado ao âmbar, passando por nuances avermelhadas. O resultado é uma diversidade que se reflete não apenas na aparência, mas também no aroma e no paladar do mel produzido pela uruçu-nordestina.
“Os méis produzidos por abelhas sem ferrão apresentam grande diversidade de cores e sabores. Mesmo uma mesma espécie pode produzir méis diferentes dependendo da flora disponível na região”, afirma Roberto Montenegro, presidente da Associação de Meliponicultores do Distrito Federal (AMe-DF).
A combinação de cerume, própolis e mel reforça a importância dessas abelhas para a biodiversidade regional e para a produção de mel com atributos únicos. Em áreas onde a flora local inclui plantas da restinga e do manguezal, o cerume pode ganhar tonalidades distintas, o que também influencia o sabor do mel. Além de sua função ecológica, essas características podem tornar alguns méis mais raros e, consequentemente, mais valorizados no mercado.
A heterogeneidade da vegetação — da flora paraense às plantações da região nordeste — determina que cada colônia de uruçu-nordestina contribua com uma variação específica de cor, aroma e composição do mel. Assim, o ecossistema local não apenas sustenta a espécie, como também define a singularidade dos produtos apícolas oriundos dessas abelhas.




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