Revolta dos Malês: conheça a ligação da história da Bahia com o islamismo em centro cultural em Nazaré

Escrito por: Diógenes Cunha

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Em Salvador, a islamização não é apenas um capítulo religioso, mas uma presença histórica que atravessa séculos. O Centro Cultural Islâmico da Bahia, na região de Nazaré, funciona hoje como ponte entre passado africano e vida urbana, revelando como a cidade foi moldada por tradições diferentes. A reportagem acompanha essa conexão entre memória, fé e convivência na capital baiana.

A cidade não se resume ao estereótipo do sincretismo: para entender o cenário, é preciso conhecer a história da população de origem muçulmana. Após visitar a Sociedade Israelita da Bahia, na Pituba, a equipe seguiu para Nazaré para entender como o Islã se organiza no Centro Cultural Islâmico da Bahia e qual relação ele mantém com a Revolta dos Malês, marco da resistência negra no estado.

“A palavra ‘malê’ vem do iorubá imalê, que significa muçulmano”, explica o Sheikh Ameesh, a autoridade espiritual do centro. Ele reforça que o elo entre Bahia e islamismo vai muito além de 1835: existem mesquitas na Nigéria batizadas em homenagem ao Brasil, criadas por descendentes que retornaram ao continente para preservar a memória dessa história.

O ressurgimento do islamismo em Salvador começou no fim dos anos 1980 e ganhou impulso com estudantes da UFBA que pesquisaram a história dos Malês. Sem recursos para um espaço próprio, os encontros eram realizados nas casas estudantis. Em 1991, ocorreu o primeiro congresso sobre islamismo e a Revolta dos Malês, abrindo caminho para a organização local.

A sede atual foi adquirida em 1994; o espaço, que antes pertencia a um fotógrafo que deixava a cidade para seguir carreira, exigiu pouca reforma. Hoje, o Centro Cultural Islâmico da Bahia funciona em Nazaré, oferecendo salas de oração, biblioteca e áreas separadas para homens e mulheres, por questões litúrgicas.

Para o Sheikh Ameesh, o islã é mais do que oração: é um guia social que ensina convivência, família, respeito e bem comum, com base no Alcorão. Ele comenta ainda relatos curiosos sobre quem visita o centro esperando converter apenas para ter várias esposas, respondendo com bom humor que a religião não é motivo válido para esse tipo de mudança.

A conversa coloca em evidência a ideia de convivência entre culturas. Num alerta sobre a humanidade comum, o líder cita trechos do Alcorão que falam de povos e tribos para que todos se conheçam e façam o bem, não apenas entre muçulmanos. Hoje, moradores da região recorrem ao Centro Cultural Islâmico da Bahia para conhecer mais sobre uma fé que faz parte da formação histórica da Bahia.

A Revolta dos Malês, ocorrida em 1835, reuniu cerca de 600 africanos escravizados, principalmente nagôs e hauçás, muitos muçulmanos, que lutavam pela liberdade e pela prática religiosa. A repressão foi firme e líderes foram presos ou deportados de volta ao continente africano, deixando uma marca que ainda dialoga com a memória regional.

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