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Fortaleza sedia feira que defende políticas sobre drogas com justiça social

Fortaleza sedia feira que defende políticas sobre drogas com justiça social
Fortaleza sedia feira que defende políticas sobre drogas com justiça social

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Resumo: Participantes da 2ª edição da feira Febre de Arte, em Fortaleza, pediram a eleição de políticos comprometidos com políticas de drogas alinhadas à justiça social. Textos de pesquisa e dados oficiais foram apresentados, destacando cannabis, pregabalina, Lenad III e Datafolha, além de impactos sociais e da atuação policial. O tom é de cobrança por propostas claras e viáveis para a população.

Fortaleza foi palco da 2ª edição da feira Febre de Arte, com debates realizados no Anfiteatro Sérgio Motta, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Palestrantes convocaram o público a eleger políticos que apresentem clareza sobre políticas de drogas em harmonia com a justiça social. Entre os participantes, a Magda Almeida, médica de família e docente da UFC, conduziu a discussão sobre o tema.

“Há uma posição ideológica de se reduzir tudo à ideia de que ‘maconha faz mal’.”

Além da questão das políticas, Magda Almeida lembrou que negros e pobres são as principais vítimas da suposta guerra às drogas deflagrada no Brasil, relatando situações observadas em seu consultório envolvendo pacientes do sexo feminino.

Ela destacou a relação entre o uso de pregabalina, droga de tarja vermelha indicada para epilepsia, ansiedade e fibromialgia, e a possível recuperação por meio de cannabis. A médica descreveu potenciais efeitos adversos da interrupção abrupta da droga, como mudanças de humor, falhas de memória, pensamentos de automutilação ou suicídio, alucinações e desmaios.

A Blis Data, detentora do maior volume de dados de usuários de cannabis medicinal na América Latina, apontou que mulheres mais velhas e empregadas aparecem entre as principais consumidoras da cannabis importada, buscando alívio para distúrbios do sono e dor crônica.

O Cannabis foi destacado como a droga ilegal mais utilizada pelos brasileiros, conforme o , o terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas. Ao comparar 2022 e 2023 com 2012, o uso aumentou em adultos e adolescentes. Mais da metade dos entrevistados (54%) declararam consumo diário por pelo menos duas semanas, representando cerca de 3,3% da população (mais de 3,9 milhões de brasileiros).

“Um dos maiores erros da indústria farmacêutica é estabelecer doses genéricas, sem considerar as respostas de cada corpo. Existe uma máxima, que é ‘comece lento e continue lento’, que é quebrada pela indústria”, criticou Magda Almeida, ao enfatizar a necessidade de abordagens individualizadas.

“Cannabis não serve para tudo. Nenhum remédio serve para tudo.”

Impactos sociais

Painéis de debate trataram da relação entre seletividade policial, justiça criminal e o encarceramento em massa da população negra, bem como da expansão de facções ou milícias. O Datafolha, em consulta para o FBSP, apontou que quatro em cada dez brasileiros vivem sob a influência de organizações criminosas em suas proximidades — cerca de 68,7 milhões de pessoas.

As falas ressaltaram a necessidade de políticas públicas mais justas, com foco em redução de danos, prevenção e tratamento, em vez de abordagens punitivas que afetam desproporcionalmente populações vulneráveis.

Agência Brasil - foto relacionada ao evento
Agência Brasil - logomarca

Crédito: Agência Brasil

Resumo: Brasil enfrenta preocupante cenário de violência urbana e altos custos da proibição de drogas. Dados do Datafolha indicam que 55,9% das pessoas nas capitais relatam violência; 40,1% já sofreram violência no último ano, com 51,1% entre moradores de áreas com facções. Especialistas criticam a repressão e apontam impactos sociais e econômicos, incluindo custos para famílias e o Estado.

Brasil registra números alarmantes sobre violência e o impacto social da repressão às drogas. Dados do Datafolha indicam que nas capitais 55,9% dos entrevistados relatam vivenciar violência, e 34,9% apontam interferência intensa do crime organizado no cotidiano. A pesquisa também mostra que 40,1% da população sofreu violência nos 12 meses anteriores, subindo para 51,1% entre moradores de bairros com facções ou milícias.

Italo Coelho, advogado especializado em direito criminal, aponta semelhanças entre a perseguição a expoentes da capoeira e do samba e as barreiras impostas à cannabis no país. Ele destaca que o conhecimento sobre substâncias benéficas para o corpo, tradicionalmente utilizado por povos e benzedeiras, foi tomado pela medicina convencional. “A indústria tem agora todo o direito de vender maconha nas farmácias, enquanto pessoas são presas por causa de um baseado e ainda consideradas traficantes”, afirma.

Tamára Silva, cofundadora da Marcha da Maconha de Fortaleza e da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), afirma que a atuação de agentes de segurança pública se restringe à repressão, resultando em mais polícia, mais presídios e mais prisões para “solucionar” o problema.

“A gente está vivendo isso há mais de 100 anos. Acompanha cada vez mais o narcotráfico faturando bilhões, vendo a nossa juventude ser aliciada e a cidade territorializada por essas organizações criminosas, definidas pela lógica da violência”, ressaltou a advogada Bianca Cardial, mediadora das apresentações do domingo e integrante da Renfa e da Rede Reforma, ao acompanhar eventos relacionados à discussão sobre drogas. Ela também lembra que muitas pessoas são presas por quantidades mínimas de cannabis.

Pastoral Carcerária Nacional destaca os custos sociais do encarceramento ligado à proibição, apontando que o gasto com itens básicos de higiene e alimentação para visitas ao sistema prisional, distribuidos pelo Estado, representa cerca de 70% de um salário mínimo por semana e pode chegar a 4,33 bilhões de reais por ano. A organização reforça que o impacto recai sobre as famílias e o orçamento público.

Cesec revela que, em 2023, foram gastos 7,7 bilhões de reais para aplicar a Lei de Drogas apenas em seis unidades da federação: Bahia, Distrito Federal, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.

IPEA estima que o custo dos homicídios vinculados à proibição de drogas chegue a cerca de 50 bilhões de reais por ano, equivalente a 0,77% do Produto Interno Bruto (PIB).

Febre de Arte foi organizada pela Agência Liamba 360° e pela Adapta Associação Canábica. Na edição deste ano, a Au Feira integrou a programação, trazendo a experiência de mais de 100 edições no Ceará e um público superior a 500 mil pessoas. O evento reuniu apresentações, cocuradoria de espetáculos e a Rua das Associações, espaço dedicado às organizações da Região Nordeste que apoiam pacientes que utilizam cannabis medicinal.

*A repórter viajou a convite da Agência Liamba 360°.

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