Brasil registra aumento de doenças infecciosas ligado ao clima

Escrito por: Diógenes Cunha

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Resumo: Em 2024, o Brasil registra recorde de dengue. A Bahia apresenta cerca de 163 mil casos e 188 óbitos. A Fiocruz destaca expansão de microrregiões epidêmicas, associada a anomalias térmicas. Contexto internacional reforça a relação entre clima e transmissão.

Palavras-chave: dengue, Fiocruz, microrregiões, clima, Extremo Sul da Bahia

Bahia vive, em 2024, um cenário de dengue mais amplo, alinhado ao aumento observado em outras regiões do país. Segundo estudo da Fiocruz, o estado registrou aproximadamente 163 mil casos confirmados e 188 óbitos, num contexto em que o Brasil manteve recordes de infecção.

Imagem ilustrativa

Enquanto o Rio Grande do Sul chegou a quase 210 mil infecções e 281 óbitos, a expansão não se restringe ao Sul. A atualização aponta que, de 2006 a 2024, o número de microrregiões brasileiras com níveis epidêmicos saltou de 110 para 292, o que representa 54% do território nacional.

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A explicação principal, segundo pesquisadores, está no clima: a maior incidência de anomalias térmicas tem sido o principal indicador para o aumento a longo prazo das taxas de dengue. O conceito refere-se a variações significativas de temperatura ao longo do tempo, que favorecem a transmissão.

“O que se observa é que o processo de expansão da área de transmissão da dengue parece ser irreversível. Uma vez introduzidos, o vírus e o vetor, é improvável que se retorne a um cenário de transmissão zero”, alertam os autores.

Para o infectologista Celso Granato, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, o espalhamento da dengue é uma das maiores provas de como as mudanças climáticas podem incidir sobre as doenças infecciosas.

A doença tropical está chegando também a regiões mais frias e, por esse motivo, ganhou relevância internacional. “Atualmente, a região continental dos Estados Unidos enfrenta o maior surto de dengue da história, com casos autóctones já identificados na França e na Itália neste ano”, descreve a matéria.

Granato detalha que todas as etapas do ciclo de vida do Aedes aegypti são sensíveis às mudanças climáticas. “Eles colocam ovos com uma casca extremamente resistente que pode permanecer na natureza por anos e se romper com umidade e calor. Além disso, a transmissão de fêmea para ovos já ocorre, elevando o potencial de disseminação”, conclui.

Observação: a pesquisa reforça a necessidade de fortalecer vigilância epidemiológica e estratégias de controle de vetores para conter a expansão da dengue nas microrregiões brasileiras.

Resumo: O Brasil enfrenta aumento de doenças infecciosas associadas às mudanças climáticas, com a dengue ainda em alta e a febre do Oropouche registrando mais de 12 mil infecções no ano anterior em 23 estados e no Distrito Federal. Especialistas apontam relação com temperaturas elevadas, chuvas intensas e eventos extremos, como secas e enchentes; o risco cresce com o fenômeno El Niño. Alerta também para surtos pós-eventos climáticos e impactos em diferentes regiões do país.

Brasil enfrenta sinais de aumento na transmissão de doenças vinculadas ao clima. A dengue continua sendo uma preocupação sanitária recorrente, enquanto a febre do Oropouche — que circulava quase que exclusivamente na Região Amazônica até 2023 — já somou mais de 12 mil infecções no ano anterior, distribuídas por 23 estados e pelo Distrito Federal. A relação com as mudanças climáticas ainda é objeto de estudo, mas especialistas apontam que condições como elevação de temperatura e variação de chuvas favorecem a proliferação de vetores e a transmissão de doenças.

Mudanças climáticas já levam ao aumento de doenças infecciosas. Na foto Celso Granato.

Crédito: Divulgação SBPC/ML

“A temperatura também altera o comportamento dos mosquitos já adultos. “Quando está muito calor, eles têm que bater a asinha mais rapidamente para conseguir voar. Então, eles gastam mais energia e precisam picar mais para se alimentar e acabam transmitindo mais a doença também”.“

Febre do Oropouche

A febre do Oropouche, que circulava quase exclusivamente na Região Amazônica até 2023, causou mais de 12 mil infecções no ano anterior, em 23 estados e no Distrito Federal. A relação com o clima ainda está sendo investigada, mas especialistas acreditam que mudanças nos padrões de temperatura e chuvas, associadas à degradação ambiental, contribuíram para a expansão da doença.

Granato ressalta que surtos podem ocorrer após eventos extremos, como secas e enchentes, que têm sido mais frequentes com as mudanças climáticas. A perspectiva de El Niño, que tende a intensificar esses fenômenos, aumenta a preocupação de autoridades de saúde pública em diferentes regiões do país.

Brasília (DF) 02/02/2024 - O Ministério da Saúde define a febre do Oropouche como doença causada por um arbovírus do gênero Orthobunyavirus, identificado pela primeira vez no Brasil, em 1960, a partir da amostra de sangue de um bicho-preguiça capturado durante a construção da rodovia Belém-Brasília.

Crédito: Sociedade Brasileira de medicina tropical/Divulgação

“No Rio Grande do Sul, após o desastre das chuvas, aumentou muitas vezes a frequência de leptospirose”, exemplifica o infectologista pesquisado. A doença é causada por uma bactéria transmitida principalmente pela urina de ratos, que pode se espalhar em enchentes, quando a água de enxurradas se mistura ao esgoto e facilita a contaminação de água potável e de alimentos, elevando o risco de transmissão.

A expansão de infecções ligadas ao clima reforça a necessidade de reforçar vigilância epidemiológica, saneamento básico e controle de vetores, especialmente em regiões com histórico de eventos climáticos extremos. As autoridades de saúde ressaltam a importância de medidas preventivas, como eliminar criadouros de mosquitos, manter ambientes livres de água parada e intensificar campanhas de conscientização durante períodos de seca e chuva intensa.

Mudanças climáticas elevam o risco de doenças infecciosas no Brasil, incluindo hantavírus e fungos patogênicos.

Desde 2016, foram confirmadas 530 infecções por hantavírus, com 212 mortes (letalidade de 40%).

Candida auris emerge como fungo capaz de sobreviver a altas temperaturas e de se manter no ambiente por longos períodos.

A pesquisadora Sarah Gonçalves Tavares, da UFES, ressalta a importância do monitoramento epidemiológico e da proteção em hospitais diante de queimadas e secas.

Brasil convive com alertas sobre como as mudanças climáticas ampliam o alcance de doenças infecciosas. O hantavírus, cuja presença no país já foi associada a síndromes respiratórias graves, apresenta números preocupantes: desde 2016, foram registradas 530 infecções e 212 óbitos, configurando uma letalidade próxima de 40%, conforme dados citados por especialistas ouvidos pela reportagem.

Além do hantavírus, o aumento do calor favorece a proliferação de fungos patogênicos. Em especial, o Candida auris tem chamado atenção por sua capacidade de resistir a condições extremas e de se manter no ambiente por longos períodos. A professora da UFES, Sarah Gonçalves Tavares, explica que a maioria dos fungos não suporta temperaturas ao redor de 37°C, mas o aquecimento ambiental tem rompido essa barreira. Ela ressalta ainda que, com a elevação da temperatura e mudanças ecológicas, esses microrganismos podem tornar-se mais nocivos aos humanos.

“A gente tem uma temperatura corporal média de 37 graus Celsius, e 95% dos fungos existentes no ambiente não crescem nessa faixa. Mas com o aumento da temperatura ambiental, esses fungos estão se adaptando”, afirma a professora Sarah Gonçalves Tavares. O Candida auris, identificado pela primeira vez na década de 1990 em áreas alagadas da Ásia, evoluiu para patógeno com alta resistência e persistência no ambiente, o que preocupa especialmente pacientes imunodeprimidos.

Segundo a análise apresentada pela pesquisadora, esse conjunto de fatores — temperaturas mais elevadas, alterações na radiação ultravioleta e mudanças ecológicas — favorece o surgimento de infecções fúngicas emergentes. Em meio a esses cenários, pesquisadores destacam a necessidade de vigilância contínua e de fortalecimento de estratégias de prevenção em instituições de saúde e comunidades, especialmente aquelas expostas a queimadas e à seca. Conforme informações da Agência Brasil, parceira do PrimeiroJornal, esses temas permanecem como pontos críticos de atenção para o enfrentamento de doenças ligadas ao clima.

A partir das evidências apresentadas, a orientação é ampliar a vigilância sanitária, fortalecer protocolos de biossegurança em hospitais e promover ações de manejo ambiental que reduzam o contato entre humanos e roedores durante períodos de seca, contribuindo para a redução de riscos de transmissão de doenças associadas a alterações climáticas.

Resumo Jornalístico

Fungos resistentes no Brasil ganham destaque a partir de 2020 com o primeiro registro de Candida auris na Bahia. Até agora, são 24 ocorrências em 15 estados, com 146 pacientes colonizados e 56 mortes; a letalidade atinge 82% quando a infecção evolui para o sangue. Trichophyton indotineae, identificado em 2022, já revela resistência a antifúngicos. Mudanças climáticas elevam o uso de fungicidas na agricultura, ampliando a pressão sobre cepas resistentes, enquanto o Aspergillus pode ganhar novos territórios no Brasil.

Fungo do tipo Aspergilus sob microscópio

Crédito: “Sarah Tavares/ Arquivo Pessoal”.

O primeiro registro de infecção pelo fungo no Brasil ocorreu em 2020, na Bahia. Desde então, são 24 ocorrências em 15 estados, todas em unidades de saúde. Dos 146 pacientes colonizados, 56 morreram. Quando a infecção evoluiu para a corrente sanguínea, a letalidade atingiu 82%.

Um exemplo recente citado é o Trichophyton indotineae, uma espécie de fungo que causa problemas de pele, identificada pela primeira vez em 2022.

“Ele já emergiu com resistência a antifúngicos, porque provavelmente estava exposto a isso no meio ambiente, e o remédio acaba selecionando cepas isoladas que são resistentes”, comenta uma professora da UFES.

Fungos resistentes não respondem aos tratamentos tradicionais; as mudanças climáticas interferem indiretamente nesse processo: eventos extremos aumentam a vulnerabilidade de plantações, levando agricultores a aplicarem mais fungicidas, o que acelera a seleção de cepas resistentes.

Além disso, alterações ambientais podem facilitar a dispersão de fungos que existem em áreas restritas. O gênero Aspergillus, que se desenvolve bem em regiões quentes e úmidas, tem avançado para novos territórios no Brasil conforme padrões de temperatura e umidade mudam, inclusive no território brasileiro.

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