O que era para ser um motivo de comemoração se transformou em pesadelo e angústia para a família de Mirza Quintão, filha do aposentado Antônio Márcio Quintão de Freitas, de 77 anos, uma das vítimas da contaminação da cervejaria Backer, em dezembro de 2019. Mirza foi uma das seis testemunhas ouvidas pela Justiça mineira ontem, no segundo dia de audiências de instrução no Fórum Lafayette, que busca identificar os responsáveis pelas intoxicações, lesões, sequelas e mortes.
No depoimento, ela se emocionou ao relatar os momentos difíceis antes da morte do pai. Segundo a testemunha, era um homem metódico e que cuidava muito da saúde. Ele optou por comprar a cerveja Belorizontina em virtude de uma promoção no supermercado.
???Meu pai tomou a cerveja Belorizontina em 24 de dezembro. Depois, consumiu algumas que sobraram, nos dias 27, 28 e 29. Depois, começou a sentir dor abdominal e achou que estava sofrendo um infarto. Passou por exames, mas eles não detectaram nada. Quando fizeram exame de sangue, perceberam alterações na creatinina. Os rins estavam parando. Ficou alguns dias internado até morrer, 15 dias depois???, contou à Justiça.
Mirza disse que a mãe também teve problemas de saúde em virtude de todo o baque representado pela morte de Antônio Márcio. ???Meu pai não misturava marcas de cerveja. Foi um estrago muito grande, pois ele havia perdido uma irmã meses antes. Quando ele faleceu, minha mãe infartou e teve infecção no pulmão.??? Ela cedeu à perícia diversas garrafas fechadas da Belorizontina para que fossem feitas novas investigações.
Quem também esteve no fórum foi o engenheiro metalurgista Luiz Felippe Teles Ribeiro, de 39. Morador do Buritis, ele ainda sofre sequelas pelo consumo da cerveja Belorizontina. Além dos problemas renais graves, perdeu toda a audição e usa aparelhos para se comunicar com os familiares e amigos. Precisou deixar o trabalho para cuidar da saúde. O sogro, Pascoal Demartine Filho, morreu após consumir a bebida.
A mulher de Luiz Felippe, Camila Massarde Demartine, prestou depoimento à Justiça. Para ele, o episódio negativo se transformou em força para lidar com os dias sofríveis. ???Todo esse sentimento eu transformo em força para minha vitória diária, que é minha recuperação. Cheguei à minha casa sem mexer um dedo. Todo o meu sentimento de ódio eu procuro transformar em motivação para minha família???, afirma.
Outra testemunha a prestar depoimento foi um engenheiro do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), órgão que recentemente deu aval para a cervejaria Três Lobos, dona da Backer, voltar a produzir em Minas Gerais a cerveja Capitão Senra.
O especialista disse que, assim que identificaram que a cerveja era o elemento comum nos casos suspeitos das intoxicações, técnicos compareceram aos supermercados para determinar a retirada das bebidas. Depois da primeira morte, determinaram a suspensão da venda dos lotes e passaram a investigar os produtos.
NOVOS DEPOIMENTOS A previsão é de que outras testemunhas sejam ouvidas até amanhã. No total, 28 pessoas prestarão depoimento no Fórum Lafayette. A partir disso, a Justiça vai se inteirar das demais provas policiais com objetivo de proferir a sentença.
No âmbito criminal, cinco responsáveis técnicos foram indiciados por homicídio culposo, lesão corporal culposa e por agirem com culpa na contaminação, além de um funcionário investigado por falso testemunho, e do chefe da manutenção, indiciado por omissão. Por fim, três gestores da Backer foram processados por atos na pós-produção: Ana Paula Silva Lebbos, Hayan Franco Khalil Lebbos e Munir Franco Khalil Lebbos.

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