A álgebra e a política

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A álgebra é o ramo da matemática utilizada para, entre outras coisas, manipular equações. As crianças são apresentadas a esse componente da matemática elementar no sexto ano do ensino fundamental quando mal estão iniciando a adolescência. A resolução de equações pressupõe que saibamos mexer com os seus termos, simplificando-as para que descubramos ao final o valor de uma variável. Mesmo aqueles que torcem o nariz para a disciplina compreendem que se em uma equação há um termo repetido no lado esquerdo e direito do sinal de igualdade, esse termo pode ser cortado dos dois lados.

O momento político do país antecipa uma disputa eleitoral que promete ser protagonizada por dois candidatos: o ex-presidente Lula e o atual presidente Jair Bolsonaro. A grande maioria dos institutos de pesquisa aponta que a intenção de voto somada dos dois postulantes está próxima aos 75%. Isso significa que há apenas 25% de eleitores que se dividem entre os demais candidatos, estão indecisos ou não possuem a intenção de votar em ninguém. Mantida a atual tendência, esse último grupo terá que se decidir entre não se posicionar a favor de nenhum dos candidatos, em um eventual segundo turno, ou tomar posição por um dos dois.

Admitindo-se o uso da racionalidade na escolha, é pressuposto que haja uma análise dos dois candidatos nas suas gestões à frente da Presidência da República. Sendo assim, um e outro devem ser avaliados em relação aos que os seus governos entregaram e que legados deixaram, entre outras áreas, na educação, saúde, cultura, meio-ambiente, relações internacionais, ciência e tecnologia e, sobretudo, pelo impacto que traz para a vida de todos, na economia. Igualmente, o respeito à institucionalidade, às regras democráticas e o seguimento de princípios éticos que costumam entrar na equação. A corrupção, compreendida como o distanciamento desses princípios, aparece sempre como um componente importante. Não raro, candidatos são rejeitados por serem avaliados como corruptos. 

Na falta de um corruptômetro, no entanto, a medição do grau de deterioração de comportamentos de um governante acaba contaminada por aspectos subjetivos. Desse modo, eleitores que se opõem a um candidato sempre tendem a associar níveis maiores de corrupção aos seus antagonistas políticos. Eleitores e simpatizantes do atual mandatário, mesmo cientes de que os políticos do PP e do PL, base de sustentação do atual governo, são os líderes em casos de corrupção do país nas últimas décadas, e a despeito do orçamento inédito e sem precedentes para emendas que sequer demandam projetos, justificam a rejeição ao PT pelas evidências de corrupção nos 13 anos que o partido governou o país.

Retornando à boa álgebra e assumindo como reais os casos de corrupção apontados pelos dois lados da contenda política, perderíamos a capacidade de diferenciar as candidaturas pelo termo corrupção, já que, presente nos dois lados da equação, seria excluído. Ficaríamos, então, com as demais variáveis já citadas anteriormente: educação, saúde, meio-ambiente etc. Nesse caso, independente da proxy que se possa adotar, a adoção de indicadores evitaria qualquer dúvida em relação à opção racional. Naturalmente que o raciocínio aqui apresentado exclui do processo decisório variáveis relacionadas a preconceitos diversos e interesses de classe, as quais não explicitadas tornam impossível a explicação de qualquer hesitação na preferência entre os dois candidatos.

Horacio Nelson Hastenreiter Filho é professor associado da Escola de Administração da UFBA

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