Sonhando nos braços de Morpheus

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Os fãs até já tinham perdido a esperança de assistir à adaptação de Sandman em live action. Primeiro, se falou em longa-metragem; em seguida, na produção de uma série para televisão. Depois, muita especulação sobre o elenco ideal. De repente, a boa notícia chegou ao reino do sonhar. A Netflix, finalmente, atendeu a todos os requisitos do escritor britânico Neil Gaiman, 61, e viabilizou uma bela transposição para o audiovisual de um dos mais complexos e importantes títulos das HQs.

Ao fim dos dez episódios que compõem esta primeira temporada, disponível na plataforma a partir desta sexta (5), a gente percebe que valeu a pena esperar. Sandman, a série, preserva o mesmo encanto que fez com que os leitores mergulhassem de cabeça naquele universo rico e sedutor que os quadrinhos apresentaram no final dos anos 80, início dos 90. O resultado na tela é uma fantasia apaixonante, com um ritmo mais lento (necessário) e uma direção de arte de cair o queixo de tão fiel ao original do papel.

Assim como fez na ótima Good Omens (Prime Video), o próprio autor cuidou de tudo pessoalmente, ao lado do showrunner Allan Heinberg, e garantiu a qualidade que vinha exigindo nas últimas três décadas. Ciente do valor de sua obra, que ajudou a consolidar o conceito de quadrinhos para adultos, Gaiman apresenta Sonho numa história de origem a partir da adaptação dos arcos Prelúdios e Noturnos e A Casa de Bonecas. Com ele, chegam também alguns integrantes da família dos Perpétuos, composta por Morte, Desejo, Destino, Desespero, Destruição e Delírio ??? todos filhos da Noite e do Tempo.

Veja o trailer de Sandman:

???Fiquei surpreso ao voltar aos quadrinhos que comecei a escrever em 1987 e perceber como poucas coisas precisavam ser alteradas para torná-los atuais. De várias maneiras estranhas, Sandman estava à frente de seu tempo, o que significa que tivemos de fazer menos cirurgias do que imaginávamos para torná-lo relevante agora???, disse Gaiman ao Estadão. 

A trama, que incorpora fantasia, mitologia e história para falar sobre a essência do ser humano, mostra Morpheus (Tom Sturridge) sendo capturado por acidente num ritual de magia, que o mantém longe do seu reino por quase um século. Com sua ausência, o sonhar desmoronou – e, com ele, a humanidade, que perdeu a esperança, matéria-prima deste universo. Quando finalmente consegue escapar começa então uma jornada para restaurar suas ferramentas de poder e o equilíbrio entre os sonhos e os pesadelos.

Encontro com a gentil dama
Tão esperada quanto seu irmão caçula, a presença da Morte acontece no episódio 6, O Som das Asas Dela, desenvolvido com uma delicadeza desconcertante. Diferente do visual de garota branca, gótica e de ar sapeca que nos acostumamos a encarar nas HQs, ela agora é uma mulher negra, com aparência de seus trinta e poucos anos e um olhar tão piedoso quanto o cuidado que tem com a passagem dos que encerram a participação neste plano. 

Interpretada por Kirby Howell-Baptiste, a Morte nos lembra o tempo todo que vivemos em transformação permanente e que vale a pena aproveitar os pequenos momentos, como ela própria demonstra a Sonho quando degusta uma simples maçã com atenção plena. Ninguém quer encontra-la e todos ficamos magoados quando temos que morrer. Mas, ela aprendeu que o que seus ???súditos??? precisam é de uma palavra gentil e de um rosto amigo no encontro final.

Veja galeria com os personagens:

Desde o anúncio do elenco, houve muitos comentários sobre pessoas não brancas e mulheres fazendo personagens que eram de brancos e homens nos quadrinhos. Lúcifer, por exemplo, nasceu inspirado em David Bowie e agora é vivido por uma elegantérrima Gwendoline Christie (muito distante do hedonismo que Tom Ellis conferiu ao personagem na série homônima). Já o mago John Constantine virou uma mulher interpretada por Jenna Coleman, que nem fede nem cheira neste trabalho. Outro que mudou de sexo e etnia foi o bibliotecário Lucien, agora uma mulher negra (Vivienne Acheampong, numa atuação muito segura). 

Gaiman garantiu que a ideia foi ampliar possibilidades:

???Olhávamos os quadrinhos e perguntávamos: ???Aqui temos um homem branco. Ele precisa ser homem, precisa ser branco???? ??s vezes, a resposta era sim. E às vezes, não.  Lucien, por exemplo, é uma entidade milenar que lá atrás foi o primeiro corvo de Sonho. Não havia razão para ser branco, nem homem. Não foi uma escolha de levantarmos uma bandeira e marcharmos pela diversidade???.

Uma das escolhas mais polêmicas foi a de Tom Sturridge para incorporar Sonho – esta que vos escreve ainda continua achando que Adam Driver era uma escolha melhor. A primeira impressão é que Sturridge é jovem demais para o personagem. Mas, o ator britânico de 36 anos encontrou o tom adequado para as nuances que Morpheus exige: a arrogância natural de uma existência de bilhões de anos, o rigor com as regras de sua função, a voz devidamente impostada, a ansiedade de ver seu reino restaurado e, finalmente, a humildade que vai adquirindo com as experiências ao lado dos humanos.

???Nossa versão é feita por Neil Gaiman. ?? a versão dele. A responsabilidade de interpretar Sonho foi um peso, mas de certa forma conecta-se à responsabilidade de Morpheus com os sonhos de todos. Minha responsabilidade era para com os sonhos dos fãs de Sandman???, ponderou Sturridge.

Quem são os Perpétuos?

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Tom Sturridge é Sonho (divulgação)

Sonho, conhecido também como Morpheus, é o protagonista de Sandman, o Rei dos Sonhos. A dimensão do Sonhar é um lugar moldado por memórias, esperanças e medos, e toda vez que uma criatura viva fecha os olhos para dormir, ela visita seu reino. Mais do que governar sonhos e pesadelos da humanidade, o Perpétuo também é responsável pela imaginação e pela esperança. Sonho é caracterizado como um monarca orgulhoso e arrogante.
Sonho é interpretado por Tom Sturridge na série Sandman da Netflix

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Kirby Howell-Baptiste é Morte (divulgação)

Morte é a irmã mais velha de Sandman e também a mais próxima dele, muitas vezes lhe dando conselhos importantes. Embora seja feliz e alegre, ela é a personificação antropomórfica do fim da vida, como seu nome deixa claro, estando lá no final da vida de cada ser vivo para guiá-los e levá-los para as terras sem sol da vida após a morte. Ela foi criada assim que a vida se tornou uma realidade no universo e está destinada a ser o último ser que resta quando o universo acabar. Por causa do peso que sua missão tem para os mortais, Morte sempre aparece sendo gentil e compassiva com a humanidade.
Morte é interpretada por Kirby Howell-Baptiste na série Sandman da Netflix.

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Mason Alexander Park é Desejo (divulgação)

Desejo é a personificação literal da necessidade e da propensão da humanidade ao desejo em suas variadas formas, inclusive de algo inalcansável. Seu reino, conhecido como Limiar, tem a forma de uma estátua de seu próprio corpo, mostrando todos seu egocentrismo. Por causa do domínio de Sonho sobre a imaginação e a esperança da humanidade, Desejo se sente como se eles fossem inimigos mortais e está constantemente traçando planos para acabar com ele. O visual de Desejo, que é irmão gêmeo de Desespero, normalmente é andrógino e sem gênero definido. Mason Alexander Park é Desejo na série Sandman da Netflix, uma pessoa não-binária.

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Donna Preston é Desespero (divulgação)

Desespero é irmã gêmea de Desejo, e domina todos os sentimentos humanos de desesperança, tristeza e ansiedade geral que os empurra para a total falta de esperança. Enquanto Desejo encarna a beleza física, Desespero é o oposto, retratada como uma mulher nua com buracos negros no lugar dos olhos. Quando um humano sente que perdeu tudo, ela olha para eles através de espelhos, pronta para enfiar seu gancho em seus corações e empurrá-los para acabar com suas próprias vidas. Ela muitas vezes trabalha com sua irmã gêmea, com desejos insatisfatórios que levam as pessoas diretamente para ela. Desespero é interpretada por Donna Preston na série Sandman da Netflix.

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Destino dos Perpétuos (reprodução)

Destino é o Perpétuo mais antigo, também o mais distante dos irmãos, e nasceu ao mesmo tempo que o universo, como manifestação de causalidade e consequência. Geralmente retratado como um homem cego de manto, seus verdadeiros poderes estão em seu vasto e infinito conhecimento, carregando um livro acorrentado ao corpo com toda a história da existência,  garantindo que o tempo continue fluindo normalmente e todos os humanos possam encontrar seu destino. Destino não aparece nesta temporada.

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Destruição dos Perpétuos (reprodução)

Levando em conta seu nome, o reino e deveres de Destruição envolvem é claro a destruição, mas também a criação ??? afinal, somente com a destruição do antigo é que as coisas novas e as novas ideias poderiam surgir. Porém, com a descoberta da ciência pelo homem, ele sabia que a humanidade usaria armas como a bomba atômica para sua destruição. Então, abandonou suas responsabilidades há muito tempo. Destruição não aparece nesta temporada, é apenas citado como o Pródigo.

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Delírio dos Perpétuos (reprodução)

Nascida como a personificação do prazer e da alegria como Deleite, essa personagem sofreu uma experiência traumática que a transformou em Delírio. Ela é a irmã mais nova dos Perpétuos Sonho e a governante absoluta de seu reino, um mundo que controla tanto a sanidade quanto a loucura. Seu reino  é abstrato, cheio de cores e formas em constante transformação, enquanto seus poderes incluem metamorfose e ela está constantemente mudando de forma para se adequar ao seu humor em mudança. Delírio não aparece nesta temporada.

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