Quilombola morre em acidente com pau-de-arara na Chapada dos Veadeiros

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A quilombola Domingas Fernando de Castro morreu, aos 52 anos, após sofrer um acidente em caminhão “pau-de-arara” na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Ela teria ficado assustada com a fumaça que saía do transporte irregular e, ao ouvir gritos de que o veículo estava pegando fogo, pulou da carroceria. Levada já inconsciente ao hospital de Cavalcante, Domingas não resistiu aos ferimentos.

No momento do acidente, caminhão tinha ao menos 15 pessoas amontoadas, que subiam os morros de difícil acesso da comunidade Vão das Almas, em Cavalcante (GO). Segundo relatos, o transporte fazia uma subida íngreme e precisou forçar um pouco mais o motor, por isso a fumaça. Assustados, cinco pessoas pularam; quatro estão bem.

Após a tragédia, o socorro também teria demorado a chegar e foi feito sem um equipamento específico. De acordo com o boletim de ocorrência, registrado na Polícia Civil do município, um carro com tração 4 x 4 foi usado “devido à região ser de serra e de difícil acesso” para fazer o atendimento.

“Pegaram minha mãe e colocaram num banco após uma queda dessas”, disse a filha de Domingas, Lucineide de Castro. “Ela estava com a bacia, com fêmur quebrado, foi colocada no carro, sem maca, sem cuidado nenhum. Uma artéria rompeu e ela morreu antes de ter atendimento”, lamenta. O atestado de óbito de Domingas indicou, também, anemia causada em decorrência do acidente.

A reportagem teve acesso a um vídeo em que Domingas, minutos antes de morrer, está deitada no chão e implora por ajuda. Os colegas que estavam no carro seguram a mão dela e tentam reconfortá-la. Por respeito à família, as imagens não serão divulgadas.

“A morte dela foi puro descaso”, ressaltou o outro parente de Domingas, que preferiu não se identificar. “Tratam as pessoas como animais”, completou. Para ele, a quilombola só morreu por negligência do Estado com a comunidade Kalunga.

“Eles deixam os recursos bem longe da gente, o que é bom, que é recurso, que pode levar a gente a se desenvolver. A gente não tem acesso a um transporte legal”, indignou-se.

Quilombolas Descendente de pessoas escravizadas que fugiram e montaram o quilombo Kalunga, no qual vivia, Domingas estava a caminho do centro de Cavalcante para sacar o dinheiro da aposentadoria e fazer compras. Atualmente, essa é a única forma de transporte coletivo que existe no local. O acidente também revela um lado aterrador do município, conhecido pelas paisagens paradisíacas. De difícil acesso para os turistas na região, o trajeto também faz parte da rotina de moradores que vivem nas comunidades.

“O pessoal fica tudo em pé”, detalhou uma pessoa da região que não quis se identificar. A tragédia com Domingas ocorreu em 1º de novembro, mas só foi divulgada na semana passada.

Com apenas 9.583 habitantes, mais de 90% da receita do município é de fora, sendo movimentado pelo turismo da região. Os dados estão no Instituto  Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“É comum que no final ou no início de cada mês passe um pau-de-arara buscando as pessoas nas comunidades para que sejam levadas a cidade e sacar dinheiro de auxílios governamentais”, contou outra pessoa da região ouvida pelo Metrópoles. “Aquilo é uma tragédia anunciada, mas muitas vezes se faz vista grossa porque é a única forma de acesso dos moradores”.

A reportagem apurou que atualmente não há outro meio de transporte coletivo sem ser o caminhão irregular. Veja imagens de pessoas nesse tipo de transporte:

As cenas são de agosto deste ano e se repetem todo mês.  A voz de quem gravou foi alterada para evitar que a pessoa seja identificada. “Em pleno século 21, um pau-de-arara para subir a serra”, destaca a voz.

O Metrópoles questionou a prefeitura de Cavalcante sobre o transporte público aos moradores, mas até o momento não teve resposta. O espaço segue aberto para possíveis manifestações.

O caso é investigado pela Delegacia de Polícia de Cavalcante (GO).

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