GUSTAVO SOARES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A questão que Kate Darling, especialista em robótica do MIT Media Lab e do Boston Dynamics AI Institute, nos faz refletir é: por que não inovar? Para ela, a obsessão por criar robôs humanoides reproduzindo aspectos humanos deve ser deixada de lado em prol do desenvolvimento de habilidades únicas nas máquinas, que ultrapassem a imitação humana.
Ela argumenta que estamos naturalmente fascinados por nós mesmos, comparando inconscientemente robôs a pessoas e a inteligência artificial à inteligência humana. Romper com esse padrão é um desafio que precisamos enfrentar.
No livro “The New Breed”, que aborda a relação histórica da humanidade com os animais e como isso pode inspirar a robótica, Kate defende que a tecnologia deve explorar e abraçar diferentes tipos de inteligência, indo além da experiência humana habitual.
Kate traz à tona o uso de animais ao longo da história para trabalhos, guerras e companhia, não por serem semelhantes a nós, mas por suas habilidades únicas e complementares às nossas. Ela ressalta a importância de aplicar essa lógica na tecnologia atual.
Para a especialista, o impacto das tecnologias no trabalho humano dependerá das escolhas feitas pela sociedade atualmente, o que pode ser preocupante. O foco excessivo em lucros imediatos resulta em investimentos em tecnologias que visam substituir pessoas, porém sem oferecer uma eficiência comparável.
Folha – Quanto à sua relação com robôs, houve alguma experiência específica que a impulsionou nesse caminho?
Kate Darling – Minha paixão pela robótica surgiu durante meus estudos em uma universidade de tecnologia em Zurique, onde tive contato com diversos cursos na área. A aquisição de um robô chamado Pleo, um brinquedo datado de 2007 que simula um bebê dinossauro, despertou meu interesse emocional. Observar como as pessoas o tratavam como se estivesse vivo, mesmo sabendo ser uma máquina, me motivou a investigar essa interação entre humanos e robôs.
Folha – Por que acredita que as pessoas se apegam tanto a esses robôs?
Kate Darling – A tendência à antropomorfização leva as pessoas a atribuírem características humanas a seres não humanos. Os robôs, por sua capacidade de movimento autônomo, levam nossos cérebros a interpretar intenções nesses movimentos. É interessante como muitos indivíduos tratam os robôs de forma subconsciente como seres vivos, mesmo cientes de sua natureza artificial, o que reflete um viés fascinante em nossa relação com a tecnologia.
Folha – Na área da robótica, houve alguma transformação significativa recente, comparável à evolução das redes neurais e do machine learning na IA?
Kate Darling – Até o momento, não identificamos uma transformação tão impactante na robótica. Acredito que avanços nesse campo ocorrerão de forma progressiva, com melhorias graduais em diversas áreas específicas, diferentemente do que vimos na inteligência artificial.
Após o lançamento do ChatGPT, ficou evidente uma explosão surpreendente, conforme a especialista Kate Darling observou. É interessante notar que essa evolução da inteligência artificial generativa pegou muitos de surpresa, inclusive os próprios desenvolvedores da tecnologia. A aplicação da IA generativa em robôs não se resume simplesmente a uma questão de implementação direta para capacitar essas máquinas. Existe a complexidade de fazer os robôs interagirem em ambientes físicos, algo para o qual ainda não dispomos de dados suficientes para treinamento adequado.
No cenário atual, são visíveis os investimentos e esforços direcionados para explorar como a IA generativa e os modelos de linguagem expandidos podem aprimorar a eficiência e inteligência dos robôs. Apesar disso, também há um grande foco em robôs humanoides, uma tendência que Kate Darling questiona e não compreende plenamente a razão por trás desse tipo de desenvolvimento.
Questionada sobre esse enfoque em robôs humanoides, Kate Darling expressa seu questionamento quanto a essa abordagem. Ela argumenta que, uma vez que a humanidade já existe, seria mais interessante buscar a criação de algo singular e diferenciado no campo da robótica. A especialista destaca a importância de explorar as capacidades dos robôs que vão além das habilidades humanas, como a forma como eles interagem com o ambiente e reconhecem padrões de maneira distinta.
A constante busca por humanoides robóticos reflete a tendência de compararmos as máquinas com os seres humanos, evidenciando um padrão no qual tendemos a nos fixar pelo que nos é familiar. Kate Darling aponta que essa comparação é um hábito que demanda esforço para ser superado, sendo essencial explorar novas perspectivas criativas e abrangentes no campo da robótica e inteligência artificial.
Para que os robôs alcancem uma integração efetiva em nossas casas e na rotina diária, será necessário que se tornem mais acessíveis economicamente e aprimorem significativamente seu desempenho. A alta expectativa do público, muitas vezes moldada por ideais de ficção científica e cultura pop, impõe desafios na construção de robôs que atendam a essas demandas e sejam robustos o suficiente para operar em ambientes domésticos sem falhas.
Diante desse desafio, o sucesso do Roomba, o aspirador robô da iRobot, destaca-se por executar uma tarefa simples e específica. Contudo, a complexidade aumenta quando se trata da exigência de robôs multifuncionais, capazes de lidar com diversas atividades domésticas de forma eficiente. Kate Darling estima que ainda estamos a alguns anos de distância de robôs capazes de desempenhar com excelência uma variedade de tarefas domésticas específicas. A criação de robôs versáteis, capazes de se adaptar a diversas demandas como um humano, ainda representa um desafio significativo para a atualidade.
Quando questionada sobre a proximidade entre a criação desses robôs multifuncionais e a possibilidade de alcançar a inteligência artificial geral (AGI), superior à inteligência humana em todas as áreas, Kate Darling destaca que já existem IAs capazes de superar em desempenho muitas tarefas humanas. No entanto, ela levanta a reflexão sobre se esse deve ser o objetivo final, sugerindo uma avaliação cuidadosa sobre os caminhos a serem seguidos no desenvolvimento da inteligência artificial.Investir nas áreas onde a Inteligência Artificial mostra excelência e seguir nessa direção é muito mais vantajoso. Acredito que ter dois tipos distintos de inteligência seria um caminho mais produtivo para o futuro.
Em relação à robótica, acredito que seu melhor uso é auxiliar as pessoas a desempenharem melhor suas funções ou realizar tarefas que os humanos não conseguem realizar eficientemente. Em vez de apenas tentar substituir trabalhadores na indústria, seria mais lucrativo pensar a longo prazo e adaptar os locais de trabalho para tirar proveito das habilidades dos robôs. Isso resultaria em um futuro melhor, evitando um deslocamento em massa da mão de obra humana, algo que poucas empresas e investidores consideram atualmente devido aos incentivos de curto prazo.
O livro “The New Breed” estabelece um paralelo entre nossa relação histórica com os animais e nosso futuro com os robôs. Essa conexão destaca que os robôs não necessariamente precisam ser comparados aos humanos, pois ao longo da história lidamos com diferentes agentes inteligentes com habilidades únicas. Os animais foram utilizados em diversas atividades não por serem semelhantes a nós, mas pela utilidade de suas habilidades. Enxergar os robôs e a IA como parceiros, não como substitutos, amplia nossas perspectivas.
A grande diferença entre animais e robôs é que os animais nem sempre estão ligados à obtenção de lucro e coleta de dados, ao contrário dos robôs. No entanto, há formas de lidar com essa questão por meio do design tecnológico, embora as empresas não tenham incentivos para isso. Acredito que será necessário mais regulamentação para proteger os consumidores e estabelecer os incentivos corretos nesse sentido.
Quando se trata de considerações éticas, existem diversas áreas a se pensar, desde sistemas de armas autônomas até desinformação gerada pela IA e questões médicas. Um ponto menos explorado é o potencial de manipulação emocional por meio de chatbots avançados e robôs que podem se tornar amigos das pessoas. Esse é um aspecto que merece mais atenção.
A evolução do trabalho diante dos avanços na robótica e IA não se resume apenas ao progresso tecnológico, mas às escolhas feitas em nossas economias e políticas. Colocar tecnologias automatizadas em uma economia desprotegida, focada em lucros imediatos e tratando as pessoas como commodities substituíveis, resultará na substituição de funcionários por tecnologia em busca de lucro rápido. Portanto, é essencial considerar aspectos éticos e de proteção ao trabalho ao implementar essas inovações.A implementação da tecnologia em uma economia com forte proteção ao trabalhador, permitindo um planejamento a longo prazo, poderia resultar em usos mais criativos da automação, de acordo com Kate Darling. Em contextos assim, acredita-se que haveria um maior valor a ser obtido ao longo do tempo.
Em relação às habilidades mais valorizadas no mercado de trabalho do futuro, a especialista destaca a importância do bom senso, discernimento, criatividade, capacidade de compreender o contexto de uma situação e lidar com o inesperado. Kate enfatiza que os humanos são naturalmente hábeis nessas áreas e ressalta a relevância de manter tais habilidades em destaque.
Questionada se acredita que as escolhas atuais estão corretas, Kate expressa preocupação com o foco excessivo em lucros imediatos, o que resulta em investimentos em tecnologias voltadas para substituir pessoas, mas que podem não desempenhar suas funções de forma eficaz.
Para a especialista, a abordagem correta seria reconhecer as competências humanas e as da inteligência artificial, buscando combiná-las em vez de priorizar a automatização e, posteriormente, reconsiderar a contratação de pessoas.
Kate critica o entusiasmo gerado no Vale do Silício em torno dos robôs humanoides e da AGI (Inteligência Artificial Geral). Ela considera a criação de robôs humanoides como um desafio muito complexo e superestimado, questionando o motivo desses investimentos. Para a pesquisadora, é mais sensato investir em mudanças estruturais no trabalho a longo prazo do que em humanoides para substituir funções já desempenhadas por humanos.
Apesar do crescente interesse de grandes empresas nessa tecnologia, Kate Darling expressa seu desapontamento e enfatiza a falta de inovação ao tentar replicar algo que já existe, ao invés de buscar alternativas criativas e diferentes no desenvolvimento de robôs.
Kate encerra a discussão sugerindo a possibilidade de explorar a criação de robôs de estimação como uma alternativa mais inovadora e interessante em comparação ao investimento contínuo em humanoides. Ela incentivaria a busca por novas ideias e abordagens no campo da robótica.
**RAIO-X | Kate Darling**
Especialista em robótica, Kate Darling é pesquisadora no Media Lab do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e líder em ética e sociedade no Boston Dynamics AI Institute. Autora do livro “The New Breed: What Our History with Animals Reveals about Our Future with Robots”, ainda não publicado no Brasil.

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