Confundido, alvejado, morto: mais um jovem negro é assassinado

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Em uma noite silenciosa no extremo sul de São Paulo, Guilherme Dias Santos Ferreira atravessava a rua apressado. Com uma bolsa nas costas, carregava apenas o que era essencial: uma marmita, um livro e um comprimido de paracetamol. Naquela sexta-feira, 4 de julho de 2025, ele não era uma ameaça; era um jovem de 26 anos que voltava para casa após um dia de trabalho. No entanto, um disparo brutal interrompeu sua vida: uma bala desferida pelo policial militar Fabio Anderson Pereira de Almeida cravou seu destino em uma tragédia sem sentido.

Guilherme sonhava em abrir seu próprio negócio e ajudava o irmão nas despesas da casa. Sem antecedentes criminais e sem armas, sua única “culpa” era estar no lugar errado na hora errada. O policial alegou confusão ao identificar Guilherme como um suspeito ligado a um assalto. Atirou sem abordagem, sem advertência, sem direito à dúvida. A única certeza era a perda de uma vida, uma vida que poderia ter sido preservada.

A autuação por homicídio culposo, onde não há intenção de matar, é uma ironia amarga. O PM pagou uma fiança de R$ 6.500 e, em poucas horas, estava livre. Enquanto isso, a cidade vira a página, habitualmente, como se a morte de Guilherme fosse apenas mais uma estatística. Mas não é. Essa é uma questão política e social grave.

Em São Paulo, uma falácia se perpetua: a ideia de que a luta contra o crime justifica a antecipação da culpa. A política de segurança pública, pautada pela eficiência imediata, acaba gerando mortes de inocentes. Esse modelo de vigilância, que opera em áreas como as periferias e comunidades majoritariamente negras, ignora a presunção de inocência. O resultado? Um Estado que permite que agentes atuem antes de questionar, priorizando a força em vez da justice.

O resultado é um Estado que autoriza agentes a matar primeiro e responder depois, quando e se responderem.

O destino de Guilherme revela uma engrenagem deformada: a desproporcionalidade da ação, a falta de preparo do policial, a apuração apressada e a estrondosa leniência com o erro. A morte é tratada como acidente, enquanto o direito à vida se transforma em mera formalidade. A Constituição Federal é clara ao afirmar que o direito à vida é inviolável, e homicídio doloso não deve ter fiança. No entanto, a reclassificação do disparo como “erro” altera o curso da justiça para proteger o agente, não a vítima. Isso mantém um pacto de impunidade com uma realidade seletiva.

Quando o Estado é a fonte da violência, a contradição se torna evidente. Como disse Giorgio Agamben, o soberano é quem decide sobre a exceção — e essa exceção tem raça, classe e endereço. Guilherme foi visto como uma ameaça pelo simples fato de existir em um corpo que o Estado associa à suspeita. O problemático papel do policial é apenas um reflexo de um sistema que falha em sua essência e que rapidamente libera aqueles que cometeram erros fatais.

Para conversarmos sobre segurança pública de maneira séria, é necessário romper com a lógica do medo. Precisamos de investimentos em inteligência, educação cidadã e uma presença social abrangente do Estado. Em uma democracia, não podemos aceitar que trabalhadores sejam mortos por engano, enquanto os responsáveis enfrentam apenas a rigidez burocrática. O caso de Guilherme não é isolado. É um padrão, um modelo, uma escolha política.

Com sua marmita, remédios e livro, Guilherme planejava celebrar dois anos de casado. Contudo, a cidade insiste em repetir sua história, manchada de tinta vermelha. Precisamos refletir e discutir essa violência. O que podemos fazer para mudar essa realidade?

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