Sob(re) a terra: doença fatal e pouco conhecida avança no Brasil

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Paracoccidioidose (PCM) é uma micose sistêmica grave provocada pelo fungo Paracoccidioides, que vive no solo. A doença costuma iniciar nos pulmões e, se não for controlada, pode contaminar gânglios, mucosas, cérebro, ossos e órgãos genitais, levando à incapacitação ou à morte. O Brasil tem a maior incidência mundial, com cerca de quatro casos por 100 mil habitantes ao ano e mortalidade de aproximadamente 1,5 por milhão, estimativas que podem subestimar a real dimensão por falta de vigilância.

Caso real e impactos na vida de pacientes. A história de Antônio Rodrigues Joaquim, 62 anos, ilustra o diagnóstico tardio que ainda predomina. Em 2020 ele emagreceu 30 quilos e passou anos com sintomas diversos. Somente no fim de 2024, uma biópsia revelou a PCM, após diagnósticos equivocados como doença de Addison, câncer de rim e câncer de próstata. As sequelas — incluindo insuficiência adrenal e danos renais — mostram o peso de atrasos diagnósticos e tratamento inadequado.

Fungos e espécies. O gênero Paracoccidioides tem várias cepas, sendo as principais Paracoccidioides brasiliensis e Paracoccidioides lutzii. Enquanto a primeira é mais associada à América do Sul, a lutzii foi identificada recentemente no Centro-Oeste e no Norte, explicando, em parte, diagnósticos falsos negativos quando os testes eram baseados apenas em cepas do Sudeste. A descoberta de P. lutzii, liderada pela pesquisadora Rosane Hahn, ampliou o entendimento de que a PCM resulta de um grupo de espécies com distribuição regional distinta.

Transmissão e risco ocupacional. A PCM ocorre pela inalação de esporos presentes no solo e na terra revolvida. Atividades que envolvem manejo de solo, agricultura, jardinagem e terraplenagem elevam o risco. A doença não é transmitida de pessoa para pessoa, nem de animais para humanos, embora fungos tenham sido encontrados em tocas de tatus. A incidência é maior entre homens, refletindo padrões ocupacionais e de exposição.

Geografia e situação de vigilância. Apesar de concentrar-se historicamente em estados como SP, PR, RS, GO e MT, a PCM se tornou mais dispersa: entre 2017 e 2025, 26 estados e o Distrito Federal registraram ao menos uma internação. A vigilância oficial é fragmentada, com a notificação como tema ainda não consolidado em todo o país, o que dificulta políticas públicas consistentes e o acesso a tratamento oportuno.

Diagnóstico e dificuldades. Hoje, apenas sete das 27 unidades da federação realizam testes específicos para PCM (MG, RJ, SP, PR, RO, MS e MT). A falta de rastreamento contribui para diagnóstico tardio e evolução para sequelas pulmonares graves, como fibrose, prejudicando a capacidade de trabalho dos pacientes. Em muitos casos, o diagnóstico é confirmado por exames de sangue, mas a cobertura ainda é desigual.

Iniciativas científicas e avanços diagnósticos. Em Cuiabá, o laboratório de referência ligado ao Hospital Universitário Júlio Müller e à UFMT tem feito avanços. Desde 2018, já foram realizados cerca de 1,7 mil sorologias, com 160 resultados positivos. A equipe liderada pela pesquisadora Rosane Hahn identificou a variedade genética entre cepas de Mato Grosso e de São Paulo, o que levou ao reconhecimento de P. lutzii e à busca por novos métodos diagnósticos integrados ao protocolo do Ministério da Saúde.

Rastreamento rural e prevenção. Projetos liderados por Rosane Hahn percorrem o interior de Mato Grosso testando agricultores; entre 2024 e 2025, 323 homens e 211 mulheres que trabalham com solo foram testados, com todos os resultados negativos. Além dos exames, são distribuídas cartilhas explicativas e EPIs — botas, luvas e, quando pertinente, máscaras — para reduzir a exposição ao fungo.

Impacto econômico e ambiental. O Sistema Único de Saúde gastou, entre 2017 e agosto de 2025, cerca de R$ 25,5 milhões com internações por PCM. Estados como São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Goiás aparecem entre os maiores gastos, refletindo a carga hospitalar da doença. Ambientalmente, a mudança no uso do solo, desmatamento e expansão da agropecuária coincidem com maior exposição ao fungo no solo, sugerindo relação entre alterações ambientais e o aumento das internações.

Conquistas e desafios futuros. A descoberta de P. lutzii e a construção de redes de diagnóstico regional mostram que a PCM não é apenas um problema de regiões específicas, mas uma questão nacional. Ainda assim, faltam padronização de tratamento, rede nacional de laboratórios e acesso contínuo a antifúngicos pelo SUS. A necessidade de tornar PCM uma notificação compulsória, aliada a ações de vigilância e educação permanente, surge como passo essencial para reduzir mortes e sequelas.

Conclusão. O que ocorreu com Antônio e com comunidades no interior de Mato Grosso revela uma realidade: sob o solo, o fungo continua ativo, e a proteção depende de vigilância, informação clara e acesso rápido a diagnóstico e tratamento. O desafio é estruturar políticas públicas que tornem a PCM uma doença reconhecida nacionalmente e tratável de forma igualitária por todo o país.

E você, já ouviu falar sobre PCM ou conhece alguém que tenha enfrentado sinais semelhantes? Compartilhe suas perguntas, histórias e opiniões nos comentários para enriquecer este debate sobre uma doença ainda pouco conhecida, mas com impacto real em vidas rurais e urbanas no Brasil.

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