No seu primeiro discurso oficial após liderar a ofensiva que derrubou Bashar al-Assad, Ahmed al-Sharaa afirmou a reunificação da Síria, destacando que o país, em 8 de dezembro de 2024, ainda estava devastado pela guerra civil. Ele ressaltou que a Síria pertence a todos os seus filhos, sem espaço para sectarismo.
“A Síria pertence a todos os seus filhos: muçulmanos e cristãos, sunitas, alauítas, drusos, curdos e árabes”, disse al-Sharaa na Mesquita dos Omíadas, em Damasco, a mesma que havia sido tomada pelos rebeldes do HTS horas antes, decretando o fim do antigo regime. “Esta revolução não veio para excluir ninguém, mas para libertar todos. Não haverá lugar para o sectarismo neste novo Estado.”
SÍria após a queda de Assad — dois anos após a ascensão de al-Sharaa, o governo central começou a ganhar força, buscando reunificação e maior inclusão de grupos anteriormente reprimidos. No entanto, a escalada de violência persiste entre forças governamentais e grupos étnicos, como alauítas e drusos, mesmo com avanços que já permitiram retomar o controle de várias áreas para o governo.
Neste ano, a violência se intensificou com as Forças Democráticas Sírias (SDF), o bloco curdo que dominava parte do nordeste há mais de uma década. Em um pacto assinado no último ano, as SDF concordaram em transferir a administração de tais territórios para a administração de al-Sharaa, mas a implementação não ocorreu plenamente, alimentando os conflitos recentes.
Um ano antes da queda de Assad, o território sírio estava dividido entre forças beligerantes. A maior parte do país ficava sob o governo Assad e aliados; o nordeste e o leste eram controlados pela SDF; o noroeste, pelo HTS; e pequenas porções contavam com a presença de forças estrangeiras e de remanescentes do ISIS.
Cerca de dois anos após a ascensão de al-Sharaa, surgiu a impressão de um governo central mais sólido em formação. Um dos últimos obstáculos foi o acordo com as SDF, cuja falha na implementação provocou uma nova onda de violência no país.
Conflitos com os curdos
Desde o início de janeiro, forças ligadas ao governo e as SDF entraram em confronto. Segundo o Ministério da Defesa da Síria, a escalada começou após combatentes curdos atacarem um posto de controle da polícia em Deir Hafer. A SDF controlava vastas regiões do nordeste desde a derrota do EI em 2019; o acordo para integrar civis e militares curdos às instituições sírias foi tentado, mas a retomada de territórios pelo governo levou Mazloum Abdi a aceitar termos desfavoráveis, incluindo a transferência de áreas para o novo Estado sírio. O pacto segue em negociação.
Paulo Cesar Rebello, analista de política internacional, alerta que essa perda não é apenas territorial, pois as áreas antes sob controle curdo possuíam reservas de petróleo e gás. Com a reunificação, o governo central pode ter acesso a setores estratégicos para a recuperação e a organização da Síria.
Apesar do histórico de cooperação entre EUA e SDF, o governo norte-americano voltou a apoiar os planos de al-Sharaa. Em um extenso comunicado divulgado na rede social X, o enviado especial de Donald Trump para a Síria afirmou que a parceria entre EUA e SDF baseava-se, principalmente, no combate ao ISIS. A cooperação mudou com a ascensão de al-Sharaa, já que o novo governo sírio se comprometeu a atuar ao lado da coalizão que ainda ataca pontos e instalações do EI no país, diferente do que ocorreu sob Assad, que lutou contra jihadistas com apoio da Rússia.
O temor do Estado Islâmico e o abandono dos EUA: prisões que abrigavam terroristas do Daesh, localizadas nos territórios sob domínio curdo, passaram para as mãos das novas autoridades de Damasco. Em meio à ofensiva, ambos os lados passaram a se acusar mutuamente de facilitar fugas de jihadistas. Enquanto os curdos afirmam que o EI recebeu ajuda do governo sírio, Washington decidiu transferir para prisões no Iraque até 7 mil jihadistas detidos na região, segundo o CENTCOM.
O quadro aponta para avanços na reunificação, mas também para um conjunto de tensões políticas, étnicas e de segurança que exigem cooperação contínua entre o governo central, as regiões sob influência das SDF e a comunidade internacional. E você, como enxerga o desfecho dessa trajetória de reunificação e de negociações que envolvem curdos, forças governamentais e potências estrangeiras? Compartilhe sua opinião nos comentários.


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