Contador da Conafer e o giro milionário que envolve fraudes do INSS
Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador ligado à Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares (Conafer) e alvo de investigações na Farra do INSS, registrou um crescimento patrimonial de cerca de 428% no período em que descontos indevidos passaram a ocorrer em aposentadorias e pensões. Segundo documentos encaminhados à CPMI do INSS, os dados mostram uma trajetória de ampliação de bens entre 2018 e 2024.
Em 2018, os bens declarados por Samuel somavam R$ 858 mil; em 2019, já estavam em R$ 1,5 milhão e, em 2024, atingiram aproximadamente R$ 4,5 milhões. Entre os itens adquiridos nesse intervalo, destacam-se um terreno avaliado em R$ 1 milhão no Gama (DF), um Mitsubishi Eclipse (R$ 210 mil), um Ford Mustang GT (R$ 380 mil) e uma Land Rover Defender 110 HSE (R$ 650 mil). Além disso, ele passou a ter outros cinco veículos, cinco imóveis e participações societárias em diversas empresas.
A movimentação financeira do contador chamou a atenção da investigação: ele mantinha dezenas de contas que acomodaram operações de alto valor, com repasses entre contas ocorrendo, em muitos casos, no mesmo dia. Em outubro de 2023, Samuel realizou 60 transferências no mesmo dia, após receber R$ 1,6 milhão da Conafer. O repasse foi realizado pela empresa Cifrão Tecnologia, um dos vários CNPJs vinculados ao contador, registrado em um sobrado no Recanto das Emas (DF). Em seguida, Samuel enviou R$ 300 mil via Pix para a BSF Gestão de Saúde, empresa ligada a contratos suspeitos com o Ministério da Saúde.
Outros repasses incluíram R$ 150 mil para a JSM Serviços, R$ 100 mil para a N & C Distribuidora de Agropecuários e R$ 22 mil para Lucineide dos Santos Oliveira — sócia da AAB. Samuel também transferiu R$ 525 mil para a Solution BRB Nova, outra empresa ligada a ele.
As demais transferências, realizadas por meio de boletos e Transferência Eletrônica Disponível (TED), somaram R$ 486.173,93. O relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) aponta que a Cifrão Tecnologia, registrada como microempresa de desenvolvimento de programas de computador, declarava faturamento de apenas R$ 11.240,86, mas movimentou R$ 1.625.759,14 acima de sua capacidade financeira declarada em um único mês.
Samuel foi preso em 13 de novembro, no âmbito da Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal (PF) e pela CGU, que investiga o esquema de descontos ilegais em benefícios previdenciários.
Empresa e igreja no mesmo endereço
A Associação dos Aposentados do Brasil (AAB), outra organização investigada pela CGU, tem como sócios dois fundadores de igrejas evangélicas em Brasília. Uma delas é a Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus, fundada por Lucineide dos Santos Oliveira, sócia da AAB, erguida no Recanto das Emas, a cerca de 32 km da capital federal.
A reportagem do Metro?poles esteve no local e encontrou apenas a instituição religiosa, edificada em meio a um centro catequético e a um terreno baldio. Samuel indicou, na Receita Federal, o mesmo endereço para a empresa Solution, associada a ele, cuja atividade é descrita como “serviço de papelaria, encadernação, locação de automóveis sem condutor, organização de feiras, congressos e festas”.

Outros 10 CNPJs vinculados a Lucineide e Samuel, e a um terceiro ligado ao presidente da Conafer, teriam funcionamento no mesmo endereço. A apuração indica que as lojas ficam na parte superior de um sobrado no Recanto das Emas. Embora as empresas tenham apresentado endereços distintos, a fachada revela apenas uma loja de tapioca, próxima aos espaços que, segundo a investigação, abrigariam as organizações. Além disso, muitas empresas utilizariam o mesmo contato de e-mail e telefone.

Conheça as empresas e onde estão localizadas: entre os registros, aparecem endereços compartilhados e atividades que vão de varejo a aluguel de automóveis e apoio à agricultura. A reportagem também identificou um segundo CNPJ ligado a Lucineide no Recanto das Emas, cuja atividade envolve uma tapiocaria, indicando a presença de várias operações no mesmo espaço.
Além de compartilhar endereço, as empresas costumam manter contatos corporativos em comum, o que reforça as ligações entre as pessoas envolvidas no esquema.
Convocado a depor
Durante a CPMI, Cícero Marcelino de Souza Santos, empresário ligado à Conafer, disse ter lucrado “uns trocos” com o dinheiro que deveria ser destinado aos aposentados e pensionistas. Afirmou ainda ter aberto empresas para prestar serviços a pedido do presidente da Conafer. Em depoimento, Cícero disse receber planilhas de pagamentos para entidades da Conafer e repassá-las, negando, contudo, conhecer Samuel, apesar de supostamente conduzir empresas no mesmo local.
As empresas de Cícero foram apontadas como empreendimentos laranja. “A única coisa que vejo nesta CPMI é que as pessoas que os sindicatos ajudam são os dirigentes e seus familiares, as empresas dos dirigentes, ou os laranjas e familiares dos laranjas. E você é um laranja, suas empresas são empresas laranja”, afirmou a deputada Adriana Ventura (Novo-SP).
Operação e desdobramentos
Em novembro de 2025, PF e CGU deflagraram nova fase da Operação Sem Desconto, que mira um esquema nacional de descontos indevidos em aposentadorias e pensões. A ação mobilizou equipes em 17 estados e no Distrito Federal, com 63 mandados de busca e apreensão, 10 de prisão preventiva e outras medidas cautelares. Entre os presos estão Alessandro Stefanutto (ex-presidente do INSS), Antônio Carlos Antunes Camilo (“Careca do INSS”), Vinícius Ramos da Cruz (presidente do Instituto Terra e Trabalho), Tiago Abraão Ferreira Lopes (diretor da Conafer e irmão do presidente da entidade), Cicero Marcelino de Souza Santos e Samuel Chrisostomo do Bomfim Júnior.
Segundo as investigações, o grupo inseria dados falsos em sistemas oficiais para incluir beneficiários em entidades fictícias, permitindo descontos mensais indevidos nos pagamentos de aposentados e pensionistas, muitas vezes sem seu conhecimento. A apuração considera a existência de organização criminosa voltada à obtenção de vantagens financeiras por meio de estelionato previdenciário, além de ocultação de patrimônio para dificultar rastreamento dos valores desviados.
O outro lado
O Metrópoles tentou contatar as pessoas citadas por meio de e-mail e telefone, mas não obteve retorno até a última atualização. O espaço permanece aberto para manifestações futuras.
Todos esses elementos reforçam a leitura de um esquema bem estruturado, com ramificações em várias frentes — de igrejas a empresas de fachada — que, segundo as autoridades, visava desviar recursos públicos de aposentados e pensionistas.
A reportagem tentou confirmar informações com os envolvidos, mas não obteve retorno, mantendo a apuração em curso. O caso continua sob análise das autoridades, com novas etapas da investigação previstas para apurar a cadeia de empresas, endereços e operações envolvidas.
Como o esquema funciona, segundo a investigação, envolve inserir dados falsos em sistemas oficiais para incluir beneficiários em entidades, facilitar descontos indevidos nos pagamentos de aposentados e pensionistas e ocultar patrimônio para dificultar o rastreamento de recursos desviados. O grupo é visto como organização criminosa dedicada ao estelionato previdenciário, com sinais de corrupção ativa e passiva.
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