A Câmara Municipal de São Paulo deu um passo importante ao aprovar, na Comissão de Justiça, o projeto de lei que propõe trocar o nome da Rua Peixoto Gomide pela Rua Sophia Gomide. A iniciativa, de autoria da Bancada Feminista do PSol e coautoria de Luna Zarattini (PT), está sujeita à votação no plenário. O debate envolve memória urbana, violência contra mulheres e as regras que orientam homenagens no espaço público, ampliando a conversa sobre quem ganha espaço na cidade.
A rua em questão atravessa os bairros Bela Vista e Jardim Paulista, no coração da cidade, e hoje é associada ao ex-senador Peixoto Gomide, que assassinou a própria filha, Sophia, em 1906 por não aceitar o casamento dela. O crime chocou a sociedade da época, e o pai cometeu suicídio logo depois. A mudança de nome, segundo a proposta, busca reparar uma lacuna histórica ao reconhecer a memória de Sophia Gomide, vítima de violência e de invisibilidade pública na época.
A discussão transcende um caso isolado e se ancora na pesquisa histórica da historiadora Maíra Rosin, vinculada à Unifesp, que integra o grupo Cidade, Arquitetura e Preservação em Perspectiva Histórica. A análise de Rosin, desenvolvida no âmbito do projeto Quando Elas Passam: o Plano de Avenidas e os Embates Político-Culturais com as Mulheres em São Paulo (1938-1945), investiga como políticas urbanas e discursos de modernidade moldaram a presença feminina na cidade. A autora também chamou atenção para o texto Vias Sujas de Sangue, que reconstitui a trajetória de Sophia Gomide e revela que, em 1914, a Câmara Municipal prestou homenagem ao pai sem mencionar o assassinato da filha.
Essa leitura coloca a questão de como a memória urbana pode ser revisitada a partir de decisões administrativas e simbólicas. A mudança de nome proposta não é apenas uma pauta de nomenclatura; é uma oportunidade de trazer à tona as relações entre mulheres, circulação urbana e a história marginalizada de atos de violência. A discussão evidencia que, ao nomear espaços, a cidade escolhe versões do passado que permanecem vivas ou ausentes na memória coletiva.
Além do caso de Peixoto Gomide, o debate ganhou fôlego com a apresentação de outros projetos que buscam renomear ruas ligadas a figuras associadas à violência contra mulheres. Dois novos Projetos de Lei (PLs) foram protocolados para alterar nomes de vias: Moacir Piza, no Jardim Paulista, com base na pesquisa de Rosin, e Alberto Dias, fundamentado na dissertação de Fabrizio Franco defendida na Unifesp em 2024 sob orientação de José Carlos Vilardaga. A discussão amplifica a reflexão sobre critérios para homenagens públicas e a necessidade de transparência na escolha de nomes que compõem o cotidiano da cidade.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), já sinalizou que sancionará a mudança caso o projeto seja aprovado pelo plenário. Em declaração recente, o chefe do Executivo ressaltou que “homenagear alguém que matou uma pessoa já não é correto, ainda mais uma filha”, e afirmou que atuará conforme a legalidade. A posição do prefeito adiciona peso institucional ao debate, que segue dependendo de novas votações na Câmara.
O avanço do projeto de mudança de nome, o histórico em torno da família Gomide e a conjuntura de pesquisas acadêmicas sobre mulheres, cidades e circulação urbana destacam como a memória pública pode ser revista a partir de evidências históricas e de narrativas que há décadas ficavam à margem. O tema, ainda em tramitação, abre espaço para um debate mais amplo sobre como a cidade escolhe, preserva e transforma seus símbolos ao longo do tempo. Convido você a refletir: qual memória de São Paulo você acha justa para figurar nas placas das vias centrais? Compartilhe sua opinião nos comentários e participe da conversa sobre memória urbana e justiça histórica na nossa cidade.

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