Céu fica vermelho na Austrália: entenda o fenômeno

Publicado:

compartilhe esse conteúdo

Um vídeo que circulou nas redes sociais nesta semana mostrou uma cena digna de filmes distópicos: o céu azul e ensolarado sendo gradualmente engolido por um tom carmesim intenso, como se o planeta tivesse mudado de cor. Moradores que testemunharam o fenômeno descreveram a experiência como “de outro mundo”, com alguns chegando a comparar a paisagem a cenários apocalípticos.

A imagem impressionante, registrada em alguma região da Austrália, não é fruto de efeitos especiais. Trata-se de um fenômeno meteorológico real, desencadeado por uma tempestade de poeira de rara intensidade, alimentada pelos fortes ventos do ciclone Narelle.

NO, that’s not a filter! ☁️🔴 The sky turned an eerie shade of red in Western Australia as dust filled the air ahead of Tropical Cyclone Narelle. pic.twitter.com/dCQ2hjFluI

— AccuWeather (@accuweather) March 28, 2026

A física do céu vermelho

De acordo com o The New York Times, a explicação para a transformação está na física da luz. A luz solar é composta por diferentes comprimentos de onda, cada um correspondente a uma cor. Em condições normais, os comprimentos de onda mais curtos — como o azul — se dispersam com mais eficiência na atmosfera, razão pela qual vemos o céu azul durante o dia.

Quando partículas maiores, como poeira, ficam suspensas no ar, o comportamento muda. Essas partículas dispersam os comprimentos de onda mais curtos, permitindo que outros, como o vermelho e o laranja, se tornem predominantes. Quanto mais densa a poeira, mais intenso o tom avermelhado.

No caso registrado, a poeira não era qualquer poeira. Os solos da Austrália Ocidental são ricos em óxido de ferro — o mesmo composto que dá a cor avermelhada ao deserto australiano e ao planeta Marte. Quando os ventos do ciclone Narelle levantaram enormes quantidades desse material, a poeira carregada de ferro intensificou ainda mais a coloração, criando o tom carmesim vívido que chocou quem o viu.

A Austrália não é estranha a tempestades de poeira. Regiões áridas e semiáridas do país experimentam esses fenômenos com certa frequência, e é comum que o céu adquira tons alaranjados ou avermelhados durante esses eventos. No entanto, a intensidade e a extensão da coloração registrada agora são consideradas excepcionais, mesmo para os padrões australianos.

Leia mais:

  • 10 sites e apps para conferir a previsão do tempo e condições climáticas
  • Como as mudanças climáticas têm intensificado tempestades?
  • Emirados Árabes querem “criar chuva” com sistema de IA; entenda

O fator determinante foi a combinação de um ciclone de grande porte com solos ricos em ferro em uma região onde a vegetação não retém o solo. Os ventos fortes do Narelle levantaram uma quantidade de poeira muito acima do normal, e a composição ferrosa do solo fez o resto, filtrando a luz de forma a deixar apenas o vermelho visível.

Não é perigoso, mas é raro

Apesar do visual assustador, o fenômeno não representa risco direto à saúde, além dos cuidados usuais em tempestades de poeira — como proteção para vias respiratórias. A poeira em si não é tóxica, e o evento, embora extremo, faz parte da dinâmica natural da região.

O que torna o caso notável é sua raridade. A transformação completa da cor do céu diurno para um vermelho-sangue tão intenso é um evento que os meteorologistas locais classificam como “uma vez na vida” para quem o presencia. O vídeo que viralizou serviu não apenas como registro visual, mas como um lembrete da força dos fenômenos naturais — e de como a física pode transformar o familiar em algo que parece saído de outro mundo.

Lucas Soares

Lucas Soares

Lucas Soares é editor de Ciência e Espaço no Olhar Digital e formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Foi repórter da RedeTV!, onde cobriu política, saúde e as eleições de 2018

Ver todos os artigos →

Comentários do Facebook

Compartilhe esse artigo:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Por que os pneus de avião não estouram ao pousar?

Os pneus de avião chamam atenção pela resistência impressionante durante pousos em alta velocidade. No entanto, muita gente se pergunta como eles suportam tanto...

Epicteto, filósofo estoico: “Não podemos controlar o vento, mas podemos ajustar as velas.”

Em meio às turbulências da vida, muitas vezes nos sentimos impotentes diante das circunstâncias. Contudo, a sabedoria estoica nos mostra que, embora não possamos...

Mais de 200 mil simulações tentam explicar como Vênus se tornou infernal

Vênus tem sido cada vez mais estudado como referência para entender mundos rochosos que orbitam outras estrelas. Missões como o Telescópio Espacial James Webb...