A administração do prefeito de Sorocaba (SP), Rodrigo Manga (Republicanos), foi denunciada ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) por ter, supostamente, pedido a abertura de um buraco em uma rua da cidade, a fim de gravar um vídeo no local para publicação em redes sociais. O vídeo viral já teve mais de seis milhões de visualizações e 300 mil curtidas no Instagram.
A notícia-crime foi enviada ao MPSP pelo vereador Raul Marcelo (PSol), de Sorocaba, a partir de denúncias feitas pelos próprios funcionários do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) do município.
Uma fonte da autarquia, sob anonimato, confirmou as denúncias ao Metrópoles. Segundo os relatos feitos à reportagem, no dia 9 de abril foram deslocados pelo menos 10 funcionários do Saae e de uma empresa terceirizada para a “fabricação” do buraco, localizado na esquina das ruas Diadema e Paranapanema, no bairro Jardim Leocádia.
A ação envolveu equipes de manutenção de água, esgoto e drenagem, além de sinalização (inserção e retirada), aterro e limpeza. Além disso, ainda segundo a fonte, teriam sido acionados uma retroescavadeira e um caminhão pipa, supostamente para encher o buraco, exibido no vídeo de Manga, com água.
Veja o vídeo no Instagram:
Chamado para boca de lobo entupida
Segundo o registro de atendimento, a solicitação que justificaria a abertura do buraco seria relacionada a uma boca de lobo entupida na rua.
No entanto, o próprio vídeo divulgado por Manga mostra que nenhuma boca de lobo foi aberta — inclusive, a tampa do poço de vistoria (estrutura subterrânea que permite o acesso técnico às redes de esgoto e drenagem das chuvas) sequer foi movimentada.

“Eles colocaram 10 mas chega a ser mais de 20 pessoas no total de servidores mobilizados. Todos os veículos do Saae, como são alocados, têm GPS. Não tem como não demonstrar a quantidade de veículos que estavam parados no local, o custo financeiro que se teve de tudo isso”, afirmou a fonte ouvida pelo Metrópoles.
A reportagem também teve acesso a todos os documentos internos envolvidos na operação. O material traz as ordens de serviço que, segundo os funcionários responsáveis pela denúncia, teriam sido criadas a fim de justificar e legitimar a mobilização.
Foto contradiz ordens de serviço
As outras ordens de serviço emitidas para justificar a mobilização de funcionários e maquinário ao local foram sobre afundamento, vazamento de água e esgoto.
Uma foto tirada do local momentos antes do início das operações, entretanto, mostra que, à primeira vista, nenhum dos motivadores se confirma — não é possível observar nenhuma das três situações.
Além disso, a ordem relativa ao vazamento de água traz a anotação de que “não é vazamento da parte do Saae”. Veja:
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Imagem mostra rua antes da intervenção do Saae; alegação era de vazamento de água e esgoto e afundamento de solo
Reprodução

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Documento interno traz anotação de que “não é vazamento da parte do Saae”
Reprodução

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Materiais internos do Saae mostram foto sem o buraco
Reprodução
“Antes e depois” iguais, e em outro lugar
Outra parte do material fornecido à reportagem chama atenção. Em parte dos documentos, aparecem duas fotos que deveriam indicar a situação do local antes e depois da operação. As duas imagens, porém, são idênticas, e sequer foram fotografadas no local dos serviços.
Ainda de acordo com a fonte ouvida pelo Metrópoles, as fotos foram tiradas em outro local, na mesma rua, a alguns metros de onde o buraco se encontrava (a fachada do estabelecimento foi preservada).

O que diz a Prefeitura de Sorocaba
Questionada, a Prefeitura de Sorocaba afirmou que “a intervenção ocorreu a partir de solicitação de serviço devidamente registrada pela autarquia”, e que “todas as ordens seguem fluxo interno de controle”.
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Em nota enviada ao Metrópoles, a Prefeitura de Sorocaba afirmou que todas as ordens seguiram o fluxo interno de controle, e que as demandas e intervenções são rastreáveis. Leia na íntegra:
“A vala foi aberta por equipe do Saae/Sorocaba, para obra de manutenção em rede de esgoto. Houve troca de abraçadeira danificada e o trabalho foi concluído no mesmo dia, seguido da recomposição do pavimento da via, conforme protocolos operacionais.
A intervenção ocorreu a partir de solicitação de serviço devidamente registrada pela autarquia. Todas essas ordens seguem fluxo interno de controle, garantindo rastreabilidade das demandas e das intervenções realizadas.”

