Mola gestacional pode evoluir para câncer de placenta: relato de Daiana Nascimento e o papel do tratamento no RJ
Daiana Nascimento, terapeuta ocupacional de São Pedro da Aldeia, viveu uma experiência que começou com uma gravidez esperada e terminou como um diagnóstico grave. Em 2018, após confirmação da gestação, a estudante recebeu a notícia de que estava lidando com uma mola gestacional, um quadro que evoluiu para câncer de placenta. O tratamento, realizado em ritmo intenso, ocorreu na Maternidade Escola da UFRJ, no Rio de Janeiro, com acompanhamento médico e apoio familiar ao longo de 2018 e 2019.
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Crédito: Tânia Rego/Agência Brasil
A mola gestacional é uma condição em que ocorrem alterações da placenta, podendo ser classificada como incompleta ou completa. Na mola incompleta, pode haver embrião com anomalias genéticas, enquanto na mola completa há placenta anormal sem embrião. Em ambos os cenários, a gravidez costuma ser interrompida para evitar riscos à mãe, como sangramentos e alterações hormonais. O problema pode evoluir para câncer de placenta, especialmente nas molas completas.
O câncer de placenta ocorre quando células da mola se espalham pelo útero; em mola parcial, o risco é inferior a 5%, mas nas mola completas esse índice pode chegar a cerca de 20%. Em casos mais graves, há possibilidade de metástases, com frequência ao pulmão. O obstetra Antônio Braga, da UFRJ, explica o cenário e coordenou o Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional, um dos maiores centros do mundo nessa área, ligado à Maternidade Escola da instituição.
Segundo Braga, a prevalência varia entre países: no Brasil, estima-se que uma em cada 200 a 400 gestantes seja afetada pela doença. Nos Estados Unidos, a taxa fica em torno de uma em cada mil, e na Inglaterra, em cerca de uma em duas mil, com hipóteses sobre fatores genéticos, imunológicos e nutricionais ainda em estudo.
No Ambulatório da Maternidade Escola/HU Brasil, o atendimento ocorre de forma regular, com cerca de 80 pacientes com mola atendidas por semana. Embora haja pacientes de diversas regiões, aproximadamente 30% contam com planos de saúde, mantendo o tratamento na rede pública. Conforme Braga, o acompanhamento em centro de referência reduz drasticamente o risco de mortalidade.
A retirada da mola por aspiração uterina é apenas o começo de um acompanhamento criterioso: após a cirurgia, o material é analisado para confirmar se a mola é parcial ou completa, e a paciente segue com consultas periódicas e monitoramento do hormônio HCG, produzido pela gravidez. O marcador é fundamental para detectar eventual persistência da doença.
Quando a gravidez é interrompida, o objetivo é que o HCG normalize. Se não houver queda, pode significar que células da mola migraram para o útero, levando ao câncer, tratável principalmente com quimioterapia. Ainda assim, grande parte das pacientes adequadamente tratadas se cura e pode engravidar novamente, com pré-natal realizado no próprio ambulatório.
Acolhimento e apoio fazem parte do cuidado no hospital, com assistência social, psicológica e atividades de apoio como musicoterapia. A médica Gabriela Paiva destaca que o acompanhamento começa pela compreensão de que a gestação traz expectativas, mas que a paciente não está sozinha.
Daiana, agora curada, e o marido, Lucas Felipe, descrevem o impacto na vida familiar. O casal relembra que a jornada exigiu deslocamentos frequentes de São Pedro da Aldeia até o Rio e que, recentemente, Daiana recebeu gratuidade no transporte intermunicipal, facilitando o retorno às consultas. O casal também reforça a importância do apoio da família e da rede de acolhimento para enfrentar o tratamento prolongado e o diagnóstico de câncer.
A história de Daiana é expandida por relatos de outras pacientes atendidas no mesmo serviço, como Mônica Rosa do Amaral Pelizari, que também enfrentou mola gestacional e câncer de placenta aos 45 anos. Ela afirma ter recebido tratamento de maneira relativamente “leve” graças ao suporte familiar e profissional, mantendo-se conectada com a clínica para o acompanhamento emocional e de saúde.
O cuidado não se encerra com a cura: o hospital reforça a importância do acolhimento contínuo, com acompanhamento médico anual, apoio social e psicológico e, quando necessário, intervenções de suporte, como a musicoterapia. O objetivo é que cada mulher tenha condições de reconstruir a vida após a doença, com informações claras e apoio constante dos profissionais e da família.
