Resumo: Escudo das Américas, coalizão liderada pelos EUA, reúne 15 países da região. Críticos veem o movimento como pretexto para interferência e para frear a influência da China. A proposta deve seguir para a OEA; 24 grupos narcotraficantes são designados como terroristas, incluindo PCC e CV. Brasil acompanha com cautela, sem convite.
Nova York — Na margem da 81ª Assembleia Geral da ONU, a coalizão Escudo das Américas, liderada pelos EUA e integrada por 15 países da região, divulgou documento que pretende levar a proposta à OEA, segundo avaliação de especialistas consultados pela Agência Brasil, parceira do PrimeiroJornal. O objetivo é ampliar a cooperação regional no combate ao narcotráfico, em meio a críticas de interferência externa e disputa com a China.
No texto divulgado, as nações concordam em classificar como “terroristas” 24 grupos narcotraficantes, entre eles PCC e CV, em um movimento que, segundo analistas, busca justificar ingerência externa.
“O Escudo das Américas é uma retomada desse processo de tentativa de anexação colonial ou imperial dos países latino?americanos em relação aos EUA dentro de uma lógica geopolítica de disputa comercial e tecnológica com a China”, disse o professor Danilo Enrico Martuscelli, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
Nesta semana, à margem da ONU, os 15 países divulgaram o documento com a intenção de levar a proposta para a OEA.
Danilo Enrico Martuscelli classifica a política do segundo mandato de Donald Trump como “de agressão imperial aberta” e, ao questionar a política de combate aos cartéis da Casa Branca, lembra que o próprio Trump deu indulto ao ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por facilitar a importação de toneladas de cocaína para os EUA.
“Uma pessoa que está comprometida a combater o narcotráfico vai dar indulto e liberar um narcotraficante? Eles querem combater o narcotráfico, mas no quintal dos outros. Internamente, o que eles fazem para controlar o crime organizado?”
Criado em março deste ano, o Escudo das Américas é formado atualmente por EUA, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.
Ingerência na América Latina
O professor de relações internacionais do IDP, Robson Valdez, ponderou que o foco principal do Escudo é a possibilidade de utilizar o narcotráfico para legitimar ingerências na América Latina.
“E, indiretamente, isso sinaliza para a China que a manutenção das suas relações com os países da região teria de ser revista e sob a perspectiva da política externa norte?americana”, comentou.
Para Valdez, a coalizão visa “principalmente, [legitimar] a presença física de tropas americanas na região a pretexto de combater o crime organizado”.
Brasil
Sem ter sido convocado para participar da iniciativa, o governo brasileiro encara o Escudo das Américas com cautela, ao mesmo tempo em que mantém as medidas de cooperação internacional no combate ao crime.
Resumo da matéria
Escudo das Américas é apresentado em Nova York para combater o narcotráfico e pressionar aliados externos.
A coalizão propõe ação conjunta contra organizações narcoterroristas via OEA, com base no TIAR, além de incluir medidas de cooperação econômica e proteção de minerais críticos.
Brasil, México, Uruguai e Canadá são citados como não aderentes; o governo brasileiro deve decidir se apoia ou rejeita a proposta após sua apresentação.
Nova York — No documento divulgado pela Coalizão Escudo das Américas, liderada pelos EUA, a iniciativa mescla o combate ao narcotráfico com diretrizes de cooperação econômica entre os países, incluindo a proteção das cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes diversificadas e confiáveis.
No âmbito da estratégia, o texto defende que a OEA seja convocada para considerar a adoção de uma resolução que promova a atuação coletiva contra organizações narcoterroristas, nos termos do TIAR.
O TIAR, assinado em 1947, estabelece que “a agressão a um Estado americano constitui uma agressão a todos os demais Estados americanos”.
O professor Danilo Martuscelli pondera que levar o tema à OEA tem o objetivo de conferir legitimidade institucional a essa política de pressão, apontada como imperial pela leitura de alguns analistas.
O governo brasileiro espera a apresentação da proposta da Escudo das Américas à OEA para decidir se apoiará ou rejeitará eventual resolução do organismo internacional sobre o tema.
No eixo Drogas e economia, o documento mistura o combate às drogas com medidas de cooperação econômica, incluindo a proteção das cadeias de suprimento de minerais críticos, insumos centrais na indústria tecnológica, defesa e transição energética — áreas centrais na disputa entre Washington e Pequim.
O professor de relações internacionais Robson Valdez acrescenta que o Escudo das Américas pode ser usado para impor a venda de equipamentos militares dos EUA, “o que tira dos países a autonomia de escolher os seus parceiros para compras de armamento”.

