A ideia de Terceira Via atendia a quem crê num ???Estado do tamanho certo??? (vaidoso do discurso socioambiental, apesar de acanhado na regulação dos negócios).
Ganhou fama mundial com Bill Clinton e Tony Blair. Prometia civilizar o ultraliberalismo de Reagan e Thatcher, e dar limite ao atraente Wellfare State do Norte europeu.
Nesse caso, o que não falta no Brasil é Terceira Via. Várias siglas se encaixam (mais ou menos) na definição: PSDB, PT, PDT, Rede, PSB, PV, Cidadania e até um pedacinho do MDB.
Assim, ao contrário do que o noticiário da Ilha da Vera Cruz insiste em sugerir, a Terceira Via não representa apenas uma alternativa à polarização entre Lula e Bolsonaro.
Ou seja, quando se busca uma Terceira Via para 2022, estão dizendo que não se achou uma cara nova no BBB eleitoral que anime o espectador entediado com o bate-boca de lulistas e antipetistas.
Acontece que o Lula, Ciro Gomes, Simone Tebet, Eduardo Leite, Huck e Luiza Trajano já se ofereceram como pré-candidatos da salada que se enquadrada como Terceira Via.
Por outro lado, lembrando que a Primeira Via é composta pela direita, também há abundância dessa opção. Seja no Centrão, seja entre os mais conservadores, a Primeira Via conta com as pré-candidaturas de Bolsonaro, Moro, Dória, Mandetta e outros.
O que falta, então, nas próximas eleições é um candidato da Segunda Via (ou esquerda democrática). Para alívio da Avenida Faria Lima, não há candidatos que representem o socialismo democrático ou o Estado de bem-estar social.
Talvez restem hóspedes de esquerda na base aliada do Lula. Mas, não há nenhum nome de esquerda independente que faça a diferença sequer no primeiro turno deste ano.
Nas primeiras eleições após a redemocratização, chegou-se a ter candidatos da Segunda Via, como Brizola e até o próprio Lula. Ali ainda havia influência relevante das demandas populares organizadas.
Seus programas eram influenciados pelas organizações rurais, a igreja progressista, sindicatos, estudantes, as ongs, entidades de bairro e de classe, empreendedores informais, academia e outros. Podia-se ver o reflexo dessa vitalidade nas ruas, ou em eventos como o Fórum Social Mundial de então.
O grande prejuízo da ausência de uma proposta da esquerda resulta na mediocrização do debate político geral, na medida em que a direita e o centro, com isso, se achem livres da necessidade de se contrapor, com projetos de país consistentes.
Sem contraditório político, a Primeira e a Terceira Via contentam-se em adotar o populismo bizarro como linguagem. A discussão, sem contexto, fica reduzida a costumes e preconceitos, depositando a esperança ou a insatisfação na figura do candidato.
A desigualdade social e o desenvolvimento sustentável ficam fora da conversa. Distraídos com o circo, corremos o risco de continuar deixando passar boiadas e seguir o baile. Seja qual for o vencedor, quem perde é o eleitor.
Felipe Sampaio, membro fundador do Centro Soberania e Clima; ex-assessor especial do ministro da Defesa (2016-2018); foi secretário executivo de Segurança Urbana do Recife.
O post Eleições sem Segunda Via (por Felipe Sampaio) apareceu primeiro em Metrópoles.
