Ana Marcela é a verdadeira campeoníssima

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Quisera o baiano ter um tantinho assim de cultura esportiva e noção básica das virtudes primordiais (justiça, conhecimento, coragem e moderação): estaria torcendo apaixonadamente por Ana Marcela Cunha, uma verdadeira heroína.

Os festejos ao Dois de Julho poderiam incluir a campeã, junto a Maria Felipa, Joana Angélica e Maria Quitéria, dando continuidade à presença das mulheres, considerando o esporte uma arma do combate incessante pela independência.

E tudo começou com uma maluquice. Sim, ai de nós se não fossem os doidos, dos quais Ariano Suassuna era fã! Já pensou, se jornalismo fosse quadradinho, com um manual de funcionamento tipo uma enceradeira ou um grill?

Não fosse a disposição para desobedecer e talvez a nossa campeã jamais teria chegado tão longe, e eu vou dizer agora por que são tão importantes a crítica e a rebeldia neste nosso ofício.

Corria o ano de 2003, finalzinho de agosto e o diretor da redação do jornal onde trabalhava, Ricardo Noblat, quem me confiou a tarefa de reinventar a cobertura esportiva e armar uma equipe de um novo suplemento, me chamou e decretou:

– Paulo Leandro, crie uma pauta maluca com mulheres desconhecidas. Isso mesmo que você ouviu!

Tínhamos reuniões semanais com direito a voz e voto para todas e todos, às quais batizei ???ágoras???: desde este tempo já era fãzão de filosofia antiga, agradeço hoje a professora Gislene Vale a felicidade de lermos o Mênon de 15 em 15 dias.

Deixamos de lado os critérios de noticiabilidade a fim de encontrar três mulheres invisíveis para os cânones do jornalismo; iniciantes, mas cheias de vontade de vencer.

A missão foi confiada ao grande repórter José Raimundo Silveira, a quem envio um forte abraço, e como sempre, o hoje capitão do Exército trouxe uma ótima história de uma adolescente talentosa e invejada pelos nadadores homens.

Misoginia danada! Ana Marcela, mesmo meninota, ganhava todas as competições mistas, marmanjo não tinha vez, mas ela não levava os prêmios porque pelo regulamento só os machos podiam se dar bem.

Tamanha desonestidade de gênero poderia ter abreviado a carreira da principal atleta baiana da atualidade, mas o jornal incentivou a garota a não desistir. Sorte do editor, Ana Marcela saiu na capa do caderno. Imprensa melhora o mundo!

Outro aspecto desta história é o fato de a Bahia não dispor de piscinas, naquele tempo ainda tinha a da Sudesb; a do Yacht não podia porque tinha um metro a menos em relação ao regulamento oficial.

Restou a alternativa do marzão de Mãe Iemanjá (Odò Iyá), protetora da nossa campeã olímpica, mundial e interplanetária, ao inscrever-se em disputas de maratonas aquáticas.

Tem mais: mesmo com tanto talento, hoje reconhecido mundialmente, ela não encontrou apoio aqui na nossa ???Boa??? Terra e foi acolhida por uma instituição paulista, esqueço o nome agora.

Além da nossa ignorância (condição para o conhecimento) em relação aos esportes, exceto fútilball, gude, picula e arraia, nossa sociedade misógina e LGBTQIA+fóbica não curte mulher namorando mulher, como Ana Marcela.

Fiquem aí, dando dinheiro a empresário de jogador medíocre, e sigam gozando uns da desgraça dos outros, sublimando a vontade de se pegarem. Ana Marcela, você é retada, só a Bahia não reconhece!

Paulo Leandro é jornalista e professor doutor em Cultura e Sociedade.

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